– Então eu passo para te buscar lá pelas nove.
– Combinado, até mais.
Apago o celular nervosa, faz tempo que não sou convidada para jantar e não ando me sentido muito atraente. Vou até o quarto e por mais que me angustie ver o que sobrou nos cabides, começo a remexer o armário. Depois de experimentar todos os vestidos, a calça preta, uma saia e as melhores blusinhas, fico desesperada e chego à conclusão que não tenho roupa para sair. Ao sentar na pilha que se formou em cima da cama pareço uma gata miando atrás de comida. No meio de um desses miados me lembro do macacão de jersey, não sei se sobreviveu. Para minha surpresa, ele está socado no fundo da última gaveta, junto com uns sutiãs antigos. Não consigo entender o critério que usei para escolher o que ia ou não voar pela janela. Quando desdobro o macacão, posso ver mamãe dentro dele com a piteira preta entre os dedos dizendo por que você ainda não comprou algo decente? Vou fazer isso em breve, respondo ressentida. Era sua roupa predileta, usava para ir nas festas. É verde claro e a estampa psicodélica, bem anos setenta. Me visto depressa e ao me ver no espelho entendo o motivo de gostar tanto dele, nem aparece as gordurinhas da minha barriga.
Ninguém vai a um encontro com galochas. Por sorte tenho uma sandália neutra que combina com tudo. De pensar que vou ter que ir para a rua com ela começo a ficar aflita. Os miados continuam. Não devia ter aceitado o convite, só está me trazendo problemas. Ao ver o estado das unhas do meu pé, sofro de novo, as das mãos estão cheia de caminhos de rato por eu ter roído as pelinhas do canto. Ratos, ratazanas, cachorros e seres humanos. Enquanto passo um whatsapp para a manicure, imagino todas as coisas que podem grudar nos meus pés: dos vermes de cocô de cachorro passo para os vírus e bactérias das cuspidas até chegar nas trinta e cinco doenças transmissíveis por ratos, penso em desistir.
Coloco meu chinelo e saio decidida repetindo para mim mesma – hoje você vai superar seu pânico. No elevador o capacho pardo com cerdas de espinho já me prepara para o que vem pela frente, levanto os pés de forma alternada como se estivesse me aquecendo para correr (como se alguém corresse de havaianas) ao mesmo tempo que sorrio para a câmera do circuito central. Assim que o portão do prédio fecha nas minhas costas, meu corpo trava e não consigo descer o degrau que leva à calçada. Ouço uns vizinhos vindo na minha direção, as crianças gritam que querem ir de carro. Eu também, penso, se tivesse um. Sem escapatória, encolho meus pés e vou como uma velha de cem anos, nuns passinhos minúsculos e com os ombros balançando de um lado para o outro. Logo uma cãibra na curva do pé me faz parar, dói muito e também dói olhar para imundice ao meu redor. Resolvo mudar de método. Examino o trecho que tenho que percorrer e depois sigo de olho fechado até ser obrigada a abrir de novo, é só não cair.
Você andou sumida, que bom que apareceu, Nina. Aconteceu alguma coisa? Que cara é essa, viu algum bofe pelado aí fora? Fátima ri e diz que já volta. Ela é uma baixinha rechonchuda, com os braços de pão de leite e as pontas do cabelo tingidas de loiro. Só consigo relaxar quando ela traz a bacia de água morna e meus pés vão lá para dentro. Logo pega a lixa e coloca um dos meus calcanhares no seu joelho.
Uma mulher sai do lavatório e vem para uma cadeira perto de onde estou. A toalha branca na cabeça realça o rosto moreno e os olhos negros puxados. Magra, calça justa, flutua no salto (e eu mal consigo andar). Se Sparapanni a visse, ia ficar doidinho. Quando a cabeleireira tira a toalha e o cabelo molhado desce abraçando seus ombros, ela passa a unha comprida cor de cereja na testa para tirar uma mecha que caiu no nariz, afundo na cadeira querendo sumir. Pessoas muito bonitas deveriam distribuir antidepressivos para quem estiver ao seu lado. Finjo que coloco um antolho e me volto para a lixa e para as farelos de pele que chovem do meu pé.
A massagem com o creme me reconforta. Enquanto as mãos da Fátima escorregam pela sola agora macia, fico pensando em beber algum drinque no jantar, um só, para não dar uma chata. Um Negroni. Só de me imaginar dando um gole, minha boca enche de saliva. Nesse exato momento, olho para o polegar da Fátima, está entre o meu dedão e o próximo dedo, e percebo que ele também tem um monte de saliva, mas não é bem um polegar, é outra coisa qualquer. Subo o tronco como se levasse um choque e na verdade levo porque em seguida meus músculos tremem. Não vejo mais sua falange e sim uma língua larga me lambendo. Tomei meus remédios hoje? Com os olhos arregalados, fico observando ela ir de dedo em dedo fazendo todos os tipos de movimento. Não tenho como não achar gostoso, mas assustada, enrijeço meu corpo. Uma mancha pálida começa a se formar no meio do metacarpo da mão da Fátima. Aos poucos vai ganhando uns recortes quadrados e percebo que são dentes. Pisco algumas vezes e como a imagem não se desfaz, fico preocupada. Não era hora disso acontecer e não tenho coragem de pedir para Fátima parar, ela já pode ter parado e não quero dar uma de louca. Depois de sentir a língua no meu dedinho, é a vez das mordidinhas, leves, percebo então os lábios tocando nele. Mas não consigo ver direito. Espero quase sem respirar que eles se tornem nítidos e o resto do rosto também. Quando os beijos começam, não aguento de cócegas e ao rir, um flash baixa no meu cérebro. Estou com a perna esticada com o Sparapanni na minha frente de joelhos numa sala, deve ser do apartamento dele, em cima de uma mesa mais para trás tem um Topo Gigio. Ele chupa os dedos do meu pé em êxtase. É tão real, se eu estava na dúvida se tivemos algo, agora não duvido mais. Ao piscar o olho novamente, meu pé já está dentro da bacia e a Fátima está abaixada pegando o alicate na gaveta.
– Você estava longe, mexer nos pés dá nisso, acho que você dormiu, deu até uma risada.
Meio com vergonha, limpo a baba do canto da boca.
– Me dá o outro pé.
Quando ela diz isso fico gelada, será que vai começar tudo de novo? Enquanto a Fátima tira a minha cutícula pego meu celular e mando uma mensagem para o Sparapanni perguntando se por acaso ele tem algum boneco em casa. Talvez agora eu consiga desistir das galochas e só ande descalça. Tenho sim, um Topo Gigio, ele responde, por quê?
