(Bruno Vicentini)
Pra começo de conversa, alguém que pretenda escrever a minha biografia deve falhar miseravelmente e interromper o projeto na metade. É imperioso que meu suposto biógrafo desista, por uma questão de coerência: eu mesmo falhei em todas as tarefas a que me propus, desisti de todos os projetos. Meu legado são fracassos, ideias abortadas, livros impossíveis, natimortos. Nada que eu começo jamais chega ao fim. A vontade de abandonar uma frase na metade às vezes é
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Ok, talvez meu suposto biógrafo seja um criminoso. Imagino que cruéis instintos de ferocidade essa pessoa exerceu, pra ter sido condenada a me biografar. Sim, porque a tarefa só pode ser um castigo, um suplício. Quem sabe quais mudanças estarão reservadas à disciplina do Direito Criminal, uma ciência (sic) que já não faz mesmo muito sentido. Pra auxiliar o malfazejo, passo a narrar alguns episódios que vivi. São, como naquela brincadeira, nove verdades e uma mentira:
1)
Quando estava grávida de mim, mamãe morava ao lado de uma pizzaria. O cheiro que entrava todas as noites pela janela do apartamento, segundo ela, não era um cheiro indiscriminado de pizza sendo assada, mas sim de queijo catupiry, um cheiro muito específico e nauseabundo.
(Lembrei de um amigo que pensava que frango catupiry era um tipo de frango. Um dia ele explicou: “eu sempre achei que havia o frango comum, o frango caipira e o frango catupiry”.)
Mamãe me disse que, depois que eu nasci, ela nunca mais comeu queijo catupiry. Deve haver muitas outras coisas que ela deixou de fazer depois que eu nasci, mas a respeito dessas outras coisas ela nunca me disse nada.
2)
Uma vez meus pais não me buscaram na escola. Os dois sempre iam me buscar juntos, mas naquele dia eles não apareceram. Eu não me lembro do motivo, mas me lembro de saber que eles não viriam e de ficar sentado em frente ao portão do colégio, enquanto as outras crianças, uma a uma, iam embora. Logo éramos só eu e o porteiro, que tinha mais o que fazer, e me fechou pro lado de fora. Não sei como eu fui pra casa. Mas a sensação de me sentar em frente ao portão do colégio e assistir às outras crianças indo embora, uma a uma, enquanto eu ficava pra trás, está comigo até hoje.
3)
Papai já ganhou um bar no jogo de sinuca. Enquanto ele jogava, vovô ficou sentado no balcão, bebericando junto com o dono do bar e cobrindo as apostas. O adversário era o filho do dono. Papai começou perdendo todas. O adversário foi subindo as apostas. Vovô não se abalava e continuou pagando. Sabia que papai era melhor jogador. A confiança de vovô foi o que quebrou o adversário, mais do que qualquer jogada magnífica que papai possa ter feito no pano. Em algum momento o jogo virou. O cara continuou subindo as apostas e logo a chave do bar tava em cima da mesa.
Papai e vovô viraram eles mesmos o dono do bar e o filho do dono. Três anos depois eles passaram o ponto, porque a vida de bar é muito ingrata. Vovô costumava dizer que ter um bar é como morar numa prisão, no regime semiaberto. Eu tenho uma foto, de fraldas, em cima do balcão do bar, que era de fórmica vermelha.
4)
Meu primeiro beijo foi assim: eu fiquei sentado do lado da garota por exatas duas horas e quinze minutos, olhando pra frente, pro nada, pro escuro da noite, enquanto suava frio e não tinha coragem nem de olhar pro lado, nem de mexer um músculo. Ela também ficou lá, sentada do meu lado, mais ou menos do mesmo jeito.
5)
Uma tia me ensinou a cantar Sabão Crá Crá, que, segundo ela, era uma música que ela mesma tinha inventado. Só que ela cantava sapo em vez de saco. Não deixa os cabelos do sapo em pé. Eu adorava aquilo e também cantava a plenos pulmões. O curioso é que isso foi em 1994, antes dos Mamonas Assassinas. O verso final, na versão dela, dizia: “não deixa os cabelos do sapo ficarem azul”.
6)
Papai era Vasco, doente. Vovô antes dele. Eu nasci Vasco, portanto. Uma vez estávamos no Rio de Janeiro e fomos ao Maracanã, pra ver a chegada do Papai Noel. O Zico me escolheu entre uma multidão de crianças e deu a volta olímpica comigo no colo, o estádio inteiro uma massa alucinada gritando “Zico, Zico!”. Papai por sua vez também gritava, desesperado, “o meu filho não, porra! O meu filho não!” Quando ele me pegou de volta, eu ainda repetia “Zico, Zico!”, hipnotizado. Foi assim que eu virei Flamengo.
7)
Eu já despenquei de uma ribanceira e caí dentro do Rio Ivaí, bêbado, de madrugada, quando saí de uma festa pra ir mijar no mato. O escuro não me deixava ver nada. Me lembro apenas de escorregar pelo barranco e de cair dentro d’água. A água era como mil formigas de gelo e eu senti o abraço da morte. A correnteza me levou rio abaixo. Fui salvo por pescadores que estavam saindo pra pescar. Quando voltei pra festa, as pessoas ainda não tinham dado pela minha ausência. Também não estranharam que eu estivesse com as roupas molhadas.
8)
Meu segundo beijo foi mais ou menos como o primeiro. Mas o terceiro, não.
9)
Em outra festa, na época da faculdade, eu achei um pincel atômico e desenhei um bigode e chifrinhos num cara que bebeu demais e desmaiou no sofá. Depois, quando a festa acabou, alguém foi lá cutucar o penetra e percebeu que ele não levantava: tinha morrido. Ninguém o conhecia. Também não tinha documentos. Foi difícil explicar pra polícia o que tinha acontecido.
10)
Uma vez eu esqueci que a piscina do clube estava interditada e me atirei correndo pra dentro dela. Só me dei conta do que fazia quando já estava no ar, em direção ao fundo vazio da piscina, e ouvi minha mãe gritando. Fraturei os dois joelhos.
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Ok, talvez eu tenha mentido lá no começo e sejam na verdade nove mentiras, somente uma verdade. Mas, se isso for verdade, serão, portanto, dez mentiras: nove episódios mentirosos e a mentira do enunciado. Prometo, daqui pra frente, me esforçar pra viver menos mentiras e mais verdades. Mas, a respeito do que já vivi, não há nada mais que eu possa fazer.
