(Angélica)
Pago a conta e saio do restaurante lendo a mensagem da Girafa. Dei esse apelido pra Sabrina, a secretária da galeria. Se eu lambesse os seios dela, ia sentir seu queixo no topo da minha cabeça. Precisa de um texto meu pra abertura do catálogo. Mal dou três passos, torço o pé num buraco e só não me esborracho no chão porque, antes de cair, consigo agarrar um poste. Que merda, Sparapanni, quem mandou você só ficar pensando em sacanagem! Uma senhora com um andador dá um sorriso cínico ao passar do meu lado. Saca quando você tinha que dançar com a mina mais feia do bailinho e se entortava todo pra não roçar nela? Estou mais ou menos assim. A velha bate o andador com força na calçada e chacoalha a cabeça soltando agora uma gargalhada. Rosno pra ela enquanto levo os dedos pro meu maxilar fodido.
Depois de ficar até o começo da noite pintando na edícula de casa, vou pro escritório. Na verdade, uma mesa embaixo da escada cheia de papéis, uma zona de contas e documentos. A Girafa quer que eu mande a apresentação logo. O computador demora pra ligar, isso já me deixa irritado, fora que sou uma desgraça com os textos. Depois de várias tecladas, releio as quatros primeiras frases e acho lamentável. Nina, minha deusa, você bem que podia me responder e na conversa, sabendo do meu sofrimento, me ajudar. Me desconcentro de vez pensando em como a sua bunda me dava tesão. Era arrebitada. Ainda é? Não deu pra ver direito. Abro o Google no modo putaria. Nuns dos anúncios está escrito Babe com as Fantasias das Pequenas Notáveis e goze em até três vezes sem juros.
O site é todo rosa choque, umas estrelas amarelas cafonas sobem pela página e explodem na barra com as fotos das garotas. Clico na seta da direita pra que as beldades rolem na tela. É maravilhoso, tem de tudo: química, coveira, barbie, manequim de loja, halterofilista. Ao ver uma magrinha com um véu de noiva em cima da franja castanha, lábios finos como a boca de uma lagartixa e um buquê entre os seios, paro nela. Mulher com as pálpebras caídas são as mais devassas. No fundo, uma samambaia pendurada na parede me chama atenção. Chantilly (se lambuze com o meu, com o seu creme). É essa. Escolho o pacote de quinze minutos e puta que o pariu, o anelzinho da noiva deve ser lapidado de brilhante. Quase desisto quando tenho que preencher os dados do cartão de crédito. Antes de começar, ajeito o cabelo e a blusa.
A luz da minha câmera acende, Chantilly está sentada numa cadeira. O véu, agora sem volume, cai nos ombros como se o creme tivesse derretido. Usa um corpete branco com o laço desamarrado, reforça suas olheiras. A samambaia está do mesmo jeito da foto. Como não percebe que estou conectado, posso ver sua expressão de tédio. Assim que ela fica iluminada, se empina toda e dá um sorriso mostrando até o siso, os olhos, quase por mágica, começam a brilhar.
– Oi, chéri, sou todinha sua. Pode me pedir o que você quiser.
Diz isso de forma automática e melosa e depois enfia o indicador, com uma unha de uns dois metros, na boca.
– Chanti, quero ver seu corpo. Levanta aí, querida.
Essa é boa Sparapanni, cinco segundos de conversa e já é íntimo. Ela usa uma calcinha branca de renda, as pernas são compridas e um pouco flácidas na parte interna da coxa. Peço que vire. A bundinha não pode ser mais deliciosa. Subo pelas paredes querendo pegar o rabo de lagartixa. Desse jeito, sem mostrar o rosto, lembra muito a Nina. Peço que ela se sente de novo e tire o corpete bem devagar. Os seios têm silicone, e à medida que pulam pra fora, posso acompanhar o círculo de um compasso. Num dos mamilos, um piercing com uma argola prateada. Sem que eu peça, ela se abaixa e pega um spray. Antes que comece sei lá o quê, a interrompo.
– E essa samambaia?
Chantilly me olha surpresa. – O que tem?
– É de verdade?
– Nada, de plástico. Quer que eu brinque de tigresa? Posso ficar entre as folhas. – Diz apontando as garras.
Depois de rir, falo que não, pode continuar. Me afasto um pouco do computador e acendo um cigarro.
– Por que você tem essas plantas se não cuida?
– Boa pergunta, Nina.
– Se eu não regasse, já tinham morrido. Olha só o estado da samambaia. Não devia estar aqui, você fuma em cima dela o tempo todo.
– Está bem aí.
– Amarela desse jeito? No dia que elas morrerem pode ter certeza de que não vamos estar mais juntos.
Nina tinha razão: todas as plantas secaram. A última foi a samambaia.
O barulhinho do spray me traz de volta. Logo em seguida é o de uma mensagem chegando. Chantilly arranca o corpete, a calcinha desce como um bambolê pelas pernas. Começa a dançar só de véu. Faz o diabo com o creme. Se lambuza tanto que uma hora acho que ela vai desaparecer numa nuvem fofa deixando só os buracos dos olhos. Dou uma tragada no cigarro achando que já deu de confeitaria. Só que não. Nem sei de onde aparece uma caixa de morangos.
– Chanti, seu show é muito bom, sério. Mas eu queria que você fizesse só uma coisinha pra mim.
Minto pra que não se aborreça, se dissesse que era uma vadia, piranha ou qualquer outra coisa nem ia ligar. Mas vai falar mal da dança pra você ver, são todas sensíveis com esse troço de arte. Ela para e come um morango enquanto espera eu falar. Um não, vários, parece faminta.
– Meu merenguezinho, vira de costas de novo e fica rebolando bem devagar. De um lado pro outro, como o pêndulo do relógio da casa da sua avó. Só isso.
Chantilly balança e em pouco tempo sinto as ondas baterem no meu quadril, na barriga, no peito. Nina está na minha frente, os cabelos molhados escorrendo pela nuca. Quando estamos com a água no pescoço eu a abraço e… aparece uma mulher em miniatura na tela:
– Seu tempo acabou. Pra continuar pague em um clique. – Mexe os braços apontando pra um botão verde.
– Não precisa, baby, já fui pro céu. – Respondo pra tela congelada. – Chantilly, você foi ótima. – Uma pena não ter dito isso pra ela, mas foda-se.
Volto pro texto e acendo outro cigarro. A melhor hora pra dar uma tragada. Antes de escrever, espio o celular.
Nina Felpa
Hoje 20:16
– Um café amanhã?
Mal posso acreditar. – Um café, uma cerveja, um uísque, o que você quiser. Amanhã, depois de amanhã ou depois de depois de amanhã.
A resposta vem na hora. – Você está bem?
– Com você, sempre.
– Assim você me assusta, esquece.
– Era brincadeira.
– Esquece.
