Silvia Argenta
Depois de muita insistência sua, estou aqui inteiramente disponível, apesar de achar um exagero seu. Não imagino quem poderia se interessar pelas histórias que vou te contar. Sim, esse encontro jamais seria possível se eu tivesse de falar no improviso. Planejei cada palavra para que não haja mal-entendidos.
Bom, de início acho que já poderíamos discutir o título da biografia. Quero algo impactante, marcante, apaixonante. Acredito que assim serei lembrada por mais tempo. Não me entenda mal, mas volto a reforçar que meus relatos não têm nada de relevante ou extraordinário. No entanto, já que estamos aqui, vou mergulhar de cabeça.
Mas atenção! Não vou entrar em detalhes, só que nada nesse livro pode remeter às minhas fases Silvia Piranha ou Silvia Picanha. Nada! Vamos pular essas etapas porque não convêm à minha imagem de Silvia, a Justiceira. Bom título, não? E a foto? Está bem, como você preferir… Discutimos isso depois.
Veja se podemos começar por esta história. Imagino que tenha sido a primeira vez que fiz justiça. Foi no meu aniversário de cinco anos. Família reunida em volta da mesa repleta de brigadeiro, beijinho, bala de coco e o astro da festa: o bolo de morango. Ajoelhada na cadeira para alcançar as velinhas para assoprar, esperava, com um grande sorriso banguela, terminar a cantoria dos parabéns. Feliz com o vestido de renda branca e babados vermelhos, inspirei forte assim que chegou meu momento e, antes de soltar o ar, fui surpreendida pelo meu primo um ano mais novo, que, de pé ao meu lado, tascou a mão em cima do bolo e saiu correndo da sala com um punhado de morangos escorrendo pelos dedos. Os adultos, meus avós, pais e tios, ficaram paralisados. Fui a primeira a reagir. Pulei da cadeira e corri atrás do ladrão. Quando o alcancei, pesei a mão na bochecha dele na mesma velocidade e intensidade do quanto ele estragou meu bolo. Levei bronca e tal, acabei com a festa, mas não me arrependo até hoje.
Vingança? Não… foi justiça. Mas tudo bem. Deixamos as histórias da infância para depois. Iniciamos o livro com esta então. No show do Megadeth, estava na arquibancada do Morumbi ao lado de um desconhecido de dois metros de altura que se apresentou como Rasputin. Calça e camiseta pretas, pulseiras de couro e braços fechados com tatuagens indecifráveis em riscos fracos na cor verde. Queria muito que ele saísse dali, pois estava fedendo. Chutei que não entrava debaixo de um chuveiro fazia uma semana pelo menos. Não bebia, não fumava e não comia. Só falava comigo até que parei de dar trela. Virei de costas para ele e comecei a conversar com meus amigos. Ele se aproximou de mim e começou a me chamar de biscate, vadia e por aí vai. Como não me afetei, ele saiu bravo dali. Quando chegou na frente das cadeiras, teve de parar porque havia uma fila para entrar no corredor. Não aguentou um segundo e empurrou uma moça qualquer pelas costas. Ela caiu de quatro no piso cimentado. Ninguém a ajudou sequer a se levantar. Pois eu voei por cima das cadeiras e pulei nas costas dele, puxando os cabelos sebosos. Como ele dava pinotes igual um cavalo, me segurei mais forte, fincando as unhas nas bochechas, e mordi o pescoço dele, que começou a sangrar. O valentão chorou de dor, um segurança me arrancou de cima dele e nos separou. Perdi o show e passei dias cuspindo pedaços de pele.
Não é violento… Violenta é esta história aqui: eu jogava beisebol em Porto Alegre. Numa noite de inverno, caminhava de volta para casa, quando ouvi um homem gritando dentro de uma Ranger parada no sinal. Ele perguntava para a mulher se ela era virgem e ela não conseguia responder de tanto que chorava. Abri a porta do carona e ela projetou o corpo para fora, de cima para baixo, me abraçando. Nisso, ela me cochichou: não conheço ele. Me desvencilhei da menina, entrei na caminhonete e perguntei qual era a dele. O babaca ainda teve a pachorra de me contar. Estava na sua despedida de solteiro e queria se divertir. A menina não devia ter quinze anos! Puxei o bastão e quebrei metade do painel e rachei o para-brisa. Pulei para a rua e amassei a lataria gritando que meu pai era detetive. Ele saiu cantando pneu. Nunca mais o vi.
É, eu sei que tenho cara de pacata. Normalmente sou, mas tem situações que não posso me conter. O sangue sobe e quando vejo já foi. Não precisa citar isso, né? Na verdade, hoje prefiro passar por cima das nuvens narcísicas, não gosto mais de me envolver nos problemas dos outros. Não, não vou falar dos meus apelidos. São tantos que até me perco. Melhor deixar isso de fora e aquele cantor baiano lá me tira do sério. Acho que o importante é contar que meu lado justiceira acabou me levando a estudar Direito. Realmente acreditava que podia fazer a diferença até conhecer a figura do advogado. Uma vez, um deles foi até o fórum pedir para ler um processo. Naquela época era tudo em papel. Na menor distração do estagiário, o cara não me arranca uma folha e engole? Meu chefe estava fora da sala, então puxei o advogado pelo braço, empurrei ele para dentro da copa, arranquei outra folha do processo e enchi de catchup. Queria fazê-lo comer o processo todinho, mas logo chegaram outras pessoas e não deu certo.
Nem sempre consigo o que quero… É bom falar dos meus fracassos também senão fica um livro muito ególatra, não acha? Lembrei agora de uma situação em que fiz justiça de um jeito sutil. Na minha turma de balé, só havia uma garota negra. Todas as outras eram brancas rosadas como eu. Nos dias de apresentação, a professora enchia essa colega de pó branco no rosto e nos braços. As pernas tinham de estar sempre com a meia calça cor da pele nossa, não dela. Não entendia o que acontecia, mas aquilo me deixava com um mal-estar. Num outro dia, ao entrar na sala de aula, a professora desacreditou em mim. Antes, passei uma vela no fundo de um prato e depois o esfreguei no meu rosto. Cheguei morena. Ninguém falou nada, mas senti que fiz justiça pela amiga. Como é? Blackface? Não sabia não. Vai dar problema? Ah, então tira essa parte aí.
Que tal esta? Teve a vez que joguei meu sangue da menstruação no molho de pimenta importado que minha chefe levava para o trabalho e não deixava ninguém experimentar. Ou quando descobri que meu ex me traiu, peguei o carro dele e passei acima da velocidade em todos os radares da cidade. Teve ainda… Poxa, que pena que seu tempo acabou… Foi muito rápido, mas rendeu, né? Não? Vamos precisar agendar outros encontros? Olha que chique, já tem lista de espera para comprar meu livro. Deixa eu ver se conheço alguém. Só tem um nome? Não pode ser… Anota aí, não mande exemplar para o Marcelo Nova.
