por Américo Paim
Hoje podemos dizer que foi meio como uma modinha, ali na primeira metade dos anos 1990, quando muitas empresas descobriram o novo pote de ouro no fim do arco-íris: a qualidade total. Não quer dizer que não funcionou. Longe disso. Renato se daria muito bem com aquilo alguns anos depois, mas na época, assim como outros, teve dúvidas e fez muitas piadas. Começavam suas primeiras experiências como gestor e ele nem tinha certeza se queria levar a carreira para aquela direção. Porém, estava com quase quarenta e algo tinha que ser feito. Há dois anos que tinha a sensação de chafurdar em um balde de merda, o que tinha piorado nos últimos seis a oito meses. E não era assunto profissional. Não vou contar aqui o nome da empresa, uma manufatura de plásticos de segunda geração, mas ela ia muito bem e era um ótimo lugar para se trabalhar. O problema era o casamento, uma piscina olímpica de desastres e frustrações.
Ele se olhava no espelho e gostava do que via. Os cabelos estavam lá e resistindo bem ao grisalho, poucas rugas, manchas ou marcas na pele – genética generosa, nada de óculos, barriga ainda discreta, saúde em ordem. Se via um homem bonito e bem encaminhado. Então por que, após dez anos de união, ele e Tatiana não funcionavam mais? O que dizer dela? Ainda causava uma impressão onde passasse. Alta, esguia, andar elegante de passos calculados. Agora usava cabelos curtos e voltou às saias. Braços, pulsos e pescoço sempre ornados com alguma peça. Passou a usar óculos há uns meses, o que só aumentou o seu charme natural. Ela não falava mais sobre eles e o via o grande culpado, mas como ele poderia saber que era estéril? Não pensaram nisso antes e agora não tinha remédio. Desde que ele propôs a adoção, o caminhão começou a descer a ladeira. Ela, que estranho, passou a andar cada vez mais emperiquitada e não parecia ser para ele, que coçava a cabeça buscando protuberâncias. Desistiu de contratar um detetive porque já devia ser um cara galhado e meio que foi o que o moveu para o que aconteceu em seguida.
Em um momento em que se achava confiante, a empresa o surpreendeu com uma tarefa diferente. Não era punição e sim teste. Liderar uma comissão para pesquisa de avaliação de clima organizacional. Renato trabalharia para o gerentão da área de RH, que estava envolvido com a reengenharia dos perfis dos profissionais da companhia. Por que ele, um cara da produção? A equipe já tinha sido montada e pareceu que ele era só um tapa buraco. Conheceu o time na primeira reunião, em uma sala árida, com uma mesa grande e cinco cadeiras, decorada com fotos dos vários produtos de ponta da fábrica. Já ali ficou claro que a maioria achava o empreendimento inútil e que seria engavetado com requinte.
Ele já tinha trabalhado com Tinoco, de suprimentos, antigo na empresa, conhecido como pernalonga. Sujeito na dele, barriguinha de cerveja, bem-humorado, com bigode maior que a boca. Parecia saído do tempo do império, com roupas cafonas e cheirando a mofo. Clemiro, do RH, era o típico jovem antenado, cabelo impecável, óculos de último tipo, entendido de manuais. Recitava normas e regras como ninguém. Janice, da contabilidade, a feia simpática, de poucas palavras, raciocínio rápido e voz segura, seria a relatora. Contava que a cicatriz no braço esquerdo foi acidente de carro, mas as candinhas de plantão juravam ser porrada do marido. E Otávia da informática? Ah, ali morava o problema. Era a única que ele nunca tinha visto de perto. Fosse só o belo rosto, de sorriso e olhar venenosos, já seria complicado. Acontece que ela falava macio e tinha curvas até onde não deveria ser permitido. Não era discreta e o balanço no andar parecia natural. E então Renato, um cara todo certinho, não durou três dias. Logo só pensava em tudo e mais um pouco com aquela mulher, de trinta e pouquinhos, que era casada.
– Tanto tempo de empresa e a gente nem se viu direito.
– Pois é menino, tudo se encaixa na hora certa.
– O quê? Ah, claro, acredito nisso.
– Vamos tirar esse atraso, então.
– Agora tá mais fácil.
– É só meter a mão na massa.
– Hein? Sim, temos muito trabalho.
– Espero que sim.
Apesar de nunca ter pulado a cerca antes, Renato não hesitou diante do que se oferecia. Sentia que seu casamento havia acabado de vez. Era assim que se respondia quando a consciência perguntava. Como nunca queria estar em casa, suas horas extras eram comuns. Tatiana nem dava mais atenção às desculpas e explicações. Um dia criou coragem e armou para ficar até mais tarde no serviço só com Otávia. Lhe disse que a levaria em casa, estava com seu carro. Ela sorriu e lhe disse que talvez não fosse para casa. Se agarraram na sala mesmo, mas tiveram bom senso de ir a um motel, onde a coisa toda foi espetacular. Ele reparou que sua pouca experiência com o ambiente contrastava com a fluidez da moça. E na hora? Ela uivava, miava, latia, como ele depois contou. Ele se achou o máximo. Nunca foi assim com Tatiana. Após duas horas, saíram. Ele esgotado, cheirando a tudo menos a hora extra de escritório. Ela querendo ainda mais. Em casa, Tatiana parecia não se importar mesmo. Otávia não comentou sobre como foi na casa dela.
Por dias e semanas seguintes, ele e Otávia repetiram várias vezes. Em uma ocasião por muito pouco não os pegaram no almoxarifado. O tesão e as loucuras sexuais tiravam de Renato o resto de noção das coisas. Aquele corpo perfeito, de carnes duras e cheirosas, mãos, pernas e língua taradas, a entrega às fantasias mais insanas, a liberdade de experimentar, tudo o fascinou e só complicava cada vez mais. Logo ele havia falado e feito demais, de sentimentos gratuitos a promessas idiotas, passando por contação de aventuras em bebedeiras com melhores amigos. Estava de quatro. E o marido da criatura?
– Você nunca fala dele, Tatá.
– Pra quê?
– Ué, é seu marido.
– Esqueça isso, gorilão.
– E se ele aparecer?
– Não vai acontecer.
– Ele nunca tá na cidade?
– Já lhe disse que trabalha em outro estado.
– Como é que deixa você assim?
– Ele é um bundão. Casamento de merda.
– Por que não separa?
– Tá falando de mim ou de você?
Mesmo achando tudo estranho, Renato jogou pra cima. Quanto mais sexo, melhor. Nem se sentia uma criatura escrota. Não pensava mais em Tatiana, nenhum sentimento de culpa. Alimentava na cabeça que apenas devolvia os cornos que acreditava tomar. Até o dia em que topou transar na casa de Otávia, convencido por um papo de não ter que gastar dinheiro e que o marido estaria fora por trinta dias.
Não vou declinar aqui onde ficava o apartamento dela, mas Renato teve uma sensação estranha quando entrou lá. Procurou e não achou foto do marido. Ela, como sempre, bem à vontade, sem medos, inseguranças ou mimimis. Era uma cama queen, com cabeceiras simples e um quadro de arte abstrata na parede atrás dela. O curioso estava na estante da TV. Alguns livros desinteressantes, uma estatueta do Mr. Magoo, miniaturas de bicicletas, lembranças de viagens a cidades estrangeiras, duas garrafas de uísque lacradas, um vaso com flores que talvez fossem de plástico, um pequenino aquário apenas com água, um armário com duas portas fechadas abaixo da televisão e acima dela uma pintura antiga, com várias pessoas em uma cena bucólica. Pareciam olhar para o casal. No sexo, ela gritou mais que o habitual, falou umas palavras estranhas soando como um outro idioma e fez as vozes de bichos. Foi bom como sempre.
Em poucos dias, esse novo ritual deixou o cara meio cismado, a ponto de não querer mais fazer ali. Ela concordou que era melhor porque já estava perto de o marido retornar. Aquilo já incomodava Renato que a essa altura já pensava em como se separar para viver com ela. Planejava propor isso em breve. Estava criando coragem para falar com Tatiana. Clássico.
No início da última semana de trabalho do grupo, ela não apareceu. Precisavam fechar o projeto para apresentarem à diretoria. Nenhuma notícia de Otávia. Fizeram a parte dela, apresentaram e correu tudo bem. O grupo foi desfeito e cada um seguiu seu destino. Sem se conformar e até preocupado, Renato chegou a fazer plantão em frente ao prédio dela, sem sucesso e sem entender as razões para o sumiço. Mais uma semana passada, como ninguém comentasse, foi se aconselhar com Tinoco.
– Essa é a história, tô comendo a Otávia.
– Tava na cara, né?
– É mesmo? Será que…
– Ah, relaxe, tá na empresa toda.
– E agora?
– Nada, ué. Não é novidade.
– Como assim?
– Ela é chegada a isso.
– A quê?
– Pega, se diverte e larga. É ela quem tá te comendo…
– Oxe, teve outros?
– Tô lembrando aqui de Olavo cachorrão, Sérgio touro, Bodão da ferramentaria. Teve mais.
– Tá de sacanagem comigo, velho?
– Não, é verdade.
– Não acredito. A gente tá apaixonado!
– Ela não tá, lhe garanto. Faz parte da putaria toda. Ela não segue a regra.
– Qual?
– Não dê comida aos animais que eles grudam no seu pé.
– Como é que não enxerguei isso?
– Você é só mais um Mr. Magoo, meu caro.
– Ei, tem uma estátua dele no quarto dela. Como sabe disso?
– Todo mundo sabe. Só não fala.
– Que piada é essa?
– Me fale do aquário.
– Até isso cê conhece?
– Tava vazio?
– Cê tá falando e tá me dando um estalo.
– Aham…
– Tava vazio todo dia, mas no último…
– Tinha um bicho dentro.
– Porra, verdade. Era um mico.
– Sugestivo.
– Ei, qualé? Acha que é o quê?
– Sei não. No meu tempo foi um coelho.
