
A uruguaia Cristina Peri Rossi acabou de ganhar o Prêmio Cervantes, maior prêmio da literatura hispânica. Ela era um dos segredos mais bem-guardados da literatura hispânica até seu Espaços Íntimos sair aqui este mês pela editora Gradiva – embora ela já tenha sido traduzida para 20 línguas. Autora de 40 livros, lgbt militante, tradutora de Clarice Lispector, ativista de esquerda perseguida pela ditadura uruguaia, quando exilou-se em Barcelona e Paris fez uma amizade muito especial com Julio Cortázar, 30 anos mais velho: recentemente publicou Julio y Cris, sobre o caso entre os dois (e mais algumas mulheres).
Surgida na época do ‘boom’ latino-americano, não teve a mesma sorte de ser editada no Brasil. Talvez pela pegada libertária e gay de muitos relatos, ou talvez por conta de sua escrita inclassificável, que passa pelo fantástico delirante e por um realismo mais cru e cruel do que se esperaria de uma ‘literatura feminina’. A Sylvia Colombo fez uma boa entrevista com ela aqui.
Realista à medula, em Espaços Íntimos destaca-se a aguda percepção dos processos emocionais de seus personagens, por quem demonstra sempre muita empatia (mesmo quando são terríveis), o humor sardônico, a falta de cerimônia em tratar de desejos e perversões sexuais, a escrita veloz, as frases precisas e as imagens originais, em relatos que fazem uma radiografia implacável e corrosiva do nosso zeitgeist.
Entre os personagens de Espaços Íntimos estão um sujeito solitário em busca de uma trepada; um serial killer que desperta paixões violentas; uma mulher solitária em busca de uma namorada; um tiozinho que dispensa a amante para melhorar o casamento; um tiozinho casado viciado em jogar paciência; um oncologista assediado por uma prostituta durante um congresso; um homem e uma mulher casados em busca de uma escapada durante uma convenção de firma; uma senhora suicida internada em uma clínica psiquiátrica; um comerciante que se transforma em ladrão de banco; um professor de biologia que tenta seduzir uma aluna.
Personagens tão plausíveis quanto miseráveis, tão deslocados quanto desesperados. Um ponto comum a todos os contos deste livro: os ambientes são sempre fechados – quartos de hotel, apartamentos vazios, celas.
LEITURAS







































PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer. Um conto a partir de um anúncio. Pode ser um anúncio em jornal, revista, rede social, aplicativo, folheto perdido, ou um sussurro de um desconhecido na rua.
Pense que o anúncio sempre divulga primariamente um desejo. Na relação contida no anúncio existem dois personagens: um oferece um objeto e outro procura esse objeto. Talvez o mero fato de ver o anúncio desperte o desejo de alguém pelo objeto – alguém que nem sabia sentir esse desejo. Os publicitários da casa entenderão.
É bom lembrar que nem sempre o que se oferece é o que se procura. Existe sempre uma negociação. Existem também fraudes, enganos, contratempos. Pode ser que uma oferta não corresponda à realidade; pode ser que a oferta tenha um defeito; pode ser que a oferta traga transtornos à vida de quem a procura. Pode ser que o objeto anunciado leve a outros objetos, a outros anúncios. Pode ser que o objeto não traga a felicidade. Pode ser que o objeto traga uma revelação inesperada. Pode ser que o objeto leve à loucura.
Possibilidades do objeto:
- amizade
- automóvel
- imóvel
- gadget
- joia
- dinheiro
- viagem
- revelação
- trabalho
- sexo
Combinado com um dos adjetivos:
- dos sonhos
- proibido
- paradisíaco
- verdadeiro
- raro
- místico
- perigoso
- mágico
- misterioso
- a rodo
Possibilidades de personagens (escolher 2)
- Motorista
- Biólogo (a)
- Jardineiro (a)
- Costureiro (a)
- Veterinário (a)
- Cozinheiro (a)
- Construtor (a)
- Agricultor (a)
- Bancário (a)
- Vendedor (a)
Ao longo do seu conto, use mensagens de todo tipo – cartas, chats, áudios, impressos, bilhetes, o que quiser.
Narre na primeira pessoa – ou um personagem (ponto de vista único) ou ambos (dois pontos de vista).
Entre 3 e 10 mil toques.
