por Américo Paim
Eu devia, mas não desconfiei do convite naquele áudio de última hora. Gileno tava um agito só. Já no primeiro chope me apresentou um pedaço de papel verde cana, um tanto amassado, com palavras escritas em letras pretas. Não ri em respeito ao esforço dele. É que nunca acreditei naquelas coisas. Ele queria me ajudar e eu estava mesmo sem saída. Também, depois do que aprontei, me lenhar era pouco. Tudo parecia do contra e eu, idiota que só, resolvi seguir com aquela maluquice. Ele vibrava.
– Rapaz, o que cê tem a perder, digaí?
– Isso não existe…
– Porra, cê é foda.
– Velho, é perda de tempo e grana.
– Mas se tu tá mais sujo que pau de galinheiro? Pense aí. Vamo ler de novo?
Prendemos o papel sobre a mesa com nossos copos. Bateu um vento. Seria presságio? Nem comentei pra não dar corda na doideira dele. Pedimos mais uma rodada. Estava impresso assim:
Resolvo seu problema de amor, dinheiro, saúde, trabalho! Pare de esquentar a cabeça. Fale agora com Mestre Farol. A luz vai lhe guiar! Confie no poder!
– Porra, cê tá rindo de novo.
– Não tem como, na moral.
– Qual é o pó?
– Repare. Esse nome já é demais… E nem tem telefone!
– Tem o endereço, ué.
– Travessa do Canteiro, sem número. Conhece essa bocada?
– Não, mas tem um amigo que tem um primo que sabe de um cara que mora bem perto.
– Para com isso.
– Já chequei. A rua existe. Bora lá!
Pensei assim: a merda já tava feita. Minhas outras tentativas tinham dado em porra nenhuma. Marcamos para dois dias depois, um sábado. O fela ainda me fez pagar a conta. Falou que tava durango. Lembrei da máxima: não existe almoço grátis. E nem levei as sobras do bobó pra casa.
Chegamos umas nove e meia da manhã. As ruas do entorno bem movimentadas. Tinha uma feira livre perto. Deixamos o carro, caminhamos por uma praça e mais duas quadras, até a travessa, que não era mais que um beco. Uma picada de terra batida, com muros ladeando só no início. Nos custou uns duzentos metros até a casa, sem vizinhança, com cerca baixa, mato ao redor, sem portão. O aspecto geral era de abandono e a varanda parecia limpa há pouco tempo. Tinha um banco comprido sem encosto e uma mesinha de apoio. Nada na parede, além de uma janela velha. A pintura era branca só que o desgaste e a sujeira predominavam. Quis vazar dali e propus, sem sucesso.
Batemos à porta e um sujeito de uns dois metros de altura, negro, de cara ossuda, barba grande e cabelo ralinho, vestindo camisa e calça brancas surradas, veio até nós.
– Bom dia. Será que a gente pode falar com…
– Senta aê e espera o mestre chamá.
– Mas é que não marcamos o horá…
– Fique frio, patrão.
– Demora muito?
– Sei não. Tem uma lá agora.
Nos restou aguardar. De vez em quando subiam uns cheiros, ouvíamos vozes, soluços, barulhos de coisas batendo. Aquilo durou quase uma hora. Eu já tava de saco cheio. Quente que só a mulesta. O vento fazia curva e não batia ali. Aí saíram duas mulheres. Pareciam bem animadas. Sumiram logo no beco. Uns dez minutos depois, o gigantão voltou e foi esquisito.
– Entra logo.
– Quem, eu?
– Você, branco da cara redonda, de vermelho e sandália de couro. A cicatriz no pescoço foi o quê, fio?
– Queda de bicicleta.
– Briga de faca não, né?
– Oxe, não. Por quê?
– Mestre não atende porradeiro não. Vai logo, moço.
Gileno me olhou com expectativa e lá se foi. Não gostei de ficar sozinho ali. O calor, o mistério, a espera, tudo me incomodava. Menos de uma hora e ele saiu, a cara boa. Quis perguntar, mas fui cortado.
– Agora né hora de falar, não, fio.
– Eu só queria…
– Agora é você, moreninho do cabelo cocô de rola. Essa camisa aí é azul ou preta, fio?
– É azul bem escuro.
– Ah, tá bom. Mestre não gosta de nada preto na roupa. Bora, entra logo.
Após a sala minúscula, um corredor estreito e duas portas fechadas, me fez entrar na terceira. Não havia nada nas paredes e tudo cheirava a coisa velha. A sala era árida e escura. Um quadro estranho com uma hiena diante de uma carcaça, uma mesa, duas cadeiras e luminária de pé, virada para uma delas, para onde fui levado. Logo apareceu a figura. Quer dizer, mal o via. Era como uma silhueta. Usava tipo uma capa que parecia branca, com um capuz. A voz firme e grossa. Um anel em cada uma das mãos enormes. Me virei para o grandão e ele já tinha sumido. Me assustou como saiu e nem vi.
– Então, senhor Leopoldo, o que vai ser?
– Como sabe meu nome? Foi Gileno?
– Meu tempo é precioso.
– Eu sei, é que…
– Veio me falar de Josélia, de Miriam ou tudo junto?
– Oxe, quem lhe contou?
– É meu trabalho. Aviso que antes tem a questão do preço.
– Ah, claro. A como é?
– O senhor quer avulso ou combo?
– Como assim?
– Se for só a questão da traição é um preço. Se incluir outras coisas, pode ser mais em conta.
– Opa, como é isso aí?
– Se quiser três assuntos, o preço de cada um cai. Só questões amorosas custa R$500.
– Porra, por uma hora?
– Sem xingamentos aqui.
– Tá bom, mas tá caro, mestre.
– Então encerramos.
Ele se levantou irritado. Ouvi barulho de porta se abrindo. Era o gigantão. Me deu medo mesmo. Pensei que ia me bater. Pedi desculpas e ele voltou à mesa.
– Calma aê. Só queria entender o combo.
– Se for problema de amor, saúde e trabalho, sai tudo por R$900.
– Pô, seu Farol, não tô pra gastar tudo isso.
– O senhor é quem sabe. Seu caso é complicado.
– Oxe, nem falei nenhum detalhe.
– Sua traição foi nível 3. Isso dificulta.
– Que história é essa?
– Temos uma tabela.
Me mostrou papel plastificado. No cabeçalho tinha escrito: sexo masculino. A parte da traição era mais ou menos assim:
Traição (preço por sessão)
– Mensagens em celular, flagrante de cantada, manchas de batom, cheiro de mulher – nível 1 (R$200)
– Beijo em festa da firma, gastos em cartão de crédito, depoimento de vizinha – nível 2 (R$300)
– Flagrante de sexo fofocado ou presencial, pessoa da família – nível 3 (R$500)
– Família paralela constituída – nível 4 (a negociar)
Aquela organização toda me pegou. Aliás me pegaram mesmo foi na cama, com Josélia, na casa dela. A história é complicada e comprida. Não cabe aqui. Ela é prima carnal de Miriam. A merda foi federal, mas eu ainda tinha esperança de salvar meu casamento. O que tinha conseguido até ali foi falar com ela por telefone, depois de duas semanas de gelo. Diante de tudo, concordei com o preço e já fiz a transferência.
– Muito bem. São quatro sessões, pagamento adiantado.
– Tá louco? Nunca!
– Mais respeito. O senhor decide.
– Porra, véi, faz um menos aê…
– Controle a língua.
– Foi mal, mas quebra uma aê…
– Fechamos tudo por R$1.800. Último preço. Nereu lhe passará as informações.
– Quem?
– Meu assistente.
Acordo feito, a sessão continuou e fiquei besta como ele conhecia detalhes da minha vida. Errou umas bobagens e as coisas principais estavam todas certas. Até da minha infância em Pedra Velha ele sabia. E a noite fatídica? Relatou com riqueza de detalhes. Após aquilo, fiquei confiante.
– Próximo sábado o senhor vai ao endereço que está nesse cartão.
– Deixe eu ver…
– Não abra aqui. Procure por Elvira. Ela vai fazer uma retrospectiva energética.
– O que é isso?
– Vai ver. Assim que acabar, o senhor vem aqui.
Voltando para casa, mal ouvi as histórias de Gileno, que me garantiu não ter falado nada de mim para o mestre. Ainda disse que o cara sabia tudo dele também.
Chegou o sábado e segui para o tal endereço. Eu conhecia a rua. Era um prédio velho e pequeno, sem elevador. Subi dois andares e bati à porta do 205. Me apareceu uma mulher maravilhosa, cabelos e olhos bem castanhos, vestido bege, com uns brincos discretos, batom bem vermelho, maquiagem, um perigo. Era Elvira. Me chamou pelo nome, me esperava. Me levou por um corredor curto até uma sala com poltrona, maca de massagem e TV. Me falou que era R$500. Quase pulei da cadeira! Me explicou que era uma etapa crítica para a segunda sessão com o mestre. Transferi o dinheiro. Mandou que tirasse toda a roupa e colocasse o roupão que estava na cômoda gasta junto à janela de cortina escura e espessa. Depois assistisse a um vídeo breve que já estava no ponto e explicava tudo. Saiu da sala dizendo voltar logo com as vestes adequadas, palavras dela. Eu não vou mentir: fiquei foi atiçado com a tal “não sei o quê energética”.
O roupão era cheiroso e no meu número. Nem fiquei surpreso mais. Devia ser coisa do mestre. O vídeo começou com uma paisagem bucólica, passarinhos cantando. De repente, gemidos e a imagem sem foco do que parecia ser uma transa. Quando ajustou, era um casal – eu e Josélia! Nossa transa foi filmada! Antes que eu sequer entendesse, a cena foi cortada. Veio outra, com mais gemidos, bem altos e outro casal. Era Miriam! E o homem não era eu! Tinha um capuz conhecido. Ela gritava e às vezes olhava para a câmera. Porra, parecia feliz! Notei o anel na mão grande que segurava a bunda da minha mulher! Corri para a sala. Nem sinal de viva alma. Puto nas calças, me vesti, desci e circulei pelas ruas perto do prédio. Ninguém conhecia nenhuma Elvira. Só me restava ir à Travessa do Canteiro.
Chegando lá, o mesmo cenário de desolação, mas a porta estava apenas encostada. Chamei por Nereu e pelo mestre, sem sucesso. Entrei. Vi uma luz na sala onde aconteceu minha sessão e fui até lá. Vazia. Sobre a mesa um envelope com meu nome escrito e caligrafia familiar. Abri.
“Leopoldo, seu porco imundo.
Se chegou até aqui, já viu o que eu queria. Josélia me avisou que você era um mentiroso traidor e eu não acreditei. Então ela apostou R$1.000 que transava com você. Perdi, mas em vez de pagar, apostei R$2.000 que ia transar com outro homem e você ia assistir. Com duas trepadas, faturei R$4.300 brutos. Me parece um bom negócio, não? Ah, nem brigue com Gileno. O otário não sabia de nada. Precisava pagar dívida de agiota. Não foi difícil. Quanto ao mestre, ele sabe tudo mesmo. Você nem faz ideia, babaca”.
Fiquei sentado ali. A hiena no quadro parecia rir de mim. Ela pelo menos tinha os restos.
