por Américo Paim
Você insistiu, velho, mas sendo franco, essas histórias e afins eu deixaria de fora. Tem coisas estranhas, outras que são problema. Tudo bem, vamos fazer assim: você lê e a gente decide caso a caso. Até lá, não autorizo copiar ou publicar nada. Claro que nomes e locais são fictícios. Sei que com você está em boas mãos. Vamos às bobagens, então.
Uma coisa que já me deu dor de cabeça é ficar corrigindo o português. Falou errado, pá! Não sou dicionário, mas se soar estranho… No começo era bem verbal. Até perdi uma namorada, a Deocleciana, Dedé, vai. Ela falava muito mal, só que eu tava fissurado. Ela cansou das minhas intervenções. Agora, o que me fez desistir mesmo foi um cara que me mandou tomar no cu com veemência, em uma reunião de condomínio. Todo mundo concordou com ele. Foi péssimo. Passei a corrigir só em pensamento, embora ainda conte até dez para ficar mudo.
Falando em números, sempre tive duas manias. A primeira, muito antiga, é que tenho os anos como um mural em minha cabeça, desde o do nascimento do meu avô. Se soubesse como, desenharia aqui para você. Eles vivem na mesma posição, todo o tempo, como uma imagem 3D de uma cadeia de DNA projetada no espaço. Sei que não entendeu. Paciência. Eu também memorizo números associando a algo relevante que aconteceu no ano dele. Exemplo: se falar 3980, eu penso em “…E o vento levou” e Edf. Dakota. Sei lá como isso começou. Pelo menos nesse caso, não tive problemas.
Por exemplo, teve uma situação no ano de “O exorcista”, eu ainda menino, quando se brincava na rua até tarde até os pais lhe buscarem pela orelha, desfilando. Coisa linda. A turma de meninos da minha rua era bem grande, uns vinte. As brincadeiras eram picula, se esconder, garrafão, baba, bicicleta, mas às vezes a gente inventava algo com mais adrenalina. Tinha um troço de invadir jardim à noite e fazer barulho, só para o morador sair pra saber de onde vinha a zoada e ficar ali com cara de besta.
Uma noite fomos eu e Geleia e escolhemos a casa de Dona Maria Lúcia, mãe do Miltinho. Eles viviam sozinhos. O marido dela trabalhava em outra cidade. Só aparecia de caju em caju. Pulamos o muro sorrateiros e descemos pelo pé de flamboyant. Imitamos uns bichos de forma bem irritante e aí deu merda. Quem saiu foi um sujeito alto, fortão, com cara de mau. Ele tava com um trezoitão e falando grosso. Nossa turma do outro lado do muro ouviu e vazou. Ele resolveu vigiar na varanda e aquilo demorou. Geleia começou a chorar e se mijou! Eu pensei que ia morrer com um balaço. Uma hora ele cansou e a gente se picou. Nunca mais aquela merda. Geleia jura até hoje que seu soluço de nervoso começou ali. Em poucos meses o cara brabo apareceu morto. Crime passional, dizem. A família vive lá até hoje.
Nessa mesma rua, no ano do mundial do Flamengo, rolou uma que você está proibido, só digo isso. Eu tinha dezesseis. Muitas casas ainda sem muro, você entrava e saía fácil. Era início de uma tarde de verão e eu sozinho, de bobeira, na calçada no começo da rua. Eu morava lá no final. Começou um dilúvio. Corri para a casa de Bambina, uma amiga. A varanda bem estreita, a chuva de açoite, a porta meio aberta. Entrei, chamei e ninguém respondeu. Fiquei ali, de olho na chuva. Logo uma voz de mulher me convidou a entrar de vez. Era a mãe dela. Cara, que mãe! Com todo respeito. Parecia saída do banho. Velho, eu fiz menção de sair, mas ela foi rápida e me pegou pela mão até o sofá. Cheirava a um perfume irresistível, sei lá do quê. Estávamos sós. Havia uma tristeza nos seus olhos, apesar de ser a última coisa que eu estivesse reparando.
Foi à cozinha e voltou com uma taça de vinho e a garrafa pela metade. Agradeci e menti que não bebia. Tava era com medo mesmo. Ela veio mais perto, aliás muito perto. Falava baixinho umas coisas malucas. Não demorou a beijar meu pescoço. Era pra ter ido embora, mas não obedeci a esse instinto. Logo ela me pegava o quanto queria. Quando tirou as toalhas – a da cabeça e a outra, o que se apresentou eu só tinha visto nas revistas Status, que escondia em casa, atrás dos livros da biblioteca. Eu não usava cueca e meu short Adidas, bem curto, moda da época, não deu conta das minhas reações. Nem tava com o cordão preso. Só o elástico mesmo. Ela se ajoelhou e tudo começou e acabou ali, na sala, à luz do dia. Eu devo ter gozado muito rápido porque o que mais lembro é de ter corrido dali debaixo de chuva e de minha mãe perguntando onde eu tinha largado a camisa. No outro dia foi ainda pior, porque a sumida apareceu no nosso portão, dentro de um embrulho com perfume, lavada e passada, sem remetente. Nunca mais voltei àquela parte da rua. Eles se mudaram pouco tempo depois. Jamais soube o que foi aquilo.
As casas me lembram casos. E quase não tô aqui para contar essa, que foi no ano de “O nome da rosa”. Sério. Eu tinha dezoito. Meus pais viajando, eu e minha irmã com os avós no interior, para dar uma assistência. A responsabilidade de olhar a casa ficou com meu tio. Ele tinha uma namorada, mas aprontava à vontade. Uns amigos me chamaram pra uma festa. Passei a conversa em meu avô, inventei um trabalho da faculdade em Salvador. Prometi voltar na noite seguinte. Fui de ônibus e não avisei a meu tio. A casa estava vazia. Me arrumei e fui à festa. De volta, na madrugada, entrei relaxado pela porta principal. Assim que a fechei e me virei, um tapa no meio dos peitos me prensou contra a parede. O sujeito era um armário de uns quatro metros de altura. Com um trabuco na minha cabeça, perguntava aos gritos o que eu fazia ali. Não sei como não me caguei. Era um vigilante contratado por meu tio, que se picou com uma criatura sabe-se lá para onde. Terminei a noite sem sono, tomando cerveja na cozinha com o vigilante. O nome dele era Ari e me contou sobre sua vida. Meu quase assassino era um cara gente boa.
Teve outro “quase” na época da faculdade. Eu ia para uma prova e vi quando uma pessoa atravessou de súbito diante do carro à minha frente. O atropelo foi inevitável. Parei na hora para ajudar. A motorista estava em choque. Lhe acalmei um pouco dizendo ter visto tudo. Dirigi o carro dela até o hospital. No banco traseiro, ela e a acidentada. Fora a fratura exposta na perna, parecia estar tudo bem. Após os trâmites, trocamos telefones para alguma necessidade. Ainda lembro que o final do número era “Semana de Arte Moderna” e “O estranho no ninho”. Mais tarde, naquele dia, liguei para saber como ela estava, por gentileza. Ela foi rude e disse para eu não ligar mais. Povo doido! Ainda fui premiado com ligações do marido da dita me ameaçando de morte porque eu dei em cima da mulher dele. Assim a louca lhe contou. Ela devia tá na rua dando algum nó, isso sim. Dias depois, vi uma foto dela no jornal. Era socialite. Ah, um detalhe, derrubada que só.
Falando em queda, tem outro caso. Ouvi dia desses Caetano cantando “Depois que o Ilê passar”. Durante uns anos, isso me foi traumático. Tudo porque, em um festival de música, essa canção venceu a que compus com a banda que eu tocava, no ano George Orwell. Ganhamos no voto popular, mas um jurado declarou não gostar de músicas sobre a latinidade da América do Sul e nos deu zero e ficamos em segundo. Devia ser um daqueles órfãos da porra da agonizante ditadura. Essa situação me fez decidir que não viveria de música. O sonho caiu por terra. Foi a decisão certa, não tinha talento suficiente. Acontece que na plateia lotada do Teatro Vila Velha, estava o Flavinho, um menino bem mais novo, que acompanhava de longe os ensaios da banda na garagem aberta lá de casa – ele lembra quando os vizinhos da direita nos tacaram pedra por causa do barulho, um caso que quase deu polícia. Flavinho virou músico profissional dos bons e sempre creditou a mim a inspiração para o seu caminho, o que me deixou feliz. Às vezes nos encontramos para uma jam. O cara é muito fera. Quando eu morrer, meu contrabaixo vai para ele, que ainda não sabe disso. Estará em boas mãos.
Lembrei de mais uns dois ou três aqui, mas rapaz, melhor não.
