Leandro Reis
Numa padaria no centro da cidade, onde tinha parado para fazer a primeira refeição em muitas horas, Martim teve um pensamento que julgou essencial antes mesmo de traduzi-lo em termos claros: para levar seu projeto moral a cabo, primeiro, ele teria que perder o idioma. Exercer o esquecimento como a arte que era, lembrar-se de esquecer, como fez ao sair da cidade, quando o Pai já não podia se mexer. Para se tornar um desertor era preciso a circunstância perfeita, e agora ele devia fabricá-la porque não havia sobrado ninguém, embora o quarto elemento da casa morta viesse lhe seguindo, intervindo nos seus sonhos e na manhã imediata, escondida nas páginas do jornal que ele dispunha na mesa da padaria sem ler. Devia praticar ali mesmo, deslendo as palavras, inventando novos referenciais para elas, algo confuso e que significasse talvez coisas contraditórias, tornando impossível a comunicação. Sem linguagem, a distância do mundo; passar a se referir aos outros como outros, ao mundo como o mundo de lá, inventar novos gestos. Um novo jeito de caminhar: descurvar as costas, ou curvá-las ainda mais, arrastando a testa no chão, dobrando-se como um verme.
Martim tinha chegado bem na hora do movimento, o calor do asfalto entrando na padaria com os trabalhadores das oito, os que sentavam à mesa e os que apenas pegavam um café num copo descartável e atravessavam de volta a avenida, os braçais, a mochila no ombro e roupas também descartáveis, até o ponto de ônibus no sentido da Seção 7, o mesmo trajeto de Martim quando saísse dali. Ele apontou para algo no cardápio e usando poucas sílabas pediu um café, e depois tentou se divertir consigo mesmo – grunhindo – pensando que a partir de então fazia um voto de silêncio. A garçonete lhe devolveu a comanda e ele olhou para o rosto descarnado da jovem, ela se virou e caminhou de volta para o balcão. Ficou a observando falar com o chapeiro, nebulosa na fumaça de pão e carne, como se pudesse se certificar da integridade do pedido, afinal, da mesa até o balcão, o pouco que disse poderia ter se perdido. É isso, ele grunhiu, olhando as palavras do jornal levitarem e grudarem com o ranço da gordura no teto baixo da padaria, Pois sim, ele disse ainda para si, surpreso em ouvir as palavras saindo da boca. É isso, é isso!, rosnava, achando graça em poder ouvir um som tão baixo mesmo na confusão da padaria, seus resmungos tinham o poder de desenterrar as palavras cujas funções no idioma antigo haviam deixado de existir, agora respondiam apenas ao seu comando.
Tá bom, tá bom, pois sim!
Ele seria o completo oposto de um poliglota, poderia se perder numa cidade de propósito e pedir informações com gestos, incompreendendo as respostas, perdendo-se de novo. Ensaiaria esse novo mandamento no Diário assim que retornasse, cessando desde os cumprimentos na recepção, ouvindo as instruções da pauta sem absorvê-las, esquecendo os princípios mais básicos de um texto, mentindo apenas por omissão. E voltaria todas as noites àquela mesma padaria, tomaria café para ficar acordado na madrugada deslendo o idioma, como qualquer atividade necessitaria de empenho e horários rígidos, lembrar-se entrado na manhã apenas da fumaça de pão e carne levitando da chapa, aderindo aos azulejos.
Da mesa, Martim tinha a visão completa do balcão oval, onde se penduravam as pessoas erguendo as comandas, ladeadas pelas garçonetes que transitavam com os pedidos equilibrados nas bandejas. Sentindo pela primeira vez os sinais da fome adormecendo o corpo, ele acompanhava a bandeja que imaginava com o seu pedido, porque a garçonete tinha recolhido o prato com o pão e a xícara de café olhando em direção à sua mesa, porque seu rosto era magro como o da garçonete anterior, ele acreditava, não podia garantir que ela tivesse trocado de blusa ou vestido um avental por cima, afinal não usava a mesma roupa, pode ter se sujado com leite ou café ou ketchup, de qualquer modo ela vinha andando até ele, atravessando a massa impaciente, com o rosto que devia ter sido o seu antes de a fumaça dissipar os traços. Erguendo a cabeça sem no entanto se levantar, Martim tentava localizar a garçonete sumida na multidão, embora uma parte dos seus movimentos pudessem ser supostos na superfície, como alguém que se afoga.
Do lado direito do balcão, perto da entrada da padaria, o Farrapo se destacava do fluxo de gente no caminhar elíptico do corpo, apagado na vista de Martim atrás dos cordões de esfomeados, ato contínuo surgido em frente às geladeiras de cerveja e refrigerante, onde estacionava mirando algum ponto inespecífico. À medida que o Farrapo se movia entre as mesas, deixava roçar nas pessoas um casaco que carregava no braço cinzento, um tentáculo escamoso, mas a visão daquilo não arrefeceu a fome de Martim, ainda dedicado a encontrar a garçonete nos clarões que se abriam quando algum pedido era expedido do balcão. Como o meu estômago, Martim pensou, estupidamente, comparando os buracos na multidão à sua fome, era o idioma que não queria abandonar seu corpo, o idioma que pensava por ele, uma vez que os olhos procuravam a garçonete e a encontravam, tá bom!, a raquítica mulher de avental vencendo a última parte do trajeto circular que precisava executar para chegar às mesas, como imitando o Farrapo, que da outra ponta caminhava talvez em direção a Martim, segurando alguma coisa na altura do peito, talvez apenas fome, e no outro braço o casaco dobrado, talvez seu uniforme de trabalho em outra encarnação, em outra encarnação talvez um garçom de padaria, pois se continuasse naquele trajeto convergiria no destino da garçonete, ambos na mesa de Martim, um para entregar e o outro para tomar?, o Farrapo podia muito bem ser uma daquelas pessoas que pegam o café e vão para o ponto de ônibus, ou mesmo um daqueles que se senta à mesa, como ele, Martim, com uma função definida, um fim em si mesma, e que agora rodava na órbita do fosso da Seção 7, fazendo fogueiras com entulho diante dos muros. Aquele era um homem capaz de aprender o novo idioma, Martim pensou.
Pois sim, é isso, tá bom!
Martim não notou a garçonete na sua frente, ainda erguia o braço com a comanda e olhava para o Farrapo rodeando uma mesa próxima. Ela serviu o pão e o café enquanto ele mantinha o braço levantado, um tanto patético, ela servia o pedido inclinando o rosto para dentro do campo de visão de Martim, forçando-o a perceber a pequena cova que se abria em sua bochecha, parecia segurar o riso diante do cliente abobado, o sinal de ironia que era um deleite para o garoto à mesa da casa morta. Um sinal comum, ele pensou, mas será tão comum assim ou só lhe parece porque os outros o dizem? Martim nunca tinha conhecido alguém que exibisse um sinal tão comum quanto uma covinha na bochecha nessas ocasiões, alguém que resumisse tantas intenções num indício. Ainda se pudesse lembrar do rosto da primeira garçonete, ou do primeiro rosto da garçonete antes de ser trocado pela fumaça de pão e carne. Mas ele afastou o pensamento com a velocidade que havia surgido: pois não, tá bom! E se acalmou com a conclusão, a garçonete já no redemoinho de gente, Martim sentindo a mente adormecer de fome. Então comeu um pedaço do pão.
O Farrapo vagava distante das mesas, interrompendo o fluxo de gente que saía do balcão para o caixa. Alguém deve ter trombado nele, naquele seu braço asqueroso, porque seu casaco caiu no chão e ele se agachou rapidamente sobre ele, como se não pudesse perdê-lo sem perder também a vida ou algo mais importante, e recolheu a peça com cuidado, olhando para os lados. Não era exatamente um casaco, Martim podia ver, e por via das dúvidas o Farrapo dessa vez o vestiu, como se agora se apresentasse a todos com aquela farda rasgada e imunda. Mas ninguém prestava atenção nele, exceto Martim, que viu ainda um volume por dentro da farda no peito do Farrapo. Enquanto Martim se levantava para enxergar melhor, esquecendo do café e do pão pela metade, o Farrapo puxava de dentro da farda o binóculo do Pai. Ele ficou parado ali, na entrada, as mãos no binóculo estendido no tórax, até ser aos poucos empurrado para a calçada pelo trânsito das pessoas. Martim demorou para atravessar a multidão, e antes de chegar à rua já sabia que não o encontraria. Não tinha a menor intenção de abordá-lo, talvez só o quisesse observar, e ele teria uma chance de fazê-lo, embora só a percebesse muito depois de ele próprio, Martim, ser o alvo da contemplação do Farrapo, que do outro lado da avenida, na praça dos farrapos, trepava num banco de concreto e pregava a cara derretida no binóculo do Pai.
