Uma garota top show

Por Susy Freitas

Toda sorte de fluidos sobre as cobertas: gosmas, suor, talvez algum mijo? É sempre uma possibilidade. E na parte já descoberta pelo lençol de elástico, um cheiro que será reativado transa após transa, até o final dos tempos.

— O que foi?

 — Nada. Só cansei.

Em cima de tudo, ele desaba sem fôlego. Vira um gole quente de cerveja puro malte, seu último tesouro da promoção do supermercado.

— Mas você gozou?

— Não. Mas tu sabe que isso não é importante pra mim.

Ela vira para o lado e busca, tateando na escuridão como uma cega, a camiseta que cobrirá as dobras da barriga. Afinal, ainda que ninguém as veja, elas estão lá. O tempo todo.

— Tava ruim?

— Não, amor. Deixa disso. Meu pau cansou mesmo. E eu também. Bebi muito.

— Mas se você não gozou, é porque não tava bom.

Já com a camiseta, ela deita virada para o outro lado. É o seu jeito de ficar com raiva.

— Nada a ver. Você tava tesuda pra caralho. Você gozou?

— Duas vezes. Eu precisava disso.

— Pra mim, tá ótimo.

O pau dele sente o fantasma de uma última latência. Ele enxágua a boca toda com a cerveja. A paz. Amar é trabalhoso, mas um pouco engraçado.

— Mas você não gozou.

— Já te disse, não tem problema isso pra mim.

— Eu fiz algo errado?

— Não mesmo.

— Então qual foi o problema?

Agora ela virou para o outro lado. Para ele. É o seu jeito de tocar a mesma tecla.

— Não tem problema nenhum, amor.

— Desculpa eu estar tão sedentária. Meus joelhos não aguentam mais como antes.

— Nada a ver. A gente transou um tempão aqui.

O jeitinho de ela esfregar o joelho. Ele ouve o roçar de um tipo de pele – a da mão – na outra – a da perna. Imagina a cara dela, os olhos brilhando fodidamente. Os lábios muito finos, como os de um bebê. O bebê que ele não fez nela essa noite. Que fará em outra. O bebê que eles poderão estragar juntos. 

Coisas quebradas têm uma história triste, mas podem ser tão bonitas.

— Mas você não gozou.

— Quem liga pra isso é adolescente, amor. Foi uma foda épica!

— Então eu não fiz nada errado?

— Claro que não.

— Então qual foi a sua parte favorita?

— Ah, todas.

Ele é um homem sem imaginação. Ela sabe disso. Mas deve haver alguma coisa aí, alguma coisa cujas entrelinhas ela ainda não captou. Deve haver, tem que haver. Porque se não houver, quer dizer que está tudo bem. E estar tudo bem é estranho.

— Não, amor, para! Qual foi a sua parte favorita, anda!

— Ah, acho que foi ver o seu rabão de quatro.

— E dava pra ver?!

— Ah, um pouco. Quando o ventilador bate na cortina, entra uma luz assim, rapidinho.

Alguma coisa errada. O ventilador. A luz. Alguma coisa muito errada. Celulites. Que alívio!

— Desculpa estar tão gorda!

— Po, nada a ver. Um cuzão desses, quem ia reclamar de ver isso?

— Mas você tá falando do meu cu ou do meu rabo?

Meu deus, você é muito literal, Ellen!

— Meus deus, você é muito literal, Ellen!

— Qual dos dois?

— Eu gosto dos dois! Tava olhando os dois, pronto!

— Meu cu cumpre ou excede as suas expectativas?

Do mesmo jeito que ela escreve quando cria seus questionários no trabalho. Do mesmo jeitinho, que engraçada ela! Como quando eles se conheceram, e depois disso ela fez a entrevista em profundidade sobre o uso de um aplicativo voltado à oferta de serviços para LGBTs ou alguma coisa do tipo. Quem se importa? O que importa é que ele respondeu o formulário online, deixou o e-mail para contato e ela apareceu cheia de perguntas. Cheia de perguntas.

— Cumpre, ué.

— Então quer dizer que ele não é melhor do que você achava que era?

Como exceder as expectativas. Pesquisar. Cu. Ver: pompoarismo. Ver: Kegel? X-videos. Ass. Big ass. Brazilian ass. Teen ass anal. Salvar em notas do Keep.  

— É um puta cu, Ellen, o que você quer que eu diga?

— Eu quero saber porque você não gozou.

— Você quer mesmo saber?

— Sim.

Que seja verdade, que seja verdade, que ele fale a verdade acima de tudo! Que minha bunda tem estria. Que minha barriga aparece um pedacinho se você olhar entre as minhas pernas quando estou de quatro. Que eu roí as unhas e não posso te arranhar, nadinha de nada. Que eu não pinto mais o cabelo. Que eu seria uma péssima Suicide Girl. Que minha boceta fez aquele barulho de peido uma hora. Que eu esqueci de falar quando gozei a segunda vez e só gozei. Que eu não vendo pack do pezinho. Que eu te amo. 

— É porque eu bebi pra caralho. Sei nem como ele levantou. Deve ser porque você é muito gostosa.

— Ai, deixa de ser mentiroso. Eu tô horrível!

— Só na sua cabeça mesmo.

— É verdade. Nem quero acender a luz mais. A minha barriga tá horrível.

— Deixa de falar besteira.

— Besteira nada. E essa pochete aqui?

E a mão dela agarra a dele e vai direto para a barriga. Ele sente um pedaço de carne entre os dedos, a textura de uma pele firme e fina. Seu dedão caindo um pouco para dentro do umbigo apertado e ainda úmido. Sou um homem de prazeres simples: um cu, uma cerveja, o que há para teorizar sobre tudo isso afinal?

— Eu acho o maior tesão.

— Hum, sei.

— Ué, eu já te falei isso. A gente nem namorava. A mulher com um rabão gostoso que nem o seu e uma barriguinha. Uma garota top show.

— Mas não é só isso. Meus peitos tão caindo!

— Caindo onde? Você mal tem peito.

— Ah, então é por isso que você não gozou?

Me ajuda amor. Me ajuda.

— Como assim?

— Por que eu não tenho peito.

— Nem de peito eu gosto.

— Mas eu tenho peito.

— Te decide, mulher. Você tem peito ou não tem?

— Eu tenho. Um pouco. Eu acho. Ele fica assim meio estranho quando eu fico de quatro. Meio murcho. Parece peito de gato.

— Do quê?

— De gato. Sabe a gata, quando tem os filhotes? Aquela coisinha murchinha?

Ele ouve o barulho das cobertas se arrastando. É ela, que o agarra e guia sua mão novamente até o seio esquerdo, já de quatro. Aquele rabão pra cima, a coluna arqueada.  É que o peitinho balança mais assim. A buceta com uma camada já endurecida de fluidos por fora e brilhosa por dentro. Obrigado, Senhor, muito obrigado!

— Tá sentindo?

— É um peito, ué.

— Peito murcho.

E ele, por de trás dela, o peito ainda na mão, morde-lhe a omoplata, enfiando tudo devagarzinho. Ela suspira, e o portal rumo ao mais profundo nada começa a se abrir novamente. Devagarzinho. Na parte já descoberta pelo lençol de elástico, um cheiro que será reativado transa após transa, até o final dos tempos.

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