A rua Doutor Amaral liga o Largo dos Santos à praça da Matriz. É um corredor delineado por prédios enormes e cinzas, quase marrons da sujeira e da idade, com pichações, lixo, uns bicudos que o atravessam com os olhos vidrados e os ombros totalmente encurvados pra frente. Esse é o cenário de uma hora boa do dia. Quando a música está no vai e vem dos corpos e não em caixas de som empilhadas como torres de lego, fazendo vibrar as portas de metal que fecham as lojas e rodopiando as poeiras emaranhadas de cabelos soltas nas quinas de concreto.
Quando os comércios de cosméticos e plásticos inúteis fecham, os bares ligam mais de suas luzes brancas, não tão brancas quanto as dos hospitais, e a música de verdade começa a ganhar volume. É grave atrás de grave. A extensão do corredor de cerca de 2km vira um pequeno beco abarrotado de jovens, semi jovens e quase não jovens que bebem cervejas distribuídas em copos descartáveis de 300ml. Muitos usam bonés, outros têm latas de spray encaixadas no bolso traseiro da calça jeans. As camisetas são sempre mais largas do que seus ombros. As meninas-mulheres têm seus quadris desenhados pelas lycras brilhosas que substituem a cor da pele natural. Às vezes imitam o estilo de camiseta dos homens. Noutras empinam os seios quase descobertos, que dividem a atenção com o strass que escorre do umbigo. A fumaça é geral e de, no mínimo três tipos.
Os narguilés nunca atraíram Chico. Aliás, nem cigarro, fosse cigarrão ou tabaco. Seu lance é um beck ao longo do dia, fumaça densa, filtro de papel. Quando o seu acabava antes do planejado, a praça da Matriz era o lugar. Não era lá uma erva boa, mas dava pra passar a semana. O que ele procurava ali naquela sexta-feira era outra coisa. Aliás, outra pessoa, e não o dealer. Catita de Souza, a estrela da noite de quarta no Cabaret da Amália, com seus ombros largos e pernas torneadas, dona de um domínio sobre o salto que o próprio nome já indicava. Elegante, fina, atraente. Ela com certeza iria por ali, todo mundo ia. E seria fácil destaca-la no meio do fervo.
Chico mandava sua segunda cerveja e nenhum rosto conhecido tinha passado por ele ainda. Nem Mauro, nem Maurício. Carolina não era muito fã dali do pedaço, mas ia se ele pedisse, o que não seria possível hoje, porque está fora da cidade. Mais próximo ao largo, era um rap pesado que dava o tom da rua. Não por acaso era o trecho mais escuro daquela extensão. Os corpos balançavam de um lado pro outro de maneira pesada, como se tivessem um globo terrestre recheado de pedras que rolasse de uma extremidade à outra de seus ombros. Chico passava por eles e podia apreender os trechos das letras que saíam das caixas quando estavam cantando, outros se juntavam para desenhar em pé e o clima exalava concentração. Encostados nos prédios, diferente dos bicudos, derretiam sobre seus próprios quadris os cracudos. Um canudinho, a pedra na ponta, o isqueiro. Chico ficou com os olhos presos sobre uma panturrilha feminina em carne viva. A moça não parecia sentir dor. Seu cabelo era longo e ainda nem parecia tão sujo. Seria nova por ali?
Foi caminhando, encarando tantos olhos quanto podia. No meio do corredor as luzes iam ganhando mais brilho, a música trazia batidas dançantes, que ainda que graves e aceleradas, soava com ares mais leves. Ao andar, o corpo de Chico interagia com os dos desconhecidos, quase como se boiasse num dia calmo do Arpoador, e nem sentia falta mais de ter algum amigo ao lado. Mas ainda não via traços nem parecidos com os de Catita. Nenhuma saia de couro, nenhum casaco de paetê.
Enquanto flutuava na maré de gente, as ondas sonoras ficavam mais abstratas e pulsantes próximo à Praça da Matriz. Começavam a refletir lantejoulas em pontos esparsos que seus olhos seguiam sem conseguir fixar em nenhum. A luz os destacava e os apagava na mesma velocidade em que a música passava de um beat a outro. Viu de relance depois do canteiro um cabelo dourado que se movia tão firmemente como na hora em que se tira os bobs depois da touca de calor. Era ela. Chico foi certo em sua direção. Uma baforada de cigarro veio dentro de seus olhos, que lacrimejaram como se nunca tivesse passado por isso na época em que se fumava dentro do Cabaret. Esfregou-os com os nós dos dedos indicadores por no máximo 2 segundos. O suficiente para ver ainda o beijinho que foi jogado pela mão enorme de unhas vermelhas antes de Catita entrar no táxi e bater a porta. Era ela!
