-Bora?
-Sabia que tem um vento que se chama Bora?
-Tás me enrolando, Leo?
-Juro a tu, Bela. É tão forte o negócio que tem até corrente espalhada pela rua pro povo se agarrar quando ele passa.
-Ui, corrente. Amo. Vem aqui, me agarrar, vem.
-Bora!
Isso nos cinco minutos de troca de roupa. Campanha hoje, a pauta é batizado. Dois looks por modelo, 5 modelos. O estúdio é o de sempre, maquiador com pincel e pó antialérgico pra nada, que bebê não precisa de pó, o assistente dele com escovinha de cabelo da Peppa Pig, os do fotógrafo entre as luzes, as lentes, o fotômetro, o computador e os bichinhos de pelúcia, os da moda joiados e aos saltos se queimando no steamer, tudo com cheiro de lavanda Johnson’s. Mãe e equipe contornam um Jojô macio e reticente, que se deixa manipular entre macacõezinhos de linho, malha, plush, olha esse que amor, enquanto editora e fotógrafo aproveitam o refeitório vazio. Os dois certos da discrição que nunca existiu, ocupam com gargalhadas cada milímetro do galpão na Vila Leopoldina.
Leo ri do ombro pra barriga. Um sobe e desce de trapézio superior, medial, inferior, clavícula, escápula, tudo se desenhando na camiseta de malha fininha, se dobra, se sacode inteiro, em obediência à música escolhida pela mãe de Jojô para animar o ensaio. Pra Bela a trilha também serve. Desde que chegou sente a formiguinha que não para de subir.
Tá com gêmeos pagãos em casa, da idade de Jojô. Esse é o primeiro job que entra depois da licença. A agente administrou os clientes desejosos da dupla do parto até o quarto mês. No mercado, são chamados de milagreiros, com eles não tem erro. Pedem dois minutos sozinhos com a criança no estúdio, sai todo mundo pra gente se conectar, e aí quatro gotinhas de conexão e não tem bebê que não imprima a carinha de cócegas recém feitas que o cliente quer ver.
Jojô, Tylenol. Paulinha, Tylenol, Vitória, Tylenol, Guilherme, Tylenol, Lorena, Tylenol. Ela tinha sentido falta de saber fazer alguma coisa. De querer fazer alguma coisa. Nunca levaram o caso pra fora do estúdio, nem pra adiante da sessão. O gosto é o do soluço de um bebê; de pouquinho, com angústia e ritmo. Cada clique, vinte minutos, mais dez de troca, vezes dois, vezes cinco, se chegaram às 8h, às 2h no máximo, o marido de Bela estaciona a Land Rover branco leitoso com as cadeirinhas ocupadas na porta do estúdio. Ela vai entrar no carro cheia de foto fofa de backstage no celular, e peito vazando, e muito obrigada por ficar com eles, e tu é o pai do ano, e cadê os nenês. Ele vai deixar o trio em casa e seguir para o hospital, bendito entre as enfermeiras do bloco cirúrgico. Voltará depois das 10h. Ela tomará o último banho cantarolando Galinha Pintadinha e Mundo Bita. Os dois deitarão exaustos para punhadinhos de sono.
-Como foi teu dia?
-Tudo igual, Bela. Bora dormir que já já eles te acordam pra próxima mamada.
-Amor, sabia que existe um vento que se chama Bora?

