Minha vida inventada

Larry David é um dos criadores de Seinfeld – maior série de comédia de todos os tempos – e de Curb Your Enthusiasm. Começou no stand-up e também foi ator de filmes como Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen. Há quem diga que o personagem George (Jason Alexander), de Seinfeld, é literalmente ele: egoísta, falastrão, mentiroso, inseguro, mão de vaca, arrogante, antissocial, pretensioso, sem noção, politicamente incorreto – pra resumir, vil. Mas não é o que se vê por suas memórias, cujos excertos ele recentemente publicou na New Yorker.

Notas para o meu biógrafo

Existem muitas coisas a meu respeito as quais tenho certeza que podem ser do interesse dos leitores. Coisas que nunca contei a ninguém. Sempre fui uma pessoa reservada, mas queria ter certeza de que deixaria algumas coisas registradas por escrito, caso alguma coisa acontecesse comigo – ou antes que eu esqueça!

Tipo, que tal isso: as pessoas podem se surpreender ao saber que eu sou um leitor muito rápido. Fiz um curso quando era criança e vai ser difícil encontrar um livro que não li. Os livros são meus companheiros constantes. Por exemplo, ano passado fui a Turcos e Caicos no Natal e li O Conde de Monte Cristo na ida e Anna Karenina na volta. Foi bom tê-los lido nessa ordem. Do contrário, teria arruinado minhas férias! Então, é isso, coisinhas bestas, desse naipe.

Não tenho certeza de quantas linhas devo dedicar à minha época de stand-up, mas pensei em algumas histórias que poderia valer a pena mencionar. Uma noite, no clube Improv, fiz uma mulher sentada na primeira fila rir tanto que ela teve convulsões e acabou perdendo a consciência. Chamaram uma ambulância e ela foi levada ao Hospital Roosevelt. Durante algum tempo ela correu risco de morte, mas felizmente superou. Eu a visitei no dia seguinte com o melhor buquê de flores que Nova York poderia oferecer e, humilde, fiquei ali parado enquanto ela repetia à enfermeira como eu era “tão engraçado”. Muito constrangedor, mas que podia fazer?

Dali por diante, todo mundo começou a me chamar de Matador. As pessoas iam ao clube em massa, perguntando se o Matador estava na casa. Não foi nada mau pra minha vida social também. Assim que eu terminava um show, meia dúzia de mulheres no clube vinha falar comigo: “Me mata! Me mata! ”, elas suspiravam. Eu escolhia duas e saía. Só que uma noite os maridos delas apareceram. (Eu não sabia que elas eram casadas ​​- juro por Deus!) Pra minha sorte, meu pai me ensinou a lutar boxe quando eu era criança, e sem dúvida poderia ter virado profissional se a comédia não tivesse me convocado. Em todo caso, nunca estive pra brincadeira. Expliquei isso calmamente aos dois maridos, mas eles não ficaram impressionados. Dois minutos depois, estavam deitados na calçada, aí suas esposas e eu entramos em um táxi e fizemos outra corrida pela cidade. Quando acabou, paguei uma rodada de bebidas pra todos, embora não tivesse um centavo no meu nome.

(Coisas interessantes, certo? Espero que sejam úteis. Bom, de todo jeito, estou de boa – você decide.) Não ganhava muito com stand-up naquela época, então pra apoiar minha incipiente carreira de comediante trabalhava de dia como guia turístico no Zoológico do Central Park. Sempre tive uma ligação profunda com os animais e achava que seria um trabalho perfeito pra mim. E até foi, só que uma vez um garoto muito interessado em um urso polar resolveu pular o parapeito pra olhá-lo mais de perto. Eu estava dando uma volta quando escutei uns gritos vindos dos pais da criança e corri lá. O menino estava no chão em estado de choque, enquanto o urso polar rosnava por cima dele, prestes a atacar.

Por sorte, alguns meses antes eu tinha visto uma palestra sobre uma das maiores autoridades em ursos do mundo, a doutora Meyer Dusenberry, que explicou que, se você ficar um dia cara a cara com um urso, tem que fazer muito barulho. Sem um segundo a perder, agarrei a tampa de uma panela de um carrinho de cachorro-quente ali perto, pulei a cerca e fiquei batendo a tampa contra as grades até que o urso saiu correndo. Então joguei a criança dentro de minha mochila de bombeiro (que usava desde meus anos como voluntário no corpo de bombeiros de NY) e devolvi a criança a seus pais agradecidos. Eles me ofereceram uma grande recompensa, mas recusei, dizendo que minha recompensa era simplesmente ver seus rostos felizes. Nenhuma quantia de dinheiro no mundo poderia superar isso!

Mantive contato com o menino durante sua juventude e, depois que seus pais perderam todo o dinheiro em um esquema de pirâmide, paguei seu colégio e sua faculdade de medicina. Hoje ele está prestes a fazer uma descoberta monumental na pesquisa do câncer, e me disse que foi fotografado para a próxima capa da Time. Eu disse pra ele que preferia permanecer anônimo no artigo a seu respeito. (Você não precisa incluir isso no livro, mas, se quiser, acho que não há nada que eu possa fazer.)

As pessoas sempre me perguntam o que eu teria feito se não tivesse me tornado um comediante. Além das já mencionadas passagens pelo boxe e pela veterinária, também fui uma criança prodígio ao piano. Quando tinha oito anos, tocava perfeitamente a sonata Hammerklavier de Beethoven nº 29 em si bemol maior. Não há como dizer o quão longe eu poderia ter ido porque minha carreira de virtuose terminou quando meu “amigo” Frenchie deixou cair uma bola de boliche no meu pé. Quebrou meu terceiro e quinto metatarsos. Perdi toda a proficiência com os pedais: meu tom nunca mais foi o mesmo. Ao relembrar esse incidente, o que é mais irritante para mim é que eu estava a apenas dois passos de um estilo perfeito quando o tal “acidente” ocorreu. Muitos anos depois, encontrei Frenchie no Yankee Stadium e, acidentalmente, deixei cair meu punho em seu rosto.

Mas o universo funciona de maneiras insondáveis, porque no dia seguinte ao meu encontro na pista de boliche com Frenchie eu participei de uma convenção de podologia (naquela época estava obcecado com a intrincada estrutura óssea do pé humano), onde conheci um médico que me disse que o simples ato de correr poderia me curar da minha lesão. Logo eu estava quicando na calçada quase cinquenta quilômetros por semana e, em pouco tempo, não só estava tocando piano de novo, como também tinha me inscrito na Maratona de Nova York. Foi minha primeira corrida, e claramente eu tinha um dom para a corrida de longa distância, porque, depois de 28 quilômetros, já estava em quinto lugar, só duzentos metros atrás do líder. Estávamos nos aproximando da ponte Queensboro quando, distraído, virei à direita e, através da multidão, percebi que uma joalheria estava sendo assaltada. Mesmo estando perto de passar o líder, não pude ignorar o que acontecia.

Fiz um desvio abrupto para a direita e deslizei no meio da multidão. Quando cheguei na loja, o ladrão estava metendo uma arma na cara do joalheiro aterrorizado, enquanto esvaziava o conteúdo da caixa em um saco de pano. Me esgueirei por trás do ladrão, dei um golpe de caratê em sua nuca e o deixei inconsciente com um golpe que aprendi vendo uma luta livre na TV. Então dei a arma pro joalheiro, lhe disse pra chamar a polícia e acrescentei que, se o ladrão acordasse e se mexesse, deveria atirar nele. Missão cumprida, voltei para a corrida. Terminei em vigésimo. Não havia dúvida nenhuma que, se eu não tivesse frustrado o roubo, teria fácil chegado entre os cinco primeiros… quem sabe vencido. (A vida é engraçada. Comprei um relógio na joalheria hoje, daí me lembrar dessa história pela primeira vez em anos. Não consigo pensar em nenhum motivo para você não usá-la, a menos que não queira que as pessoas saibam a verdade. Quem diria! Existem mais coisas a meu respeito do que só piadinhas!)

Entrei na maratona novamente no ano seguinte e tive certeza que desta vez iria papar uma medalha, mas dois dias antes da corrida fui contatado por uma agência de adoção. Havia uma criança disponível na Romênia e ela seria minha se eu conseguisse chegar lá em vinte e quatro horas. Por mais que quisesse ganhar a maratona, não poderia deixar passar esta oportunidade incrível. Durante anos sonhei em adotar uma criança. Tinha tanto para dar, tanto conhecimento a transmitir! Naquela noite, parti para a Romênia. Quando voltei para casa, estava com uma garotinha linda e cega chamada Natasha, a quem rebatizei Jill. Ela tinha seis anos e não falava uma palavra em inglês, mas, devido à minha proficiência com idiomas, em cinco semanas já era fluente em romeno. Tragicamente, depois de alguns meses, a mãe biológica de Jill apareceu e implorou para aceitar seu filho de volta. Como eu poderia privar uma mãe de sua filha? E então, por mais difícil que fosse, desisti de Jill. Ainda escrevo para ela todo dia em braille, e todo ano faço uma viagem para Bucareste. Ela é o amor da minha vida. Bem, essas são apenas algumas memórias – suas, para usar como achar melhor. E saiba que de onde vieram há muitas outras! (trad. RB)

PROPOSTA

Pois é isso o que você vai fazer: vai escrever breves notas para o seu biógrafo. Notas evidentemente inventadas. Mas não saberemos o que é biográfico e o que é inventado porque você vai misturar as duas realidades.

Como Larry David, use suas mais nobres características – ou mais infames, ou as de mais destaque, como preferir – para reinventar sua vida.

Sim, aqui você vai usar você mesmo como personagem. Não tenha problemas com eventuais exageros ou inverossimilhanças: ninguém vai saber o que aconteceu mesmo.

O importante é parecer plausível. Ou não.

Caso você queira usar esta proposta para seu projeto de narrativa longa, sem problemas: faça seu personagem contar a um interlocutor invisível a história da vida que ele gostaria de ter vivido.

Narre na primeira pessoa, em, vá lá, uns 8 mil toques.

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