Foi na Flivelha

por Américo Paim

Antônio Marcílio, o popular Tonho da Sunga, foi apelidado assim em uma cidade que só tinha rio. Nem alto nem baixo, de origem humilde, lhe faltavam uns dentes e alguma noção. Tomava uma com gosto. Mulherengo histórico, se casou com Maria Jandira, a Maria Piaba, morena bonita e discreta, conhecida peixeira. Era vereador em Pedra Velha quando se deu o acontecido.

Foi devido a um caso com uma professora. Ele se encantou tanto que promoveu uma festa literária, a Flivelha. Foi uma edição só, na boca do Natal.

Ninguém sabe o que fez para que o grande escritor e professor Ronaldo D’Albuquerque, do sucesso “Os céus impossíveis”, organizasse tudo. Seria verdade que ele nasceu em Pedra Velha e saiu de lá bebê? É uma pergunta para o próximo milênio. Escritores de prestígio afluíram:

Susy Mello, a famosa poeta, do livro “Carrego meus álbuns comigo”; Leandro Bressane, autor do elegante “Seção 377”; Rafa Argenta, do clássico “Fofo é a mãe”; Bruno Freitas, do renomado ensaio “Você já foi a Maringá, minha nêga?”; Pérola de Barros, estourada com o podcast “Respire, véi, é só música”; Américo Reis, da recente coletânea sobre pênaltis perdidos “Ah, vai lá e bate você”; Helô Vicentini, do ótimo manual “Escreva curto e diga tudo”; Victor Zoehler, do sombrio romance “Esquizo em Madnaus”; Silvia Mathias, do premiado “Conta aquela da Rua Augusta?”; Angélica Toscano, do polêmico “Nicco e Raquel” e Roberta Paim, da bem-sucedida peça “Pirangueira que só”.

Tudo ia bem, mas Tonho inventou um amigo secreto com apoiadores, no banquete de abertura. Bebeu desde cedo, na pescaria com os amigos: Beto Prenha, da barriga de chope, Juca Mentira, baixinho de pernas curtas e Firmino Notre Dame, corcunda desde menino. Beto abriu:

– Meu amigo secreto tá devendo pa porra lá no armazém.

Valdir se assustou como adivinharam logo que era ele! Aí falou:

– Minha amiga secreta é a mais bonita do bairro.

O presente foi um vestido decotado na cor preferida de Zenilda, que explicou ao marido Júlio que era só gentileza do cabra. Agora era a vez dela, que mudou logo o foco e a treta foi pior.

– Minha amiga secreta fala demais da vida dos outros.

A plateia, afiada, gritou: “Raimunda!”, que ganhou o livro “A mulher calada”. Não rolou porrada por um pio, opa por um fio. Alheio, Tonho seguiu enchendo a caveira. Queria ficar só de sunga e os amigos impediram. A troca seguiu.

Abílio tirou Denise e se ajoelhou diante dela com uma caixinha. Constrangedor. Ela não queria aceitar. Barnabé saiu com cara de poucos amigos, justo nessa hora. O povo fala, né? Então, Tonho silenciou tudo, gritando que era sua vez. Com a boca cheia de bola de gude, ele começou.

– Minhamiga sequeta é uma mulé maavilhosa, quase pefeita!

E ele continuou.

– Só perde pa Maria, a miódomundo!

Alerta amarelo: boca fechada não entra mosca.

– Só tem que minha mulé aceita todas minha traição!

Alerta vermelho: o peixe morre pela boca.

– Luciana, minha nora, dêderuindade e perdoe mofio! Foi só uma vez!

A festa acabou ali. Todos foram embora e a turma do “deixa disso” salvou Tonho.

Quando ele morreu, foi enterrado só de sunga, como pediu. Teve falapau.

O crime segue sem solução e Maria Piaba ainda vende peixe.

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