Silvia Argenta
Desde que a cigana me contou que meu amor da galáxia tem a alcunha de cevada, não bebo outra coisa. Estou sempre com um copo de cerveja na mão na tentativa de atrair o dito cujo. O tipo de bebida depende do humor do dia. Quando estou amarga, IPA. Quando tudo flui na maior facilidade, pilsen. Quando quero algo encorpado, trigo. E por aí vai. Tem também os dias que não quero nada com nada. Daí enfio o pé na jaca com cachaça, catuaba ou vodka. São meus recados para o universo.
Hoje estou naqueles dias facinha facinha. Com um copo plástico cheio de cerveja e um cigarro na mão, sou surpreendida por um garoto de uns dez anos que bate no meu braço sem cerimônia alguma. O tempo de eu me assustar e me recuperar para entender o que está acontecendo é infinitamente maior do que o do menino catar o cigarro do chão e virar a esquina.
Assim que o surrupiador desaparece, percebo a silhueta de um homem. Não consigo ver o rosto na contraluz do poste, mas me parece inofensivo por causa dos braços magros e compridos. Tem umas trinta pessoas na calçada, e ele chega perto de mim na mesma velocidade do cheiro da cerveja quente que sobe do cimento poroso. Ele se aproxima do meu rosto e noto as narinas dilatadas. Quando ele abre os lábios, corro e entro na boate. Cerveja no chão não vale, universo!
Subo os quinze degraus da escada preta e escura e vou até o balcão pegar outra pilsen. Penso no homem e não o imagino ali dentro. Não tem idade nem cara de que gosta da Lovefoxxx. A muvuca dos rapazes recém saídos da adolescência não parece ser um ambiente confortável para ele. Nem para mim tem sido desde que flagrei duas garotas consultando o Shazam quando tocou Blue Monday na pista. À espera da diva sexy, me sinto um pouco deslocada no canto do salão.
Um rapaz percebe meu incômodo e tenta conversar comigo. Não sei se quer me deixar confortável ou se aproveitar da minha visível vulnerabilidade. A luz baixa e o som alto atrapalham nossa comunicação e começamos a dançar no ritmo do Molchat Doma, balançando o corpo para frente e para trás, chutando uma perna de cada vez. Me lembro do meme do gatinho que dança essa música e me distraio do garoto, que só me chama atenção de novo por causa dos cabelos pretos, na altura dos ombros. Com o movimento, ficam batendo no copo de gin que ele segura. Começo a achá-lo estranho porque a bebida não combina com punk. Deixamos de nos olhar, e ele joga algo no meu copo. Finjo que não vejo e entorno a cerveja. Universo, é cerveja pura!
Volto para o balcão e peço o que mais tem de cerveja por ali. A moça me mostra Itaipava e Bud. Da primeira sei do histórico de caganeira, então fico com a segunda, quem sabe é o apelido do meu futuro pretendente. Vou para a pista depois do pessoal ovacionar a Lovefoxxx, que começa a noite com How many beers can you drink until your breath starts to stink?. Segundo fingimento da noite. Não é comigo.
Sem espaço nem para levantar os braços, os jovens ao meu lado pulam o tempo todo e eu quase nem toco mais os pés no chão. Olho para o espelho do teto e sinto pena por não conseguir alcançar o celular e filmar o efeito da luz colorida no globo. Me concentro em três coisas: segurar minha bolsa, não cair nem deixar a longneck escorregar pelos meus dedos. Não sei por quanto tempo fico presa ali.
No intervalo, o povo se dispersa para sair fumar e ir ao banheiro. Vejo algo preto no canto do salão escuro e só quero me sentar. Quando encosto a bunda, percebo que não é um banco e sim um cesto grande de lixo e espalho garrafas e latas na pista sem ter tempo de disfarçar. Um rapaz me ajuda a levantar e sai de perto. Um funcionário começa a juntar o lixo do chão e viro as costas dando um gole na garrafa que está na minha mão desde o início do show. Cerveja quente não, universo!
Mais uma vez vou para o balcão e a moça me diz que a Bud acabou, mas chegou outra cerveja que não é Itaipava. Entrego a ela a última ficha e ela me dá mais uma longneck. Bebo tudo de uma só vez. Quando termino, vejo o homem que se aproximou de mim lá fora. Agora ele está com um chapéu de cowboy na cabeça. Será que ele entrou na boate para vir atrás de mim? A galera em coro: hay passado mucho tiempo, el caballo alado no llegó, me estoy desesperando histerica subiendo las paredes, ay que horror…
A pista agora está coberta por uma névoa. Não dá para enxergar nada além da ponta do nariz. Lovefoxxx termina o show e começam a tocar Joy Division. Daí, aparece no palco um homem com uma capa gigante e cara de vampiro. Ele bate correntes grossas nas esquadrias de metal que separam a mesa de som dos clientes da boate, causando um clima tétrico. A cada movimento, ele abre mais a boca e arregala os olhos. Ele me encara e parece sugar até minha alma. Me sinto desidratada e decido sair. Quando chego à porta, olho para trás e percebo os quinze degraus da escada preta. No meio, um corrimão de ferro ajuda os bêbados a descer para sair na rua. Lá em cima, o homem de chapéu de cowboy começa a ter convulsões e os pontos de alguma cirurgia saem e ficam pendurados pelo nariz, virando os tentáculos de um polvo. Só digo uma coisa: jamais beba Heineken! Universo está de sacanagem!
Na rua, o totem que marca temperatura e horário mostra que é meia-noite. Tento prestar atenção nos carros para atravessar, mas não me conformo com essa informação. Tiro o celular da bolsa, que me indica que são quatro horas. Olho para o celular e para o totem algumas vezes tentando concatenar o que está acontecendo. Paro o trânsito, fico no meio da rua e pergunto: QUE HORAS SÃÃÃÃOOOO? O corpo não pode estar tão cansado assim à meia-noite. Sem ajuda de ninguém, desisto de entender.
Caminho pelo calçadão chutando tudo que é lixo que encontro pela frente. Faço mímica para as câmeras dos policiais. Tento andar de patinete alugado, mas o aplicativo não funciona. O moleque de dez anos aparece e dou a ele a carteira de cigarro – e com o isqueiro dentro. Encontro uma padaria aberta. Percebo minha bota toda melecada de iogurte e chorume. Me convenço que a cigana me enganou. Peço um expresso para tentar voltar ao normal. Quando olho na mesa da frente, o homem polvo de chapéu de cowboy está lá, mexendo o uísque com o indicador na xícara de café. Chamo o atendente e mudo o pedido: me traz uma caracu.
