Arroba Sparapanni

(Angélica)

Era de se esperar que eu ficasse inquieta ou ansiosa com esse encontro, mas não fico. Tantas coisas aconteceram, que não lembrar o espaço que alguém ocupou na sua vida é apenas mais um buraco numa rede que está toda furada. Por isso, ainda caminho um pouco pela rua Augusta. A atendente de uma loja xing-ling balança a cabeça concordando com todas as minhas perguntas ao me vender um miniventilador com orelhas de gato. São Paulo não era tão quente. Ao entrar na livraria Cultura, em vez de ir pro café e bisbilhotar a página do arroba Sparapanni, passo um tempo ao lado do móvel com os últimos lançamentos. Depois de ler algumas páginas, resolvo comprar O Poeta Chileno do Alejandro Zambra.

– Antes de dormir, pense só no que for bom.

Desde que o doutor Abelardo, meu psiquiatra, falou isso, tenho acordado com um livro em cima de mim. Antes de ir embora, pego um pão de queijo pra viagem. O morador de rua, que fica na frente de uma casa abandonada perto do meu prédio, toda vez que me aproximo, arregala os olhos e sorri. Ele sabe que ganha uns trocados quando me chama de menina.

Mal entro em casa e já coloco a chaleira no fogo. Enquanto espero a água ferver, me debruço no balcão que separa a cozinha da sala. Ao ver minhas havaianas ao lado da mesinha de centro com as solas viradas pra cima, me imagino com os pés enfiados nas tiras, as pernas fincadas na laje e pendurada de ponta-cabeça no teto do apartamento de baixo como um lustre. Era assim que eu me sentia na clínica: presa num lugar estranho, esperando que os remédios fizessem efeito e me puxassem do teto pra que o médico me desse alta. Por mais que eu não queira pensar nisso, é impossível, Doutor Abelardo. A chaleira apita como se dissesse que é hora de parar. Coo o café e com ele e o pão de queijo nas mãos, vou pro sofá.

Por uns segundos a luz do celular incomoda meus olhos. Sparapanni. Com três toques entro no perfil do fantasma que acabou de se deitar na minha rede. Tem mais de sete mil seguidores. As fotos recentes são dos quadros, todos abstratos. Pelas formas arredondadas diria que alguns parecem um útero ou uma onda. Muito preto. Nas pinceladas mais suaves azul cobalto, verde petróleo, cinza e laranja escuro. Gosto da maioria.

Boa parte dos comentários está em inglês. Numa conversa com uma tal de Lisa descubro que ele se chama Bruno. Bruninho, ela escreve. Comenta quase todos os posts, alguns ele só curte, outros responde sem deixar transparecer se eles têm algum tipo de relacionamento ou se ela é só uma fã abobada. O perfil da babona é privado e por a foto ser muito pequena, não dá pra saber ao certo se é bonita.

Bruno aparece pouco. Lá pra baixo, numa das fotos, em que comemora o seu aniversário com alguns amigos num bar de Manhattan (como diz a localização), encontro um nome conhecido: Tatiana Madeira. Uma amiga em comum, vou pra página dela. Depois de percorrer diversos posts de cachorrinhos abandonados, vejo uma foto em preto e branco que assim que bato o olho sobe um frio na minha espinha. Confusa, tomo um gole de café e, numa mordida, engulo metade do pão de queijo. É de um lugar que trabalhei. Um estúdio de fotografia que ficava numa casa em Pinheiros. Tatiana, que era uma espécie de atendimento, está de pé ao lado de um armário cinza que dividia a sala de arte da recepção. À direita, o Bruno, bem mais magro e com os cabelos quase nos ombros. Não entendo o que ele está fazendo ali. E no canto da foto, sentado numa cadeira de rodinhas e de costas pra um computador, o Tibério, que era um dos estagiários. Eu tratava as imagens do mundinho fashion que iam pras revistas femininas.

Por ter morado muito tempo no Rio de Janeiro, Tatiana carregava no sotaque. Baixinha, só ia trabalhar de salto. Tinha a bunda grande e os seios minúsculos, sem o sutiã com enchimento sobravam apenas os bicos embaixo da blusa. Rosto fino e o nariz também. Gastava uma grana no cabeleireiro pra fazer escova e retocar as luzes, era quase loira. Ela sofria, e como sofria, sofria por tudo, falava miando e exagerava tanto que chegava a ser engraçado. Apesar de todos saberem que era tudo balela. No meio desses pitis, aproveitava pra passar parte do que ela tinha que fazer pra quem estivesse dando sopa. Às vezes, quando ela chegava de ressaca e todo mundo estava no estúdio, dormia embaixo da mesa. Num dia depois do almoço, Tatiana voltou com uma sacolinha pendurada nos ombros. Fumou um cigarro no jardim do fundo, ali tinha um banheiro pequeno ao lado de um tanque. Cinco minutos depois, entrou na sala de arte de biquíni. Desfilava de um lado pro outro e perguntava se tinha ficado bom. Acho que pra não sujar os pés, calçou as botas de novo, que iam até um pouco acima da canela. Quase caímos da cadeira de tanto rir.

O Tibério era bem mais jovem, claro. Ruivo, um metro e setenta e cinco mais ou menos, duas entradas na testa. Seus olhos caídos no canto faziam com que ele parecesse um garotinho que os pais esqueceram de buscar na escola e que olhava pra você pedindo colo. Isso funcionava muito bem com as mulheres. Aos vinte anos já tinha dois filhos de mães diferentes e numa manhã chegou contando, num tom nervoso e ao mesmo tempo alegre, que uma outra estava grávida. Ou uma delas? Não me lembro. Eu brincava que ele era um coelho e que devia ficar num cercadinho comendo só alface e cenoura. Reforçava o “só” e ele sorria pra mim como se tivesse acabado de devorar uma feijoada dupla e próxima coisa que ia fazer era coçar a barriga. Tibério? Eu precisava repetir o nome dele umas três vezes pra que me respondesse. Vivia com a cabeça na Lua, ou melhor, em Vênus. No meio da tarde, desaparecia levando o celular.

– Sai do banheiro, Tibério! – alguém gritava. – Uma fulana que não entendi o nome quer falar com você.

Ele saía apressado e depois que todos riam, ficava bravo. Caía sempre na mesma lorota, mas era esperto pra se safar das investidas da Tatiana quando ela queria tirar o corpo fora de algum trabalho.

Me vem uma ideia besta, conversar com ela pra tentar descobrir alguma coisa a respeito do Bruno, mas desisto logo. Faz um tempão que não nos falamos. Acho uma foto minha mais ou menos daquela época: umas mechas claras voando no meu rosto e os olhos um pouco fechados por causa da claridade. No fundo, o mar. Posto e escrevo hashtag tbt e invento um lugar, nem sei onde foi tirada. Enquanto bebo mais uma xícara de café, vejo se Tatiana curtiu ou comentou algo, se der uma deixa, puxo qualquer assunto. Isso não acontece.

No começo da noite, ouço o barulhinho de que chegou uma mensagem. É do signore Sparapanni. Acho melhor não abrir.

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