Susy Freitas
Há quanto tempo você é bruxa? Por que se tornou bruxa? Como foi que se fez bruxa e o que aconteceu nessa ocasião? Era assim que a Inquisição nos interrogava. Sem sutileza, o que prova que os algozes eram homens. Não que nunca sejam sutis, nem que não caiba em suas barbas e mãos fortes alguma finesse. É porque eles simplesmente podem. Porque não interessa a um homem saber o que é uma mulher, e sim de que forma o é. Essa é a diferença. Então, não é que você se torna mulher; é que te fazem uma. Mesmo assim, nunca te perguntam: há quanto tempo você é mulher? Por que se tornou mulher? Como foi que se fez mulher e o que aconteceu nessa ocasião?
Pedro segurou o meu pulso. Firme. Pode-se dizer que foi assim que ele me fez mulher. Porque antes disso eu era um bloco sólido de carnes, curvas, longas tranças pendendo da cabeça e um frasquinho de gloss esquecido na bolsa, andando para lá e para cá, da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, a casa dele, que eu cuidava enquanto ele buscava na rua e nas outras as suas prioridades. Dois anos de aliança no dedo, a marca alienígena sob minha pele morena, como se fizesse parte de mim. Mas é claro que é apenas impressão, que você não precisa acreditar nela, é apenas um feitiço que os dias desmancham como eu desfazia as minhas tranças de tempos em tempos, numa busca estúpida por outro rosto em mim.
E quando ele segurou meu pulso, firme, lembre-se, bem firme, isso é importante, do tipo que você se pega perguntando se tal firmeza é a proporção de seu amor se recusando que eu vá embora e largue aquela merda toda de vez, a firmeza que busca, através da força, comprovar seus argumentos ou se é feita de algo primitivo que não comunica, indiferente ao ruído inenarrável entre nossos corações, se novas marcas farão parte de mim agora, e quando ele segurou meu pulso, permita-me retomar esse pensamento, eu percebi ali que eu sou uma mulher. Por quê? Porque minha vida inteira seria definida pelo que ele decidisse fazer a partir dali. Se à dureza daqueles dedos enrodilhando meu braço se seguiria uma porta trancada, um tapa no rosto, a bolsa jogada longe no chão. Se eu ia gostar disso. He hit me and it felt like a kiss, como diz a música. Ou se eu extrapolaria o gostar disso ao ponto de não gostar mais. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim, diz outra.
E talvez gritos, a blusa de alcinha quase caindo do ombro na correria, os perfis das vizinhas da vila traçadas pelo padrão do vidro de suas janelas, apavoradas com os urros e batidas secas contra a minha carne. E dois ou três maridos gordos, de cueca samba canção, quentes ainda de suas camas e roncos, numa corrida lenta de quem realmente não tem muito interesse em dar um fim naquilo ali, até que fosse tarde demais. Seria assim que eles nunca mais não veriam como uma mulher. Por saberem que a essa vez não poderão se seguir outras, que é assim o mundo dos homens. Mas nada acontece. Não. Nunca, acima de tudo, nunca constate um problema. É a única chance de manter o segredo de ser mulher seguro.
Ao invés disso, apenas vi Pedro finalmente como o homem que era: não o meu, com quem dividi o quitinete, de quem recolhi os farelos de pão do sofá, nem de quem cobri as costas noite após noite com um lençol fininho, pra que edredon nesse calor?, ele dizia, enquanto eu me enroscava em meu bunker de cobertas, segura, sim, se-gu-ra, eu podia jurar. Não, aquele era enfim um homem, o homem dentro de todos os homens, minha potencial aniquilação, que pouco tinha a ver com seu corpo compacto, saudável, com seu nariz perfeito ou seus cachinhos negros e gordurosos cobrindo as orelhas quase grandes demais. Até então, ele não tinha a forma dos homens. Agora tem. E eu a minha, de mulher, moldada por seus dedos no meu pulso, alimentando a minha imobilidade.
E quer saber? Eu pude ver que, tal como constatei minha transmutação, ele também se viu naquilo que meus olhos encaravam. As pupilas. Foram elas que o denunciaram. Suas pupilas amplas, num misto de fúria e felicidade, por ver-se homem e assim o ser. Sua força e peso, é disso que ele se viu acoplado a mim pelo braço, uma forma tão pura de vontade que seria fácil esmagar meus miolos contra a parede num único golpe. E por puro capricho, ele virou o rosto, virou para não ver a si mesmo. Largou meu braço, e seu medo de ser homem falou com o meu, de ser mulher, essa foi a nossa última conversa. É dessa substância que te fazem mulher: a certeza de que qualquer um deles pode. O quê? O que couber nos dedos.
