Aérea, terrestre e o escambau

– Escolhe aí duas coisas. A gente pede uma hoje e eu peço a outra amanhã. 

– Não. Estragasse tudo já.

– Chatice tua, Camila. Tô dizendo que faço a surpresa amanhã. Qual é o problema?

– O problema é que se eu escolher e já souber que vai rolar não vai ser surpresa. Não dá pra se fazer cócegas, Guila, nem se dar susto. 

– Dá sim.

– Até dá. Mas não vou rir nem me assustar, né?

– Não entendi.

Guila, entende muito pouco. Quase nada. É como uma dessas frigideiras de teflon novo. Antiaderente. As ideias escorregam por ele, nem fixam, nem se transformam. Camila é garfo fazendo aquele barulho horroroso na tentativa de descascar alguma reação.

– É chegar em casa e ter um jantarzinho, uma vez na vida, sabe? 

– Oi?

– Tu me acha chata mesmo? – Perguntou se olhando no espelho. Ainda com a bolsa, 11 horas de escritório nos ombros.

– Tu é uma linda, isso sim. Vem cá.

– Sou nada, tô suada e com fome.

– Pois deixe de coisa, bora jantar, bora.

– Sei lá. Tás sempre brigando comigo?

– E desde quando isso é briga, Camila?

– E se a gente viajasse?

– Pra onde?

– Pra Bahia, pra uma casinha na serra, pra Carneiros, pra dentro da gente ou pra fora do mundo.

– Será que a CVC ainda tá de Black Friday?

– Ô Guila…

E ele abre a gaveta, da mesinha do lado do sofá, acha a seda, o fumo, e sai separando os pedacinhos, o dedo quase sem unha, espalha, organiza, aperta, enrola. Se lamber a seda, como está fazendo agora, é capaz dela dissolver a raiva.

– Não tem nada mais lindo no mundo do que tu lambendo essa seda.

– Vai mais pra lá um pouquinho que eu achei. Porto de Galinhas, all inclusive, 12 de R$645, aéreo e terrestre. Diga aí.

– Eu tava pensando numa coisa mais só a gente. Inventar nosso próprio porto, sabe assim?

– E Porto Seguro? Mirage Hotel. Uaia, 12 de R$216. Mas não é resort não. Ou Florianópolis logo, a galegada toda na praia. Costa do Santinho pra tu não dizer que eu sou miséria, 12 de R$324. 

– Ô Guila…

– Quê? Agora, se levar os meninos, quase dobra.

– Mas aí qual é o objetivo?

– E eles vão ficar com quem?

– Eu faria guarda compartilhada.

– Mas a gente vai cada um pra um lugar? Três dias só, rapaz.

– Não, digo se um dia a viagem não der certo.

– Aí, a gente fica em casa todo mundo logo. Se bem que acho meio massa cada um ir pra um lugar também.

– Será?

– A lá, Bariloche tá maravilhoso.

– Mas é que agora tá verão lá, sabe?

– Pois então, isso que eu não tô entendendo.

– Tá quanto Bariloche?

– Single tá 12 de R$443 e o casal, 12 de R$357. Isso com tudo, passeio e o escambau. Sem lavar nem um pratinho.

O perfil de Guila no Tinder abria com uma foto da Copa do Brasil de 2008. Era 2015. Ele com a camisa do Sport, coradinho de praia, uma cerveja na mão. Na descrição tava bem assim: “pareço legal, mas gasto muito detergente”. Ela chegou a arriscar uma lacaniada. Deter gente. Segurar, impedir movimento. Esse cara ou é grudento ou é encostado. Mas a camisa era daquelas antiguinhas, de malha, sabe? A cerveja parecia gelada.  E a segunda foto era a cena da seda, a lambidinha e o olho pra cima, encarando a câmera, um rescaldo de carnaval, ele de amarelo e vermelho. Preferiu acreditar que lavava louça. Puxou essa conversa mesmo e quando se deu conta já tava ouvindo Eddie com um Guila buchudinho e sem camisa na sala do apartamento de Pinheiros.

– Tás vendo tu? Custa caro ser solteiro. 

– Tudo tem custo, né não, Guila?

– Bora decidir isso depois do jantar? O pobre do Bonner já faz meia hora que fala sozinho. Pede aí.

Bariloche wooden sign with alps background

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