(Angélica)
Mensagem visualizada e nenhuma resposta. Sparapanni fica agitado e se sente um idiota por não ter sido sutil. Sempre querendo comer o mundo. O garfo voa de um lado pro outro, pequenas bombas de purê de batata se espatifam no prato. Antes de levar um pedaço do filé pra boca, esfrega a carne no molho como um flanelinha tentando limpar a cagada de um pombo. Se tivesse convidado Nina pra jantar, ela teria respondido nem que fosse pra dar uma desculpa. Enquanto aperta os dentes com força, pensa no que ia contar se, por acaso, nos melhores dos acasos, Nina topasse tomar um drinque com ele.
Alguns meses depois de nos separarmos, Nina, fui pra Nova Iorque na loucura, deslumbrado com a ideia de me tornar um artista famoso. Logo meus planos viraram uma roupa incômoda, que pinicava o tempo todo. Quem sabe em outra ocasião, era o que eu escutava nas galerias ao mostrar meu portfólio. Sabe quando você esquecesse o thinner aberto e quando precisa dele só tem o fundo da lata? Meu futuro e minha grana estavam evaporando na frente dos meus olhos. Precisava descolar um trabalho, não queria ir embora com um pincel enfiado no rabo. (Sparapanni, você nunca vai deixar de ser tosco! …não podia voltar com as mãos no lugar da cueca).
Depois de fracassar em várias tentativas, resolvi passar num bar perto de onde eu morava. Era bem grande, com muitas mesas e um balcão em s onde as pessoas podiam beber em pé. Ainda estava fechado quando cheguei, não devia ser tão ruim fazer um bico de garçom. Bati na porta e foram chamar o gerente: precisamos de alguém pra limpar o banheiro. Literalmente eu ia viver na merda. Por falta de opção, aceitei. Eu no masculino e uma mexicana gordinha chamada Lola no feminino. Foi difícil, eu tinha nojo, muito nojo. Passava a escova na privada porcamente, esvaziava os cestos de lixo prendendo a respiração e o pano do rodo nunca era lavado, só ganhava mais desinfetante.
Numa noite, o bar estava cheio, e um energúmeno jogou alguma coisa no vaso e apertou a descarga. Não consegui ver o desgraçado, senão teria quebrado a cara dele. A privada entupiu, jorrava uma água fétida, meus sapatos encharcaram e o banheiro inundou. Se eu não tomasse uma providência, ia ser despedido, já estava começando a escorrer pro salão. Tentei o cabo da escova, da vassoura, não adiantou, tive que enfiar meu braço no vaso, até a altura dos cotovelos. Tinha algo entalado na curva do cano. Puxei com muita raiva e quando se desprendeu, caí sentado molhando minha calça. Um vibrador preto, parecia uma lupa com o cabo grosso. Fiquei puto, devia ter caído sem querer e a florzinha não quis molhar os dedos.
Depois desse fato, Nina, meu asco desapareceu. Conviver com a merda dá nisso, você acaba se acostumando. Comecei a lavar as privadas como se elas estivessem num lava rápido. Sabão pra tudo quanto é lado. O banheiro ficou habitável e passei a levar meu material de desenho pra lá. Sentava num banquinho e quando o movimento estava fraco, rabiscava uns esboços. Mais pro final da noite, alguns casais, embalados pelas bebidas, se trancavam nas cabines, tinha de tudo, um fuzuê completo. Cada barulho! Eu chamava a Lola pra escutar e nós ríamos muito. Pra cada tipo de grunhido, escolhíamos um bicho, as jaguatiricas venciam em disparada ou os hipopótamos. Tenho umas pinturas dessa época.
Num sábado, quando um casal saiu da cabine, uma mulher parou em frente do espelho pra acertar o batom. Quase pedi que deixasse eu fazer isso, adoro pintar bocas. Como não queria arrumar confusão, me contive. Abaixei a cabeça e continuei meu desenho. Ela olhou pro bloco e pediu pra que eu a desenhasse e de preferência bem depressa. Recebi vinte dólares em troca. Não sei se ela mostrou pros amigos ou se as pessoas das outras mesas viram, sei lá. Começaram a me pedir retratos. Uma parte, eu sei, me usava de álibi, se demoravam no banheiro, era por causa do desenho.
Me tornei um retratista veloz, com a mão direita eu fazia os traços principais e com a esquerda as sombras. Tirava um bom dinheiro. Uma vez cheguei a fazer dois desenhos ao mesmo tempo, não podia decepcionar meus clientes. Numa dessas, um cara, depois da cabine tremer, abriu a porta e pediu pra eu desenhar o rapazinho que estava com ele. Foi o último da noite. Cabelos castanhos claros e lisos, rosto quadrado, e um nariz minúsculo. Depois de terminar, perguntei se ele não queria um retrato também. Não, dobrou o papel guardando no bolso. Mesmo assim, pelo costume, fiz sem que ele visse.
No outro dia no final da tarde, quando eu estava passando o esfregão e desgrudando a sujeira da noite anterior, a polícia foi no bar e começou a interrogar todos os funcionários. Pela foto, reconheci o tal rapazinho na hora, como eu ia esquecer daquele nariz de criança que se recusou a crescer? Tinha sido esquartejado. Acharam os pedaços dele numa lixeira de um beco. Um dos moradores do prédio vizinho viu um vira-lata com um antebraço na boca, o dedinho apontava pra cima. Provavelmente ao ser arremessado, o dedinho enganchou na lateral de ferro e em vez de ir pra dentro da lixeira, caiu no chão. Corri pro banheiro, ainda possuía o desenho do outro cara comigo.
O principal suspeito estava lá, em branco e preto, diante de todos nós. As características físicas, que pra alguns passariam desapercebidas, foram captadas por mim com maestria, além, claro, do desenho estar muito bom: um melanoma no formato de uma lua embaixo do olho direito. Fizeram o rastreamento e conseguiram descobrir de quem se tratava. Se chamava Billy Whatson, diversas passagens em clínicas psiquiatras. Foi julgado e pegou prisão perpétua. Meu nome saiu em todos jornais. Naquela época estávamos nos primórdios da internet. Me tornei conhecido e do banheiro do bar dei um salto pra um ateliê no SoHo. Uma casa pequena, com as paredes pretas e uma janela enorme que cobria toda a fachada. Minha agenda não me dava mais trégua, vivia lotada. Depois de pintar telas e telas de retratos, pude partir pro meu trabalho autoral.
Assim que acaba de comer, Sparapanni pede um café. Mexe a colherzinha se sentindo um gênio, a história está perfeita. Se contasse que pintou a boca daquela mulher e outras cositas mais, Nina ia achar ele um escroto. Pior ainda se soubesse que se tratava de uma mulher rica, uns quinze anos mais velha que os dois e que tinha os melhores contatos de Nova Iorque.
