Começar do zero

(Bruno Vicentini)

Aperto na tela do aplicativo o botão de reproduzir, e penso que odeio muito quem manda áudio. A pessoa que manda áudio em vez de escrever acha que o tempo dela vale mais do que o seu.

– Brunão! Velho do céu. Tô preocupado!

Ninguém me chama assim desde o ensino médio. Só que o Tufão não sabe disso. Hoje sou mais conhecido por Bruninho, devido a um episódio que não convém contar aqui nesta crônica (pode ser o objeto de uma próxima, quem sabe). Mas o Tufão também não sabe disso. Fazia quase vinte anos que a gente não se encontrava.

Olho pro celular e vejo que há outros arquivos de áudio, vários, em sequência. Odeio quem manda áudio picado.

– Acho que ontem eu saí sem pagar! Não lembro de nada!

Seu nome é Rafael. Seu apelido, Tufão. Há (pelo menos) cinco explicações diferentes pra esse apelido, mas nenhuma delas é muito confiável. Meu palpite é que seja uma tradução (meio equivocada) da palavra Hurricane. A canção do Bob Dylan? Neste caso, não. Aqui em Maringá, Hurricane é só o nome de uma loja de skate. O Tufão tinha uma sacola dessa lojaque ele guardava como se fosse um objeto sagrado. Mas ele não andava de skate. Nem ele nem nenhum de nós.

Éramos a banda podre do colégio. Os esquecidos, os desajustados. Pode observar, tem sempre uns quatro ou cinco em cada turma. The outsiders. Na melhor das hipóteses, esses desafortunados se identificam uns aos outros e se organizam, se agrupam. Foi o que aconteceu com a gente. E na minha infância, o palco principal desse agrupamento foi o prédio onde o Tufão morava. Seu quarto era um templo dos miseráveis. Foi lá que eu conheci as armas que usaria pra me afirmar e me defender dos babacas do colégio: a Internet e o rock alternativo.

O Tufão morava com a mãe, mas ela nunca tava em casa. Talvez por isso o apartamento vivesse cheio de pequenos esquisitos. Diziam que se a gente entrasse no quarto da mãe do Tufão e fechasse a porta, o silêncio lá dentro era tão grande que dava pra ouvir o nosso próprio sangue correndo nas veias. Me lembro de ter entrado apenas uma vez. Era um quarto sem janelas, com um armário muito antigo de madeira escura, a cama coberta por uma colcha de lã xadrez vermelha. O cheiro era de vick vaporub e lustra-móveis. Fiquei parado no meio do quarto, com os olhos bem fechados, mas não ouvi nada de diferente.

Quando a gente tinha catorze anos, o Tufão deixou Maringá pra trás. Foi estudar num internato agrícola. Depois o pai morreu e ele foi pra Chupinguaia, em Rondônia, tocar a fazenda que tinha ficado de herança pra ele e pros outros dez irmãos e irmãs. A gente ficou assustado, porque ninguém sabia que o Tufão tinha irmãos e irmãs. Nem que o pai era fazendeiro.

Como uma pequenina vingança, gravo também um áudio pra responder:

– Fica tranquilo, cara. Você pagou a sua conta, sim. Pagou a minha também, depois da gente quase sair na mão porque eu não queria deixar. E mais umas três ou quatro, duns gaiatos que tavam perdidos lá no balcão do bunda-de-fora. Tá tudo certo.

Não dá pra dizer que o nosso reencontro tenha sido algo diferente de um fiasco. Fizemos o possível pra buscar um terreno em comum, pra encontrar um assunto, qualquer um, em que os dois concordassem. Falhamos, os dois. Nem mesmo as velhas histórias reverberavam. Era como se não tivessem ocorrido conosco, mas sim com outras pessoas. A vida nos levou por caminhos muito distintos. Ele pensa em voltar pra Maringá, por conta do terceiro divórcio. Filhos também são três, todos do primeiro casamento. Eu não tenho filhos. Divórcios, tampouco. Ele diz que o seu primogênito já tem catorze. A mesma idade que a gente tinha quando o Tufão trocou Maringá por Chupinguaia. Quando percebo o paralelo, sinto o peso furioso do tempo.

A pandemia e o isolamento nos levaram embora um certo verniz de convívio. Estamos vacinados, mas perdemos nosso traquejo social, de modo irreversível. É como se tivéssemos que aprender tudo de novo. Como se tivéssemos que começar do zero.

– Velho do céu, então eu paguei, é? Que bom, jurava que tinha te dado os canos. Vai ver que eu passei no crédito, deve cair só na segunda-feira. Menos mal. Tô numa ressaca lazarenta. E aí, quando vamos marcar a próxima?

Como se tivéssemos que começar do zero.

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