A festa

Leandro Reis

1.

Levantando-se bruscamente do sofá, um homem bebe o resto da taça e passa a imitar um chimpanzé para três pessoas. Todos riem quando ele se coça e dá pequenos saltos, mesmo com a taça em uma das mãos. Um outro homem se aproxima do grupo de admiradores com as duas mãos erguidas, fazendo um gesto de contar dinheiro, rindo em direção ao chimpanzé; mas o chimpanzé não parece receptivo, fita o homem firme nos olhos e suspende a imitação. Depois, volta a se coçar e todos riem nervosamente, até que uma mulher com uma criança no colo passa por eles, levanta as sobrancelhas para o chimpanzé e ele a segue para a copa, onde garrafas de vinho e espumante brilham sobre a mesa. O chimpanzé apoia sua taça e a de sua companheira para enchê-las. Mas a mulher não pode segurar a taça, uma vez que já segura a criança, uma menina meio careca com uma tiara de metal na cabeça, reticente a respeito do colo do pai, não quer perder a altura que a deixa próxima de um enfeite pendurado no teto – um pássaro mecânico pousado num galho. Animado pelo vento que chega do jardim, ele bate as asas e grasna, mas sem sair do galho. É para isso que serve. É um pássaro numa bicicleta ergométrica, alguém nota, um homem grisalho que estaca na frente da criança e da mulher, apertando e torcendo com os dedos o cavanhaque branco como uma máquina de algodão doce.

Atrás deles, vistos pelo reflexo da porta de vidro da cristaleira, mais convidados chegam, talvez os últimos, pois já há pelo menos uns vinte andando pela casa, é o que o chimpanzé parece se dar conta, mexendo os dedos em frente à porta do armário, aprendendo a contar. Ele termina de encher as taças e se aproxima da mulher e da criança, envolve as duas com o braço e caminha para o jardim. Debaixo de um toldo branco, mesas e cadeiras de vime com almofadas acomodam senhoras com leques e homens de testas suadas, que usam lenços ou as costas das mãos para secá-las. Entre as mesas, destacam-se grandes arranjos de flores e balões dourados que formam a palavra HARMONIA. O chimpanzé deposita sua família numa das cadeiras e volta para dentro da casa.

Sob um toldo adjacente, bem menor que o principal, uma velha rodeia a mesa de frios tirando fotos com o celular, segurando o celular na ponta dos dedos de uma mão que treme e apertando com o indicador da outra mão o botão da foto. Um marido ou um irmão a ajuda, empurrando com um palito de dente as azeitonas para perto dos queijos, de modo a formarem um círculo quase perfeito, mas as azeitonas saem do lugar quando ele tira o palito, parecem vivas, ele diz, espantado. Ao cabo de alguns minutos, eles desistem e enchem os pratos, e só depois percebem o celular em cima da mesa, mas já não há mãos para resgatá-lo. A velha se desespera.

Um pouco afastado, um jovem casal anda abraçado, a moça apontando para as árvores como se contasse a ele a história delas, das acácias amarelas, do pai que as plantou esperando que crescessem muito mais e fizessem sombra na piscina. Ele não parece impressionado; olha para as pessoas que saem pela porta de vidro espetando petiscos, uma delas não consegue comer porque ri, ri muito, não consegue parar de rir, a bebida deslizando de uma borda à outra da taça, ela passa pelo jovem casal como se nunca fosse recobrar o controle, o rosto inchado e vermelho. Na borda da piscina, três jovens olham para o casal, talvez esperando algum movimento interessante, pois não bebem nada nem conversam e têm cara de tédio. Mas todo o resto da festa conversa, só se ouvem vozes pelo jardim e pela casa, porque falam alto, todos eles, e talvez aí esteja o indício de que se trata de uma família. Apesar de nem todos se parecerem, alguns se parecem, e aí se admite também que o resto são os agregados.

Porque se fala alto nesta casa, uma mulher anuncia aos gritos, primeiro na sala da casa, depois na cozinha e na copa, depois no jardim e na borda da piscina, onde talvez estejam os mais surdos, porque ali ela de fato berra que está na hora do amigo secreto. Pelos gritos e pela roupa temática, um vestido branco e longo coberto de renda dourada, trata-se da anfitriã ou de alguém que toma a festa para si, alguém violento. As pessoas voltam quase sem falar, ao mesmo tempo e de todos os lados, e começam a se acomodar à longa mesa, agora sem as garrafas e as taças e as velas, e cheia de presentes coloridos.

2.

O meu amigo secreto é um homem, até onde a gente sabe, ela ri, e eu não conheço muito ele, até onde eu sei, porque na minha profissão a gente não lembra de todo mundo, diz a profissional, se bem que com um país em frangalhos é impossível exercer a minha profissão, diz a ex-profissional. A gente conhece muita gente e é normal numa família como a nossa, família italiana. O meu amigo secreto, ela tenta recomeçar tomando um gole da taça, o meu amigo secreto, ele é um homem de poucas palavras, e quando fala, fala baixo, parece que nem quer que o ouçam, ao contrário da nossa família, ele não entende que aqui precisa gritar pra ser ouvido, o meu amigo secreto. Ele pode ser qualquer coisa, aliás alguém aqui sabe a profissão dele?, depois vocês me respondem, agora vocês não sabem quem é, eu mesma nunca ouvi ele falar sobre o trabalho, só sei que viaja muito, agora vocês já devem estar adivinhando. Mas ninguém diz nada, mexem a cabeça para os lados, bebem, a mulher enche a taça mais uma vez, já há algum tempo segura a taça numa mão e a garrafa de vinho na outra. O meu amigo secreto é igual uma vizinha de mamãe, uma infeliz, viajava por meses e deixava o marido mofando junto com a casa, ela não tinha pena nem dos móveis.

Do jardim sai um barulho seco, propagado até o interior da casa, na mesa dos presentes. A anfitriã para de falar. Os convidados parecem ganhar vida, olham para os lados, trocam algumas palavras e sobretudo comem e bebem, a menina careca com tiara de metal que pende do colo da mulher também se agita. O velho do cavanhaque de algodão doce aponta de novo para o pássaro, está prestes a fazer sua piada da bicicleta ergométrica, ele aponta para o pássaro porque é por isso que a menina se agita. Mas o pássaro permanece parado no galho de plástico; além do mais, se observasse sem pretensão, o velho do algodão doce perceberia que a menina olha para um ponto além do pássaro, na verdade até mais baixo do que o voo inerte do pássaro, ela olha para o jardim e seu olhar o atravessa, e então o velho também olha para o jardim, e em seguida a mãe da menina e os convidados em volta dela também observam o olhar da menina, e não o objeto de sua contemplação, porque não o enxergam, tentam pegar carona no instinto da menina, disfarçam levando as taças à boca e tentando mover apenas os olhos, mas isso dá dor de cabeça, então precisam também coçar alguma parte do corpo para justificar a inclinação para a porta, e assim o fazem. Só quem não olha para lá é a anfitriã, a dona da voz, uma voz que já começa a se esfarelar – bom, o meu amigo secreto é um homem… –, o que anima os convidados inclusive a se erguerem da cadeira e a até se levantarem por completo, o caso de dois homens, um deles o chimpanzé, que se dirigem até o jardim e atravessam as mesas debaixo do toldo, já fora das vistas dos convidados.

A anfitriã percebe que o amigo secreto está arruinado, então começa a se dirigir a algumas pessoas no meio de seu discurso, de sua charada a respeito do homem de poucas palavras, o homem que viaja muito e nunca está ali com quem quer que seja a coitada que o espera, ou não o espera, ela diz, não é Marco, será que ela espera mesmo?, acho que não, o homem do cavanhaque de algodão doce responde, embora não seja ele o Marco solicitado. Mas ninguém percebe, porque agora se nota outro barulho vindo do jardim, desta vez se distinguem três estampidos seguidos. Mais algumas pessoas se levantam e tentam deixar a mesa, a anfitriã se põe no caminho da porta e continua a falar, apesar da voz sufocada. O meu amigo secreto, talvez ele fosse o seu tipo, Irene, se já não tivesse uma amante. Mas Irene não parece estar à mesa, deve ter se levantado e saído pela porta lateral. A anfitriã já não consegue impedir a debandada e sai do caminho, as lágrimas brilhando no rosto pálido. Então mais dois estampidos ecoam pela casa, a anfitriã corre até a mesa dos presentes e pega algumas caixas, o corpo treme represando o soluço, ela corre junto com os convidados pelo jardim erguendo os presentes, mas tropeça no vestido e cai. Do chão, ela consegue ler a palavra HARMONIA sobrevoando o arranjo de flores.

Alguém pergunta onde está o jovem casal, mas ninguém responde. Começa a chover.

3.

O jovem casal é encontrado no mesmo lugar, entre as árvores, conversando, um pouco mais afastados um do outro desta vez. Com a chuva, os jovens que o observavam se sentaram debaixo do toldo, e agora prestam atenção no outro lado da casa, num cômodo adjacente, uma garagem ou um depósito. De lá é que vêm os barulhos. Ao redor, os convidados conversam em voz baixa enquanto o chimpanzé e outro homem seguram com o peso dos corpos uma porta de madeira. Alguns convidados se incomodam com a chuva e vão para debaixo do toldo. Ali, dividem a atenção entre a porta de madeira e o jovem casal, que, além de afastados, trocam gestos e palavras grosseiras, a moça parece desdenhar de um cacoete do rapaz, cujos braços nervosos balançam como se tentasse voar. Porque dois já não são o suficiente, mais dois voluntários se aproximam da porta, forçando com os ombros a parte superior enquanto os outros a seguram embaixo. A ala dos convidados que acompanha o jovem casal solta um suspiro, atraindo a atenção dos que se preocupam com a porta, mas só por um instante: um dos homens que segura a porta grita para o chimpanzé, movendo as mãos sob certos padrões, compreendidos pelo chimpanzé como um cadeado e uma corrente. Ele deixa o posto e corre até a casa, olhando de esguelha o casal que troca pequenos empurrões no jardim. Para diante de uma cômoda na copa, ao lado da cristaleira, e abre uma gaveta, onde encontra uma chave. Acima dele, no teto, uma corrente de vento liga o pássaro, que grasna e bate as asas mecânicas. No jardim, a moça empurra o rapaz dentro da piscina, mas agora todos prestam atenção no chimpanzé, na dificuldade de sua tarefa, gritam para ele se apressar e abrir a cristaleira, alguns batem palma, como numa gincana, mas a pressa é genuína, afinal uma quina da porta se quebra e os intervalos entre os estampidos diminui. O chimpanzé olha para o pássaro que voa sem sair do galho.

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