por Américo Paim
Cantídio e Belarmino são irmãos órfãos muito ligados, desde a infância em Pedra Velha. Estão com trinta e cinco e trinta e quatro anos. Rostos sempre joviais, bochechas magras, boca de fenda, olhar que se destaca com o nariz arrebitado de leve e o cabelo curto que ainda usam. Moraram na capital quando estudaram Medicina. Foi lá que trabalharam por alguns anos e conheceram Abigail, formada em Administração. Moça bonita, de pele morena, queixo redondo. Era muito falante e seu sorriso deixava todo mundo intrigado. Tinha voz firme e mãos delicadas. Ficaram muito próximos. Não demorou e Cantídio começou a namorar com ela. Nessa época, Belarmino decidiu clinicar na terra natal. Depois de uma vida inteira de parcerias, os irmãos, pela primeira vez, estavam em cidades separadas.
Após dois anos como médico em Pedra Velha, Belarmino conheceu Rosália e se casaram. O riso alto, os braços sempre em movimento, o olhar pidão, cintura fina e coxas grossas, tudo isso junto conquistou o moço. Ela veio de outro estado, abriu um pequeno restaurante, onde se conheceram e o namoro teve início. Durante todo o período, os irmãos só se encontraram em eventos profissionais, sem as mulheres. Cantídio nunca mais tinha voltado à sua cidade. Ficou feliz com o convite para o aniversário de trinta anos da cunhada. Só a viram antes na época do casamento e pouco conheciam de sua vida. Chegaram à cidade no sábado, dia do almoço festivo. Voltariam no domingo. Se hospedaram na Pousada da Pedra, a melhor do local. Já na festa, Abigail abriu a caixa de ferramentas, como sempre.
– Quanta breguice, viu…
– Rá, tava demorando.
– Decoração medonha.
– Mino puxou a papai com essas coisas antigas.
– Que nada, isso é coisa dela.
– Como sabe?
– Quem é que manda?
– É talvez você…
– Tenho certeza. E essa louça aí…
– Qual é?
– Coisa demais, enfeitada, desenhada…
– Achei bonito, se quer saber.
– Sem classe. Podia ser branca, lisa.
– É o gosto deles.
– O mau gosto, quer dizer.
– Mas a música tá boa.
– Som mecânico. Até eu.
– O que você queria?
– Festa em casa grande, devia ser ao vivo.
– Tá escrito aonde?
– Dá uma animada.
– Não gostou de nada então?
– Até agora…
– Não tô surpreso.
– Contrata quem entende. O visual melhora.
– Isso custa.
– Você disse que ele tá bem de grana.
– Sim.
– A mulher é que é fraca de estética.
– Ah, mas ela tá bonita…
– Tudo ali é fake, você sabe.
– Que despeito…
– Sem maquiagem a verdade dói.
– Tá dando na vista sua implicância.
Foram interrompidos por três sujeitos no limiar entre a alegria e o desagradável. Arrastaram Cantídio aos gritos de “crocodilo, crocodilo”, seu apelido de infância. Sumiram por uns quinze minutos. Quando ele voltou, o almoço estava por servir. Ela não perdeu tempo, como sempre.
– Seus amigos são uns animais, bando de bêbados.
– O que queria, uma missa?
– Ainda bem que não ficaram na mesa.
– A gente não se vê faz tempo.
– Bom pra você. E eu sozinha aqui, um perigo.
– Por quê?
– Alguém da família dela podia se chegar, aff…
– Dela quem?
– Sua cunhada, ora. Fala sério, olha só o visual.
– Dá um tempo…
– A roupa da de azul está dois números abaixo.
– Não é desfile de moda.
– E a de vestido marrom? Não sabe passar roupa?
– Tá me ouvindo?
– Não, pera, olha aquele cabelo!
– Que saco, só crítica.
– Ah, tá até engraçado. E nem falei dos homens…
– Sei bem o que está lhe incomodando.
– Só alivio para os velhinhos porque ninguém liga mesmo.
– Então o que se salva na festa?
– Talvez a comida.
– Falando nisso, vamos nessa?
O almoço foi farto e diversificado. À beira da enorme mesa, o casal trocou rápidas palavras com os anfitriões e algumas pessoas que ali gravitavam. De volta à mesa, novas impressões.
– Esse lombo tá uma coisa, né?
– De ruim. Tá salgado. Você nem devia comer.
– Tá uma delícia.
– O risoto devia ser al dente e não pra partir o dente.
– Nem provei ainda.
– Sorte sua. Parece quebra-queixo.
– Porra, tá difícil.
– O que tá difícil mesmo é essa batata quase crua.
– Caramba, nada presta?
– Agora você acertou.
– Você não vai comer? Qual é seu problema?
– Estar aqui. Não vi vantagem ainda.
– Rever meu irmão, Rosália, meus amigos…
– Acabou o argumento?
– Lhe aborrece estar com eles? Todo mundo foi gentil com você.
– E daí? Obrigação. E seus amigos, por favor…
– Fizeram o quê?
– Os de lá de casa são chatos e os daqui são grosseiros.
– E suas amigas, aquelas fofoqueiras?
– Melhor que esse zoológico aqui.
– Porra, vamos mudar de assunto? Pelo menos de Mino tu gosta…
– É diferente, mas nem ele escapa zerado daqui.
– Tá falando de quê?
– Da cegueira. Pelo visto, genética.
– Fale português, por favor.
– Nossa anfitriã…
– Qual é o babado com Rosália?
– Preciso falar? Muito atirada.
– Quanto veneno.
– Presta atenção. Se encosta em um, abraça outro.
– É aniversário dela.
– E aí vale tudo? Olha lá… E ele do lado.
– Para de se meter, mulher.
– E a cara de infeliz dele?
– Como assim? O que sabe sobre isso?
Cantídio foi de rompante ao bar, chateado. E sua cara de preocupação era indisfarçável. Lembrou do telefonema recente de seu irmão. Deixou escapar que não andava feliz, sem mais detalhes. O que estava acontecendo? Seria saúde? O casamento? Voltou à mesa e à conversa. Ela seguia afiada, como sempre.
– De onde você tirou essas ideias malucas?
– Ué, só olhe pra ela.
– Tá vendo coisa demais.
– Homem é besta mesmo. Ela tá se jogando.
– Cadê? Me mostre.
– Veja o magrinho de camisa amarela.
– O baixinho de óculos sem aro, do cabelo acaju?
– Ela não desgruda. Braço dado, mão no ombro.
– E daí? Por que sua preocupação toda?
– Você ia gostar de me ver assim?
– Que papo é esse?
– Viu que incomoda? O povo fala por aí. Ela trai seu irmão.
– Você nem vive aqui, demônia! A mulher só tá feliz.
– Ah, tá. Por que será?
– Que coisa feia.
– Olha lá, abraçou! Ele tem cara de amante.
– Mino tá ali perto. Ele é idiota?
– Vocês todos são.
– Que beleza…
– Olha lá. Carinho na cabeça, beijo na mão.
– Tá todo mundo feliz, rindo.
– E deve ser de Mino.
– Você pega pesado demais. Melhor parar.
– Ele tá com cara de corno barro.
– Que diabo é isso?
– Todo conformado.
– Puta que pariu!
– Esse casamento já foi, viu?
– Que boca. Ela só é espontânea.
– O jeito que se olham? Ali tem.
– Tem na sua cabeça maldosa.
– Ele merecia coisa melhor.
– Para mim ela parece muito legal.
– Ele parece muito corno, isso sim.
– Ah, chega, desisto.
Cantídio foi dormir cheio de minhoca na cabeça. Abigail não aliviou nada e quando chegaram à casa de Belarmino para o café da manhã no dia seguinte, o clima pesou.
– Rosália, bonita festa ontem.
– Que bom que gostou, querida.
– São amigos íntimos?
– Sim, quase tudo família, por quê?
– Todos muito à vontade.
– Sempre foi assim.
– Não acha que exagerou?
– Do que está falando?
– Aquele boyzinho ali está aqui de novo hoje.
– Ué, é meu convidado.
– Seja mais discreta.
– Não entendi.
– O que seu marido acha dele aqui?
– Tá se acostumando.
– Sério? Quem diria.
– Foi surpresa no começo, mas agora tá tudo bem.
– Ah, faz tempo?
– Uns meses. Foi inesperado.
– Então você não tava procurando?
– Como? Essas coisas não podem ser previstas.
– E o que vai fazer?
– Ué, conviver o melhor possível.
– Quanta modernidade.
– Ele vai se mudar pra Pedra Velha em breve.
– Ah, é de fora?
– Sim. Assim que soube o que era, fui atrás.
– Que vontade, hein?
– Você não faria o mesmo?
– Querida, não somos iguais.
– Estranho.
– Oi? Esquisito é ser casada e sair por aí pegando homem. Pronto, falei.
– Tá louca? Onde me viu com alguém?
– Ontem, com ele, na frente de seu marido.
– Tá falando de quem?
– Já disse, aquele… Ei, tá rindo de quê?
– De você, fofoqueira dos infernos. Aquele é Tibério, meu irmão.
– Hein? Que irmão?
– Filho de meu pai. Descobrimos há pouco tempo.
Logo Abigail inventou dor de cabeça e arrastou Cantídio embora. No caminho de volta à capital, ouviu poucas e boas dele. Acabou o domingo com uma enxaqueca, essa verdadeira.
Na segunda-feira, ainda de ressaca, ela foi ao restaurante. Entrou na sua sala e, sentindo-se segura, abriu uma gaveta. Afastou papeis e pegou a foto. Olhou lenta, sorriu, beijou e guardou de volta. Pensou como Belarmino continuava tão jovem. Como sempre.
