(Angélica)
A próxima história é de Natal. Detesto Natal e escrever a respeito desse tema é uma tortura. Acasalamento de bichos e espírito natalino são duas coisas que não combinam. Não dá pra ser com a vaca do presépio e nem com o burro, eles não têm graça nenhuma. As renas do trenó não vão causar impacto, magrelas demais. Um Papai Noel que desce pela chaminé pra comer os corações solitários poderia dar certo, cópula humana, mas se eu apresentar isso, eles vão querer me matar. Os pelos da barba branca e a pança grande lembram um urso polar. Vai ser por aí.
Animada por ter achado o caminho, vou pra cozinha fazer um café. Quando pego a caixinha de filtro de papel, percebo que ela está vazia. Pelo jeito ando me hidratando com cafeína. Tenho um coador de pano em algum lugar. Me ajoelho no chão da cozinha e ao enfiar a cabeça dentro do armário que fica embaixo da pia, vejo algo terrível lá no fundo. O que essa coisa está fazendo aqui? Isso que eu devia ter jogado pela janela. Minhas mãos ficam agitadas, sinto a veia do meu pescoço pular. Tombo pra trás e tiro a todas as panelas espalhando tudo ao meu redor até alcançar a caixa. Mesmo sentada no azulejo frio, meu corpo ferve.
Como eu odeio você, Theo, meu primo querido. Precisava me dar essa porcaria de amigo secreto? Todo mundo ganhou um presente bom. Foi por ciúme? Só pode. Não tenho culpa do tio Arthur gostar de mim. A ceia na sua casa estava perfeita, o melão com presunto cru, o camarão ao creme, as profiteroles. Se as luzinhas da árvore de Natal fossem brincos, em cada galho havia mais de vinte orelhas. Por que você fez isso? Pra ser desagradável comigo? Me punir? Seu pai ficou magoado, eu também. Me deu vontade de entortar ainda mais seu nariz ou fatiar a sua barriga pontuda com um cortador de frios. Se eu quebrasse a armação de ouro dos seus óculos você não ia ligar, deve ter mais umas cinco na gaveta.
– Pra você colocar no seu apartamento, Nina – disse com um sorriso cínico nos lábios, até babava um pouco pelo canto da boca.
Depois de ouvir essa frase, desembrulhei pacote meio desconfiada. Não imaginava o que podia ser. Quando tirei o que tinha dentro, uma rede de proteção pra gatos ou crianças, não reagi nem disse uma palavra. Coloquei o presente numa poltrona e fui até a mesa onde estava o balde de gelo pegar uma taça. Pelo menos o espumante era bom. Não podia beber, mas dane-se. O resto da noite passei na minha. Seu pai veio falar comigo, disse pra eu não ligar, que outra hora ia conversar com você. Tanto a sua mulher, Maria Eduarda, como a do tio, a Ivone, não disseram uma palavra, e olha que essa última fala pelos cotovelos. Duas sonsas. Continuaram bebendo e festejando o Natal como se nada tivesse acontecido. E você também, né? Assim que terminamos de comer, chamei um uber e fui embora, só levei o presente comigo porque queria encerrar o assunto, mas pensando bem, devia ter deixado pra você. Nem sei por que ainda está aqui.
Irritada, vou até a escrivaninha e pego uma tesoura. Corto a rede como se cortasse os dedos do meu primo. Um por um, dos pés e das mãos. Os pedaços se espalham pela cozinha, deixo tudo como está e me sento na frente do computador. O prazo pra terminar a história é pequeno e já me aborreci o suficiente.
“Na noite de Natal, Zimba, um urso polar gigante, depois de lutar ferozmente com um outro urso e ganhar a batalha, consegue conquistar a fêmea dos seus sonhos, Léia. Pra impressioná-la mais um pouco, abocanha uma foca gorda e dá de presente pra sua amada. Ela come primeiro a pele e em seguida a gordura, a parte mais saborosa. Quando já está mole e toda lambuzada, Zimba chega junto e crau, come a pobrezita, no bom sentido, é claro. O acasalamento dura pouco. Ele vai embora satisfeito, nunca tinha recebido nada tão bom nas festas natalinas. Já Léia cava um túnel e permanece na toca até dobrar de tamanho, talvez por isso mesmo fique escondida. Sua barriga cresce horrores e as quatro tetas amamentam os dois filhotes fofuchos que acabaram de nascer. Não contava que ao sair do seu esconderijo, um macho desconhecido ia tentar comer suas crias, desta vez no péssimo sentido. Onde o filha da puta do Zimbra está que me deixou aqui sozinha? Ao fazer essa pergunta, toca com sua pata no dente canino da foca que está pendurado no seu pescoço”
Acho que ficou ótimo, sentir raiva às vezes serve pra alguma coisa. Mais tarde faço a segunda parte, quando Léia encontra o Zimbra e pede meio brava pra ele cuidar dos filhotes e também trazer comida pois suas tetas estão doloridas e ela está exausta. Volto pra cozinha pra limpar a zona que eu fiz. E também pra colocar a água no fogo, acabei me esquecendo do café.
Com a xícara na mão, fico pensando em todas as maldades que Léia poderia fazer. Lógico, meu primo tem tudo a ver com isso, se eu achar alguma boa, sutil e sem dar bandeira, ele que se cuide.
Quando estou abrindo a porta pra levar o lixo pra lixeira, ouço o barulhinho do meu celular. Deixo o saco plástico cair no chão e vou olhar a mensagem. É o Sparapanni.
– Nina, vamos passar o Natal juntos? O seu presente já está na minha árvore.
Respiro fundo e penso numa besteira bem obscena. A ursa pode até ficar mais boazinha.
