ontem 22:48, hoje 10:12

(Angélica)

– É aqui a festa?

O Dr. Abelardo dá uma risada quando falo isso ao abrir a porta da sala dele. No dia que me levaram lá pela primeira vez fiz essa pergunta. Lógico, a festa era dentro da minha cabeça, uma festa que não parava e não me deixava dormir. Quem mandou o consultório ser numa casa enorme de tijolo aparente e com duas colunas brancas na fachada? Pra mim, era um bufê.

– Bom dia, Nina. Como você está?

– Um pouco atrapalhada.

Depois que me sento na poltrona de couro de frente pra ele e encontro seus olhos, vem o silêncio. É sempre assim, o momento de apertar o botão do aquaplay pra que boneca de roupa vermelha flutue com os cabelos escuros pra cima. Sem saber direito como começar, abaixo meu queixo e olho pros joelhos do Dr. Abelardo. Estão separados e por ele não ser muito alto, a parte de trás da perna encosta na almofada. A camisa azul clara de manga comprida disfarça os quilos a mais. Da barba espessa e quase branca, vou pro nariz reto que separa os olhos pequenos em formato de peixe. Eles estão me esperando.

– Por que eu me recordo de algumas pessoas e de outras não?

– O que aconteceu?

– Na verdade de uma. Ontem eu encontrei um antigo sei lá o quê no meio da rua e fiquei igual a uma pata-choca afundando numa piscina de bolinhas. Pelo papo deu pra perceber que a gente teve algum tipo de envolvimento. Por mais que eu tente, não consigo me lembrar.

– De nada?

– Nem da sombra. Mesmo depois de achar uma foto dele num estúdio onde eu trabalhei.

– E isso te deixou angustiada, né? – O Doutor Abelardo faz essa pergunta com a voz mais baixa, de quem quer acalmar uma criança.

– Me deu a sensação de que ainda falta muito pra eu ficar bem. Com as outras pessoas não foi assim.

– Você melhorou bastante desde o começo do tratamento, Nina. Estamos no caminho certo, tanto é que já abaixamos a sua medicação. Por que você acha que não se lembrou do…

– Bruno. Pensei o óbvio, algum sofrimento que o meu cérebro quer barrar.

Fico raspando a unha na costura do braço da poltrona como se eu quisesse arrancar os pontos de um corte. Ao curvar as costas um pouco pra frente, vejo as flores amarelas do tapete bordô, não tinha reparado nelas. Flores e consultórios psiquiátricos são duas coisas que não combinam.

– Ele me mandou uma mensagem ontem à noite. Não li. Não tive coragem.

– Por que não?

– Fiquei pensando… mais sofrimento?

– Então vá com calma. Se não quiser mexer nesse assunto agora, não mexe.

– Uma hora vou ter que quebrar esse osso pra ver o que tem por baixo. – Falo colocando a palma da mão no peito.

– O osso esterno.

– Talvez seja melhor serrar de uma vez.

O doutor Abelardo passa a mão na barba como se esperasse eu engolir uma comida seca que entala na minha garganta. Ao olhar pros meus pés, levanta as sobrancelhas e muda a expressão do rosto.

– Ainda de galochas, Nina?

Minha vez de rir. – Eu sabia que o senhor ia falar isso. Tenho tirado quando estou em casa, já é um progresso. Ainda tomo banho com elas.

– Deve encher de água.

– Transborda. Uma hora eu paro com essa mania. Consegui lembrar de um sonho. Foi na quinta ou sexta passada. – Ele balança a cabeça pra eu continuar. – Uma amiga minha estava na feira e parou numa barraca de legumes. Ao pegar um maço de alho-poró, a feirante, uma velha gorda e com a pele marcada pelo sol, falava as berinjelas estão ótimas, se eu fosse você levava as berinjelas. É pra um risoto, minha amiga respondeu, dando o alho-poró pra ela embrulhar. Risoto de berinjela é uma delícia, insistia a velha. Não gosto de berinjela. Depois de pagar, pegou o embrulho e foi embora. Na hora de fazer o tal risoto, viu que dentro do pacote tinha uma berinjela fina e comprida. Ficou ainda mais com cara de boba quando viu que além de mole, estava estragada.

– O que esse sonho te diz?

Você podia escrever coisas normais, Nina, como os outros escritores fazem. Por que sempre têm umas maluquices nos seus textos? Acha que vai chegar em algum lugar com essas histórias? Ninguém vai querer editar você.

– O que foi, Nina? – Doutor Abelardo faz essa pergunta pra me trazer de volta.

Estou olhando pros livros na estante atrás dele mas sem prestar atenção em nenhum, a maior parte é de psiquiatria – Esqueci de contar, antes de eu ter esse sonho, o dono de uma revista entrou em contato comigo, um conhecido tinha falado de mim. Me chamou pra um trabalho. Fiquei insegura na hora. Acho que foi isso, acabou puxando as conversas com a minha mãe. Já falamos muito das berinjelas podres e dos comentários ácidos, nem preciso repetir. Segurei a onda, ele ficou de me passar os detalhes em breve.

– O importante é o risoto sair do seu jeito. – Diz risoto fazendo aspas com os dedos. – E também que você retome a sua vida profissional. Que bom, Nina, o que você vai fazer?

– Escrever contos eróticos. – Quando falo isso, o Doutor Abelardo chega a dar um pulinho na poltrona. – Se eu não conseguir, venho chorar aqui com o senhor. Não paga muito bem, a revista é nova, mas está valendo.

– Depois manda pra mim, quero ler. E como anda o seu sono?

– Não tenho acordado de madrugada.

– Vou aumentar um pouco o antidepressivo, em vez de um comprimido, toma um e meio. Pra você levantar um pouco. Os outros remédios continuam iguais.

Me despeço do Doutor Abelardo com um até semana que vem. Na frente do consultório, pego o celular, antes de tirar do silencioso e abrir o aplicativo do uber, vejo @sparapanni mandou uma mensagem. Outra. Não resisto:

ontem 22:48

a noite – enorme
tudo dorme
menos teu nome

(Leminski)

hoje 10:12

Não consegui dormir

Se você tomasse remédio, Sparapanni, ia dormir. Entro no carro sorrindo, mesmo com a minha intuição me dizendo você vai se estrepar.

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