Leandro Reis
Durante os meses em que o silêncio do Pai se prolongou, o garoto tinha encontrado Joana em casa poucas vezes, o suficiente para contá-las, o que não o impedia de fazer o trajeto do quarto à área de serviço todas as madrugadas, tentando sentir o cheiro da nicotina irritando a mucosa do nariz. O corredor escuro estendido à frente dele e no final a esperança que nunca se confirmava, depois da escuridão havia apenas mais escuridão. E não o corpo de Joana dentro da luz morna da vela, vacilando no vento, um movimento que ele precisaria reconstruir, porque a ausência frequente de Joana parecia reduzir os fatos – os cigarros, os dedos de Joana se mexendo na parede, as pernas de Joana estendidas sobre a máquina de lavar – até um delírio sonâmbulo. A única realidade era o retorno ao quarto no escuro, depois de não encontrar a chama da vela, localizar-se se tornava uma impossibilidade, todos os cômodos da casa de súbito eram estranhos e habitados ainda que por ninguém. Buscando se proteger, o garoto passava o corredor com a mão na parede contando as portas, a porta do banheiro, do quarto de dormir, do quarto do piano, temendo o silêncio que as cercava.
E chegando no quarto de Joana via a porta aberta, tinha passado por tudo aquilo acreditando na porta aberta como um sinal do pesadelo de Joana que a teria expurgado para a área de serviço, para exercer o pacto noturno que tinham selado numa madrugada, talvez a única, multiplicada pela memória de Martim. Mas o quarto com as cortinas todas abertas, iluminado pela luz da avenida, era na verdade um sinal da deserção de Joana. Ele agora queria destruir a vela, derramar a vela quente na cama de Joana, atravessando o colchão e pingando no chão de taco. Mas lembrava que não existia vela, que se Joana não estava na casa morta após o jantar não havia mais nada.
Pode ser que raiva do garoto o fizesse pensar com a cabeça de Martim: Joana, que não se importava com ele nem com ninguém além da própria performance, devia acender a vela na área de serviço apenas por ironia, uma provocação à reza e às saias longas da Mulher, a vela que usava para acender os cigarros consumidos depois do pesadelo, os cigarros trocados em cima da máquina de lavar eram uma consequência fortuita da intenção de Joana; Joana profanando a vela santa da Mulher, a Mulher profanando a música do Pai ao chutar a porta do quarto do piano, o Pai silenciando diante de não se sabia o quê, os olhos pregados num binóculo em direção ao porto – o garoto tentava sobreviver dos sinais, andava pela casa como dentro de um aquário, batendo nas paredes de vidro, recolhendo ironias, imagens sem ação.
Aquilo, o garoto tinha certeza, aquela repetição de madrugadas inertes tinha durado algum tempo, porque, aos poucos, ele também era sugado pelo presente eterno e silencioso da casa morta, acordando no meio da noite para percorrer o corredor e não encontrar nada na área de serviço e não se surpreender com o quarto iluminado de Joana. Então, numa dessas madrugadas, quando no parapeito acima da máquina de lavar viu alguém se acotovelar, ele precisou parar na cozinha, esfregando os olhos como se os lustrasse, para se certificar: e foi isso que o denunciou, a dúvida, diante do corpo curvado do Pai, a cara quadrada atrás do binóculo: mesmo sem se virar para a cozinha, o Pai já tinha percebido que alguém o interrompia, e pelo modo como não se movia só podia ser o garoto que se arrastava pela casa. Sua irmã não te colocou na cama, disse uma voz inédita saindo da boca do Pai.
Então além de não estar cego, não estava surdo, o garoto podia ter elaborado, e talvez o tenha feito no seu léxico de garoto, intimamente, porque seu corpo não dizia nada, só fazia se reduzir para aceitar a voz do Pai, uma voz nova que ele nunca tinha ouvido. Apoiados no parapeito junto aos cotovelos do Pai, uma garrafa e um copo pequeno, do tamanho de uma xícara. O líquido amarelo na garrafa acendia com os fachos de luz saídos do cais e dos prédios dos arredores, e o cheiro quando o Pai retirava a tampa não se dissipava nem com o vento que costumava açoitar a figura de sal de Joana. O Pai tirava os binóculos da cara para beber, mas não olhava para os lados; até que o fez, largando o binóculo no pescoço e apontando um banco de madeira dentro da despensa. O garoto levou um tempo para andar até lá, os pés de súbito desacostumados a se sucederem, o que parecia divertir o Pai, que emitia pequenos soluços com a boca fechada e larga, o mesmo movimento que fazia quando ainda habitava a sala da casa morta, assistindo aos filmes antigos de comédia pastelão em que as pessoas também faziam caretas estúpidas.
Enquanto se sentava no banco ao lado do Pai, tendo a parede à sua frente e não a paisagem, porque o banco não era tão alto quanto a máquina, porque ele nunca seria tão alto como o Pai, a voz bêbada do Pai voltou a surgir: Eles te contam uma história e querem que você a termine, disse, Eles te dizem a vida inteira uma coisa e querem que você a leve a cabo, querem que você a confirme. O garoto não olhava para o Pai, fitava o azulejo da parede, e tentava não espirrar com o cheiro do conhaque. Eles te dão uma caixa de madeira com milhões de dedos barulhentos e querem que você tire alguma coisa dela, voltou a surgir a voz inédita, Eles te dão um corpo descaralhado e eunuco e querem que você coma a mãe de deus. Você comeu a mãe de deus? Pois eu comi, disse, e alargou a boca, e abriu a boca para engolir o conhaque. E eu te digo, disse a voz do Pai, não tem nada demais na buceta divina. Ele ergueu o binóculo para retornar à paisagem, mas desistiu e voltou a falar: Essa invenção é idiota, disse, sacudindo o binóculo preso no pescoço. Um padre alemão, pode ter sido numa noite de cachaça, um padre alemão juntou duas lunetas e a amarrou com a faixa do vestido, soltando seu quadril de mulher, amarrou as lunetas com a faixa e pôs na cara, olhando da torre da catedral pras estrelas no céu noturno, como um padre sem imaginação, um padre que tem tudo acertado, nada para pensar, só se tem essas ideias quando não se tem nada na cabeça para atravancá-las, olhando pro céu sem saber que tinha inventado alguma coisa de valor, disse. Ele tinha tudo e não sabia pra onde olhar, o padre que não comeu a mãe de deus.
Um padre que não comeu a mãe de deus inventou um presente que chegou até aqui, disse a voz do Pai. Esses dois olhos arregalados e colados, mortos como o padre que não comeu. E chegaram até aqui, quer dizer, até o navio, e até mim, como se eu já não tivesse o suficiente nas mãos. E me obrigaram a ver, disse. Então o padre que via estrelas e não comia a mãe de deus virou o pianista que não toca e só olha, e olha e bebe, e só. Se eu soubesse que ela me daria o binóculo, não teria comido a mãe de deus, teria sido como o padre, um homem salvo pela sua loucura. E nunca tinha voltado pra esse cais.
O garoto não aguentou o cheiro do conhaque e espirrou, batendo de leve a cabeça no azulejo. O Pai, que levava o copo à boca escancarada, engoliu o conhaque com rapidez para rir, dessa vez olhando para o garoto. Não ria como os atores estúpidos das comédias, nem como seu fantasma vagando pela casa sem ação, sempre dando a entender e se divertindo com isso; olhava para o garoto como se o autorizasse a rir também. E o garoto riu, passando a mão na testa que já adquiria um relevo, olhando para o Pai nos intervalos entre os copos vazios. Quando a garrafa secou, o Pai saiu do parapeito e se trancou no quarto do piano, sua risada ainda pairando no corredor, o que pode ter confundido a Mulher, se bem que demônios costumam rir mesmo mudos.
Na manhã seguinte, o quarto do piano não emitiu nenhum som. E nem na tarde ou na noite, quando a Mulher foi se deitar já sem se atentar para o silêncio do fantasma na parede ao lado. De madrugada, o garoto empreendia seu trajeto rotineiro, agora buscando o cheiro da nicotina e do conhaque do Pai, mas já no corredor se soube sozinho. No retorno para o quarto, notou que alguma das portas batia levemente com o vento, e não precisou andar até ela para saber que se tratava do quarto do piano. A paralisia que às vezes acometia o corpo do garoto o forçou a olhar para o quarto entreaberto por um tempo sem poder intervir, pela greta da porta apenas um pedaço do piano ao lado da janela aberta. Quando conseguiu entrar, empurrando a porta com muito cuidado, não encontrou o Pai, e sua cabeça de garoto talvez não tivesse pensado o que Martim pensa agora, quando recorda o episódio: não associou a bebedeira do Pai ao silêncio do quarto no dia seguinte, nem o silêncio do piano à ausência do Pai, nem a ausência do Pai à janela aberta. O que veio à sua mente, talvez, tenha sido apenas o objeto que se oferecia em cima da tampa do teclado.
Então o garoto se aproximou, recolheu o binóculo e, tentando imitar o Pai, acotovelou-se no parapeito da janela, ficando na ponta dos pés; pregou os olhos nas lentes e vagueou pela avenida, atingido pelas luzes brancas dos postes, até localizar o mar, e depois o porto, onde um guindaste transferia os containers de um navio para o pátio de cargas. Ficou ali, alguns minutos, olhando os homens de capacetes amarelos riscados por cabos de aço. No pátio, caminhando rente ao navio, um corpo grande como o do Pai, curvado como o Pai, a cabeça quadrada e talvez as pintas enferrujadas na testa se voltasse o rosto para o prédio; no pátio, pelos olhos arregalados do padre alemão, o garoto acompanhava o Pai desaparecendo entre as caixas de metal.
