por Américo Paim
Dava plantões há quase um mês no Pronto Atendimento São Marcos, conhecido como “Faixa de Gaza”. A rotina era bem maresia: gripes, dores de barriga, reumatismos, alergias, ressacas. Até cochilava no conforto médico. Até aquela sexta-feira.
Duas da madrugada, eu lia uma edição emprestada do Sabiston e a enfermeira Michele entrou aflita.
– Dr. Armindo, rápido!
– O que é?
– Tiro!
Era um negro forte, corpo tatuado, baixo, usando só uma bermuda amarela de tactel. Sangue no rosto e hematomas nos braços e abdômen. Ele suava e só tinha tênis em um dos pés. Do furo de bala na coxa escorria um filete. Não parecia grave ou haver tanta dor. Um policial de pé junto a ele, entre impaciente e deliciado, falou comigo.
– Sargento Moreira, doutor.
– O que foi?
– Resistiu à prisão.
– Certo. O senhor pode aguardar lá fora.
– Não vou. O meliante é perigoso.
– Então sente-se ali, por favor. Me dê espaço.
– Vai ser o quê?
– Sei o que fazer, não se preocupe. Michele, leva para o raio x.
– É só pra o senhor não perder muito tempo.
– Como assim?
– Isso aí não vale nada. Corta a perna logo.
Saí da sala e o chamei ao corredor enquanto o ferido seguia para o exame.
– Por que isso? Assustou o pobre!
– Oxe, quero ele com medo não.
– Então modere.
– Quero ele é abotoado. Ele pegou foi o boi que inda tá vivo.
– O que ele fez?
– É dessa nova gangue de tráfico.
– Problema sério.
– O senhor tira a bala, ele usa outra em mim.
– Mas meu trabalho é salvar vidas.
– Aí empatou. O meu também. Ó meu bisturi aqui.
Pegou no coldre, sorriu e foi para a máquina de café. Me senti em um filme de faroeste. O paciente voltou. Sem fratura. Extraí a bala e logo teve alta. Na saída, ainda ouvi o sarja:
– Se preocupe não, doutor. Daqui até a delegacia, cavalo fala.
Não entendi na hora. Quando o ambulatório diminuiu o movimento, chamei Michele.
– O que foi aquilo?
– Esse bairro é complicado.
– Explique aí.
– A polícia matou os chefes do tráfico. Aí veio uma raça ruim, povo bruto, viu?
– Gente daqui?
– Sei não. O líder é um tal de Arafato.
– Nome engraçado.
– É apelido. Daí a “Faixa de Gaza”. É o que contam.
Não dei mais importância. Achei que era um caso isolado. Errei. A frequência só aumentou. Aos poucos, porém, me sentia mais esperto. Até aquela terça-feira. Entrei no ambulatório e estava lá na maca um homem corpulento, sarará, de calça jeans e camiseta rasgada em vários lugares. Tinha um corte importante no braço e um olho preto de pancada. Sentia dor. Ao seu lado, uma figura conhecida.
– Sargento, o senhor de novo…
– Aqui, perdendo tempo, doutor.
– E o rapaz do outro dia?
– Bago de Jaca? Soube não? Morreu.
– Deus o tenha.
– Ah, tem não. Ali foi direto pro sete pele.
– Aham… E esse aqui, o que houve?
– Cagado, inda tá vivo.
– Isso estou vendo.
A frase mal terminou. O homem, rápido, sacou o revólver da cintura do sargento e apertou o gatilho várias vezes para a cabeça do policial, que riu alto, tomou a arma e disse, olhando para ele:
– Tá descarregada, desgraça! Acha que sou otário? Tá tudo guardado pra você daqui a pouco.
Eu tremia. A cena foi além de qualquer coisa tolerável. Falei um monte para os dois, acelerei o atendimento e me livrei deles. Aí, parei um pouco. Não estava lidando bem com tudo aquilo, mas o pior veio na sexta-feira seguinte.
Perto de onze horas, me apareceram duas mulheres no consultório, em roupas simples, blusa de alça e saia. Uma, lenço na cabeça, era a acompanhante. A outra, tão machucada como se tivesse sido atropelada várias vezes. Sangue, placas roxas, uma das mãos muito inchada, parecia quebrada. O medo em seus rostos, olhavam todo o tempo para a porta e a janela, abertas por causa de um defeito no ar-condicionado. Dali viam a rua muito perto.
– O que aconteceu?
– Escorreguei na cozinha.
– Minha senhora, que é isso…
– É verdade!
– Precisa denunciar!
– É o quê?
– A polícia pode lhe ajudar.
– Ô, meu Deus…
Desatou a chorar e abraçou a outra, que me perguntou:
– Vai demorar? Acelera, por Jesus, senão ele vem quebrar tudo aqui…
– Ele quem?
– Barba do Cão!
A de lenço me puxou e falou baixo que a machucada era mulher de traficante. Se ele soubesse que ela estava ali, ia ser um inferno. Quase perguntei algo, mas Michele me chamou sobre uma situação no consultório 3 e saí da sala. Ainda no corredor ouvimos vários estampidos em intervalos curtos. Nos jogamos no chão na hora. Confusão geral no PA, correria, gritos e desespero. Demorou um pouco e silenciou. Muito nervoso, fui ver a situação no 3. Quando voltei ao ambulatório, as mulheres já não estavam, mas vi paredes e móveis com buracos de bala e uma delas alojada no livro de frente para a mesa. Aquela seria minha bala.
Paralisei. Ainda pensei ser um alvo fácil se os caras voltassem, mas minhas pernas tremiam e eu respirava mal. Eu era um nada. Estava ali e de repente poderia ser uma recordação, se muito. A cabeça rodava. Me vi descartável, amassado, roto, cuspido, chafurdando em algum rio de esgoto. Tudo por dinheiro, pelos meus planos. Especialização no exterior, viagens de férias, apartamento de frente pro mar, as aulas de piano. Tudo por um clique de gatilho. Assim, sem segunda chance? E Diana, que topou sair comigo, após meses de cerco? E a briga com Sandoval no dia anterior? Ele não merecia o que ouviu. Ia ficar assim, que merda. Eu nem resolvi se queria ter filhos. Pensei em tomar todas com meus amigos, explicar que a coisa toda era muito nada, tava pendurada num palito de fósforo queimado. Senti falta de rumo, um frio na espinha. Fechei a janela no instinto. Onde estaria Michele? Em vez de acalmar as pessoas, eu me via à beira de travar geral. Me deitei na maca, mas pouco adiantou. Voltei à mesa.
E se meu assassino me encontrar na rua? Será que vai voltar? Imaginei a cara dele. Seu apelido me lembrou que queria um pet novo – nunca me recuperei da morte de Zorro. Também me veio a cena de meu pai aconselhando a tocar a farmácia no interior, “coisa segura”. Quis a mão firme do velho de novo. Que falta.
Olhei para o livro baleado. Eu escapei, mas não havia salvação para ele. A bala fincou na imagem de um coração humano. Uma ferida fatal.
