O Lasanha tá aberto

Silvia Argenta

Foi Rodriga que falou. “Pode ir que o Lasanha tá aberto”. Não acreditei porque era final de ano e a maioria dos lugares comerciais estavam fechados. Os estabelecimentos com as portas abertas eram de pessoas que evitavam a todo custo ficar com suas famílias nas festas. Imaginei que alguém de apelido Lasanha não era desses. Ela insistiu: “vai lá, menina! Você não vai ter outra oportunidade dessas”.

Oportunidade? Eu só precisava de um mercadinho para comprar um pacote de papel higiênico. Não devia ser tão difícil essa missão numa capital, mas o Google não atualizou as informações e colocou qualquer lugar como “aberto”, mesmo sendo meia-noite num feriado. Como não conhecia direito a cidade, decidi ir a um bar antes para perguntar se alguém sabia os lugares que estavam realmente abertos. Eu não queria caminhar muito porque chovia e, sem guarda-chuva, elaborava estratégias para carregar o pacote sem que o molhasse tanto a ponto de não poder usar. Por causa da noite de verão com cara de outono, vesti uma jaqueta que talvez me ajudasse na empreitada.

Era para ser uma saída rápida, mas conheci Pérola e Victor entre uma cerveja e outra, e eles se prontificaram a me acompanhar assim que souberam que o Lasanha estava aberto. Perguntei várias vezes por que eles iam desistir do bar com bebidas geladas e amendoim com alho para ir comigo a um mercado. Eles mudavam de assunto todas as vezes que questionava. Apesar da meiguice das covinhas nas bochechas dela e da franja enroladinha dele, comecei a desconfiar dos novos amigos.

Mesmo com a disposição deles, demoramos para sair do bar. Tentei levantar da mesa, mas sempre pediam mais uma cerveja e eu recuava. Eles diziam para eu relaxar porque o mercado fechava tarde. Eu tinha de acreditar no que eles falavam, no entanto só pensava que não podia voltar para casa sem o papel higiênico e imaginava o Lasanha fechando a porta para voltar para o aconchego da família dele assim que tivesse chance.

Diante da minha insistência, fechamos a conta no bar e caminhamos por duas quadras completamente vazias, protegendo a cabeça da chuva com a jaqueta, até que avistei um grupo de pessoas dançando no meio da rua. Devia ser umas três da madrugada. Elas rebolavam para a direita e para a esquerda juntinhas, cantando: “o que você perdeu, baby você não viu”. E quando repetiam a primeira frase, desciam rebolando sincronizadas até o chão. “O-que-vo-cê-per-deeeu-eeeu-eeeu-eeeu”.

As casas antigas de fachada original sem manutenção e as que sofreram intervenções para ficarem com paredes lisas sem personalidade alguma, encostadas umas nas outras com todas as suas diferenças, eram o cenário daquela dança. Só se via o alto das casas de dois andares por entre os fios dos postes de luz, que iluminavam as dançarinas com efeitos da água da chuva, sob o comando de Rodriga, a mais alta de todas, que exibia as pernas finas e morenas por conta do short jeans curtinho. De umas quinze casas, apenas uma estava aberta. A porta de correr enrolada para cima deixava escapar para a rua as luzes neon que saíam pela abertura retangular. Suspirei porque percebi que meus amigos só me acompanhariam até ali. Então perguntei onde era o Lasanha e eles me puxaram para dentro.

A primeira coisa que vi foi uma prateleira com alguns pacotes de papel higiênico. Embaixo, produtos de limpeza. Do lado, miojo, barras de chocolate e xampu. Atrás da caixa registradora e da estante, uma pista de dança que, de tão lotada, fez com que um grupo se dispusesse a ficar na chuva, já que era proibido dançar no mercado para não atrapalhar as compras. Victor mandou reparar em como os azulejos estavam dispostos. Se estivessem em losango, era lugar de nordestino. Não soube definir porque dançamos em cima do piso branco todo desemparelhado, cada um apontando para uma direção e alguns nem quadrados eram. Ficamos a maior parte do tempo na pista, principalmente Pérola, que dançava como se não houvesse amanhã, pois conhecia todas as músicas e coreografias de funk, feminejo, MPB ou o que mais o DJ tocasse. Só saíamos para comprar cerveja no cômodo ao lado e logo voltávamos. Às seis, as luzes se acenderam. Era o anúncio de que o Lasanha ia fechar. Abri o freezer, peguei uma longneck e passei no caixa, onde havia um aviso de que o mercado estaria aberto todas as noites no final do ano. A essa altura, as prateleiras já estavam vazias. As dançarinas saíram com várias sacolas de café, queijo e pão. Com a jaqueta ensopada e a estiada no céu, talvez eu encontrasse um outro mercado aberto no caminho de casa.

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