por Américo Paim
Acordei às sete com o despertador. Não havia dormido mal. Dizem que quando envelhecemos, certas coisas acontecem. Eu só tinha quarenta. O fato é que ao abrir os olhos, veio uma estranheza. Eu não lembrava de algo que, pelo jeito que me incomodou, eu deveria. Não foi sonho, então fiz uns testes. O que comi nos três dias anteriores, com quem falei, onde estive, o que vi na Internet. As respostas não me ajudaram. Por alguma razão, aquilo não me deixava. Deveria ser importante e se perdeu. Atribuí tudo ao estresse, companheiro fiel nos últimos meses, porém, não desisti tão fácil.
Chequei minhas tabelas de datas de pagamentos e aniversários, circulei por todos os espaços. O botijão de gás estava cheio, não havia lâmpadas queimadas. Papel higiênico, creme dental, tudo parecia sob controle. As chaves do apê e do carro no lugar. Carteira e documentos em ordem. A caixinha plástica vazia dizia que tomei o remédio da tireoide assim que acordei. Umas coisas são de tal forma automáticas que até esquecemos se fizemos. Encerrei a busca. Minha obsessão por resolver as coisas todas na hora teve que aceitar que eu estava superestimando algo e fui trabalhar.
Quase seis meses e não me acostumava ao home office. Tive covid duas vezes e a empresa me colocou em casa. Compreensível, só que sinto falta do presencial. Até precisei aumentar a memória do meu computador. Se ele não dá conta, imagine eu. Já de frente para o PC, o Costa ligou de vídeo. Encarei sua camisa branca por alguns segundos. Foi esquisito, pois me conectou ao esquecimento matinal. Afinal era o quê, velho? “Gonçalo, cê tá bem? me gritou”. Voltei. Vi sua barba precisando de trato e a cara de quem vai dormir e não de quem acordou. Na mesa ao fundo, restos de comida. Falava rápido, gesticulava, preocupado com a reunião das onze horas com o cliente. Corrigi: onze e meia. Ele estava nervoso com os prazos acabando e as pendências não resolvidas com alguns fornecedores. Aquela era a nossa maior venda desde o início da pandemia. Tentei acalmar as coisas e revisamos a estratégia ponto a ponto. Ao me falar que achou a parte do marketing muito fria, a palavra como que me cutucou com a questão da memória. Como eu não conseguia saber o que era? Só fiquei mais intrigado. Alertei que resolvesse seu visual, ficasse em local com boa conexão e encerramos, otimistas.
Aproveitei para comer algo. Água de coco em jejum – tinha visto em algum lugar que “isso é saúde” – um caju, duas torradas com requeijão cremoso, um ovo cozido – prefiro mexido, mas a preguiça bateu – e café, claro, na caneca amarela enorme com a logo dos Beatles. Sempre adorei o cheiro do café nas narinas e seu calor nos dedos. É relaxante. Ri com a adaptação da piada: “gosta de mulher? sim; e café? vixe…”. Na varanda, invejei aquele povo todo lá embaixo na praia em plena terça-feira. O branco das ondas explodindo na areia parecia me dizer algo e eu seguia surdo, com o tal lapso. Um último gole e fui para o trampo.
Nada demais nos e-mails. Sites de compras, solicitações para aderir a crowdfundings, convites para seminários e anúncios de pacotes de viagens (como assim?): Aruba, Paris, Johanesburgo e São Paulo, que me trouxe de volta a agonia matutina. Coisa de doido aquilo. Só pensei na saudade dos amigos paulistas. Que merda essa pandemia. Nada dos fornecedores, nem no spam. Em outros tempos, iria bater na sede da empresa, mas era na Espanha. Liguei para o principal deles. Falei bem mais duro que da última vez, mesmo sabendo que pouco adiantaria. Por causa do momento covid, tudo estava mais caro, lento e incerto. Revisei o material da reunião pela milésima vez. Não queria esquecer nada importante na hora das decisões.
Às onze e quinze, um estalo: e o almoço? O que comer após a reunião? Fui ao freezer e retirei bife, feijão e arroz. O que seria de mim sem as mãos santas de Dona Lili? No contato com as superfícies congeladas veio de novo a sensação estranha da hora que acordei. Não foi o desconforto do frio, que gruda na pele e queima. Também não associei nada especial. Corri para a reunião. Entraram no Zoom o HL, a NG e os novatos CC e EM. O AC, ou melhor Alísio, o Costa, também já estava. Desconfiei ao alegarem problemas com o sinal para que a conversa fosse só no áudio. Perderíamos a linguagem visual, sempre importante. NG, a líder equilibrada, foi a nossa salvação porque o agressivo HL, suportado por planilhas e algoritmos do provável nerd CC, bateu sem dó nem piedade nos nossos preços e prazos. Na prática ameaçou romper o contrato. Uma hora cheguei a deixar no mudo e xinguei tão alto que achei que até o vendedor de picolé lá embaixo ouviu. O sorvete me fez voltar à história da reminiscência ao acordar. Que negócio danado. Enfim, após uma hora e meia de debate, chegamos a bom termo.
Eu e Costa acionamos a diretoria. O papo foi bom até que Doutor Miranda afirmou que tudo estava coberto e voltou a gastura com o tal momento matinal. Não dei atenção. O resto da tarde foi em reuniões, ligações e e-mails. Só parei por volta das seis porque a barriga roncou. Àquela altura, já merecia tomar uma junto, mas comecei com água mesmo. Enchendo o copo, senti o frio do líquido na mão, pela superfície de vidro e pipocou no juízo, de novo: o que eu esqueci, por favor? Ficou claro que tinha relação com frio e recordei a hora que mexi no freezer.
Voltei à varanda. Curtia o vento no rosto e entrou um aroma familiar. No prédio da frente, na certa naquele apartamento com cortinas muito brancas sacudindo junto a uma porta de correr, alguém fazia carne de ensopado. Lembrei de meu avô, grande cozinheiro, preparando isso na sua casa no inverno paulistano, sempre que íamos visitar. Ainda sorria com a recordação e bingo, acabou o mistério. Veio tudo. Era minha avó e sua casa. Os lençóis limpos e bem brancos que ela colocava para mim no quarto do meio. Sempre gelados pelo vento a entrar sorrateiro por algum vacilo de janela aberta ou vedação desgastada. Depois do choque inicial era gostoso se enrolar todo. Ficava ali à espera do filete de luz que vazava da porta quando ela vinha silenciosa e espiava por uma fresta se eu já dormia.
Aquela era a data de seu aniversário, que eu havia tirado do meu arquivo há uns três anos, quinze depois de sua morte. Confiei na memória e fui traído. Sequela da covid, com certeza. O médico já tinha me alertado. Quase perdi a data e o ritual que combinamos quando ela se despediu sem volta. Corri à geladeira e achei lá no fundão, atrás da floresta de tupperwares, uma garrafa de seu rosé português preferido. Não lembrava como foi parar ali, mas isso é outra história. Abri sem demora, servi a taça, ergui o brinde e beijei a palma estendida da minha mão, ali onde estaria a dela. Tem coisas que não dá para esquecer.
