Ao olhar para trás, me pergunto como uma criança prodígio em campos tão díspares pôde se tornar uma adulta assim. Mal começo a buscar alguma ordem através dessas linhas mais ou menos desconexas, e vem junto a procura por sinais de uma tragédia anunciada, como se eu pausasse o momento exato em que um vídeo normal vira uma vídeo cassetada, ou talvez como se eu ficasse suspensa entre o clique num pop-up de site pornô e o momento em que diversas abas se abrem no celular e eu me torno o internauta número 5000 que ganha não um Iphone do ano, mas um monte de vírus que trava meu telefone para sempre. Não que eu já tenha feito algo parecido, claro. Jamais.
Por exemplo, nunca vou esquecer dos meus anos dedicados à dança. Lembro como se fosse hoje de aprender, no Domingo Legal, meus passos iniciais de lambada. Sozinha no quarto, eu ensaiei primeiro os passos curtos para frente e para trás, aprendendo o timing para flexionar os joelhos e a alternância dos movimentos para a esquerda e para a direita. Com a ascensão meteórica do ritmo, em questão de semanas eu já treinava com um par na festinha de Dia das Crianças na Alfabetização, quando rapidamente entendi o poder de sincronizar meus passos com o de meu pequeno parceiro, o pequeno Douglas. Minha aptidão era natural e reconhecida por todos, e a parte mais difícil era correr atrás do Douglas por todo o parquinho para obrigá-lo a continuar dançando.
Ao longo das semanas, o garoto foi minha mais preciosa ferramenta de formação na arte da lambada. Graças a ele, aprendi a dar fabulosos giros em torno do próprio eixo enquanto girava ou não ao redor de meu parceiro, cujo choro ao ser obrigado a dançar o tornou conhecido por anos na escola e mesmo depois de adulto como Ferrugem do Kaoma. Serei eternamente grata àquele garotinho tão gentil, cujas lágrimas copiosas enquanto segurava minha mãozinha em frenesi me impulsionaram rumo ao estrelato, pois graças a ele, pude treinar o suficiente a ponto de participar de diversos campeonatos de lambada, agora com parceiros de maior nível.
Eram competições brutais, que viriam a me custar as articulações de ambos os joelhos. Eu, porém, não sentia dor alguma ao rodopiar por horas e horas seguidas em competições que só terminavam quando a última criança desfalecia. Mães histéricas, pais que arrancavam competidores à força do salão enquanto outros as faziam continuar na base de sandalhadas de Ryder e o looping dos hits do gênero como Adocica, Me Chama Que Eu Vou e Chorando se foi: tudo isso faz parte das minhas lembranças mais tenras da infância. E claro, eu por cima de todos aqueles corpinhos retorcidos no chão, subjugando as demais crianças ao meu gingado fenomenal em diversas ocasiões. Os prêmios, bem, esses variaram. Podia ser desde um porco, quando eu ia nos campeonatos de lambada do interior do Amazonas, até ser figurante numa continuação de A Dança Proibida que infelizmente não chegou a ser lançada. E foi com pesar que, aos sete anos, encerrei minha carreira no auge, depois de viajar por três continentes mostrando a arte da lambada.
O que veio depois disso foram anos sombrios, de uma pré-adolescente que lutava contra seus próprios demônios na busca por um novo propósito na vida. Foi quando descobri a ufologia. Tudo começou meio por acaso, passando por uma banca de revistas, na qual eu folheei despretensiosamente uma publicação sobre o tema. Bastaram alguns parágrafos sobre a Noite dos Ovnis para que eu fosse abduzida pelo assunto. Naquele dia, levei uma bronca por ter gastado na revista o dinheiro que deveria ter virado quatro picolés de graviola para a minha avó (ela era uma entusiasta de picolés de graviola!), mas, sem saber, iniciei uma nova carreira meteórica.
O início da popularização da internet nessa época foi crucial nesse processo. Graças a ela, pude consumir uma quantidade absurda de materiais de arquivo e atuais sobre ufologia, além de participar de fóruns com tamanha frequência que chamou a atenção de autoridades como Ademar José Gevaerd, o editor da Revista UFO. Sob sua tutela, em um ano eu estava apta a participar de convenções de ufologia não como espectadora, mas como palestrante, e minha coluna na revista era uma das que mais recebiam cartas dos leitores. Além de minha bagagem intelectual, a desenvoltura cultivada pelos anos de dança me tornaram uma pessoa muito confortável para lidar com o público, e foi questão de tempo até eu ser convidada para programas televisivos, desde os popularescos Canal Livre dos irmãos Wallace e Fausto Souza ou o programa da Márcia Goldschimidt, passando por algumas grandes reportagens no Fantástico. Ainda lembro das chamadas me anunciando: “E no próximo bloco, a ufóloga mirim Susy Freitas explica a relação entre as estranhas formações na floresta amazônica e as aparições de OVNIS no Norte do Brasil”.
Sem dúvida, um dos meus momentos mais marcantes na ufologia foi a minha investigação sobre o ET de Varginha. Durante dois meses, eu pude pesquisar in loco o caso e tive o aporte de uma equipe de sete pessoas, a maioria entusiastas que buscavam, sob minha tutela, uma formação aprofundada sobre o assunto na prática. O Ademar José, que eu chamava carinhosamente de Tio Dedé, confiou a mim essa importante tarefa, certo de que meu olhar apurado e background incomum trouxessem um conteúdo diferenciado para a Revista UFO, que passava por dificuldades financeiras naquele período. Pesava sobre meus ombros a responsabilidade de salvar a publicação e, com ela, o emprego de vários profissionais que eu admirava, mas meu amor pela ufologia fez com que, durante aqueles dois meses, meu foco fosse única e exclusivamente em desvendar o que aconteceu em Varginha em janeiro de 1996.
O resultado, todos já sabem: minhas investigações renderam o cargo de subeditora da Revista UFO, uma série de reportagens premiadas, além do aclamado documentário “Susy Freitas investiga: Incidente em Varginha” e do prêmio de UFO Researcher of the Year Award do International UFO Congress, num reconhecimento de nível internacional jamais visto por um ufólogo brasileiro. Para coroar esse momento, a cobertura do feito pela equipe do Domingão do Faustão ainda acertou um encontro surpresa em mim e nada mais, nada menos que a minha paixonite pré-adolescente: David Duchovny, o Fox Mulder de Arquivo X em pessoa! Por sorte, consegui arranhar um inglês e conversar um pouco com ele, que me confessou já ter acompanhado um pouco da minha carreira em publicações americanas. Até hoje tenho a nossa foto juntos, a qual ele também autografou, na cabeceira da minha cama.
Hoje, no balcão de atendimento dos Correios, a estabilidade que alguns almejam por anos cobre de terra, anos após ano, o cadáver de lembranças tão vívidas de meus feitos quando criança. No máximo, aguardo equipes de programas de variedades que, de tempos em tempos, investem em quadros do tipo “Por onde anda?” e me encontram aqui na agência do Studio 5, cotovelos no balcão e máscara no queixo, enquanto encomendas rodam o mapa que eu outrora tive na palma das mãos.
