Um jardim de homens e mulheres de concreto

Leandro Reis

Na Praça da Catedral, no ponto mais alto da cidade, Martim estreitava os olhos na direção da Seção 7. A visão dos marinheiros no binóculo do Pai tinha se tornado uma baía de concreto e entulho, um fosso salpicado de fogueiras e farrapos venerando os muros como um altar. Delineada a questão do idioma, talvez Martim se dedicasse a perder também a visão, não o sentido propriamente, apenas cegar a memória, perder as imagens da infância por superexposição ao aproximar-se delas como um kamikaze. Talvez fosse isso o que ele foi fazer ali, de todos os lugares: para implodir-se era necessário fazer por dentro. Esta era a história que tinha assumido desde que o Pai e a Mulher morreram, e agora ele sentia necessidade de formular, ainda que tivesse jurado na padaria se livrar do idioma. Talvez ele pudesse fazer isso depois, quando não houvesse mais nada para justificar.

Fumava, encostado no carro, e só se virou para a Catedral ao ouvir um sussurro de longe, abafado. Martim pressentiu a saída em fila das mulheres de véus pretos pela porta da Catedral, a última missa da manhã, conforme maldizia a Mulher para forçá-lo a acordar cedo, arrastando-o pela Cidade Alta para a primeira missa e a única realmente sagrada. Elas cruzavam o banco da praça e desciam depressa pela ladeira, fugindo do sol que ameaçava surgir por cima das árvores. Atrás das mulheres vinha o padre, caminhando devagar até a porta, as mãos cruzadas no peito, como se as escoltasse. Martim esperou que o padre entrasse e fechasse a porta da Catedral, deu a volta no carro e se sentou no banco da praça, sozinho.

Nos arredores da Catedral, algumas repartições resistiam, enfurnadas nos prédios de pastilhas bicolores replicados pelos quarteirões, não tinham sido mandadas para outros bairros por esquecimento ou inutilidade. Conviviam com lojas antigas, a maioria de propriedade de famílias endividadas com intermediários da Seção 7, que ao mesmo tempo aliciavam seus clientes para outros pontos da cidade e emprestavam dinheiro para sobreviverem, o suficiente para os juros do empréstimo. Então os supostos donos continuavam a chegar no mesmo horário para abrir o comércio, talvez desde antes do porto ser desativado, muito antes dos muros se erguerem, continuavam a estacionar os carros na Praça da Catedral, dividindo o espaço com os burocratas após o fim das missas matutinas, bombeando sangue para a Seção 7.

Duas ruas abaixo de Martim, as casas improvisadas com lonas e entulhos diversos deviam se embaralhar quando a corrente de ar que varria o cais passava pelo fosso, apagando as fogueiras e levando pertences, só os muros da Seção 7 continuavam imóveis, se bem que não parecia ventar no fosso, Martim pensava, talvez o vento tivesse secado junto com o mar. A divisão entre os prédios funcionais e o fosso era tão pequena, inexistente até, que de repente Martim se dava conta da estranheza da paisagem, do assombro em constatar que o lado da Seção 7 ainda não tinha sugado o lado da Catedral. E que devia estar por acontecer, ou nunca parado de acontecer, os eventos de sua própria vida que imprimiam velocidade a todo o resto.

Libertando-se dos cobertores, dos nacos de telha e papelão por cima das carcaças, os farrapos começaram a se levantar do fosso, banhados pela massa branca de nuvens refletida nos muros da Seção 7, reanimando seus movimentos, ainda que eles ficassem ali parados um tempo, expostos de olhos fechados na luz branca, alguns completamente pelados num banho literal, um jardim de homens e mulheres de concreto. Depois de se espreguiçar, um casal de farrapos despejou um tanto de água entre tijolos, produzindo uma fumaça preta que subia como um sinal, depois arrastou uma lona por cima dos cômodos de sua casa. Assim o fizeram outros farrapos que se levantaram no alarme do sol, e que agora, terminados os procedimentos da primeira manhã, caminhavam para fora do fosso atrás daquele primeiro casal que apagava os rastros do café da manhã – um grupo de dez ou um pouco mais, Martim podia ver agora que paravam para atravessar a avenida.

Há qualquer momento um dos homens que chegava no estacionamento, que saía do carro e ligava o alarme, seria o contato de Martim, e ele se levantaria, entraria no carro, colocaria e tiraria as mãos dos bolsos, despedindo-se do homem com o mesmo silêncio de quando o havia encontrado, e num instante estaria na recepção do Hotel Imperial pedindo um quarto, onde ele nunca mais tinha voltado, mas que agora – ele se assustava com a convicção – agora era o único lugar possível para terminar o último dia de luto. Ele tentava rir com o cigarro na boca.

Na avenida, o grupo passava entre os carros e chegava ao outro lado. Os dez ou mais que eram à distância se tornaram pelo menos vinte ao atravessarem, Martim não precisava mais estreitar os olhos para vê-los se dividindo entre as ladeiras e as escadarias que circundavam a Catedral. Atrás do primeiro grupo vinham ainda retardatários, parecia óbvio que morreriam atropelados com o sinal aberto para os carros, mas desviavam sem tanto esforço, era uma formalidade superar o fosso para subir a Cidade Alta. E por estarem atrasados, uma vez que o primeiro grupo, liderado pelo casal, já despontava nas esquinas da Catedral em direção à praça, treparam nas rampas íngremes de brita e terra paralelas às ladeiras, um atalho pouco indicado para um farrapo, pensou Martim, parecia se esquecer de que desviavam dos carros, apegado à palavra que os designava, já nos primeiros gestos dos braços escamosos, das mãos plugadas na terra como ventosas, era natural supor que não demorariam a escalar as rampas até encontrarem o primeiro grupo.

Àquela distância, as feições dos farrapos começavam a se diferenciar. A cara do homem tinha a consistência rugosa de carne velha, há muito cozida, enquanto a pele do corpo era ressecada como se existisse para proteger uma pele abaixo dela, mais fina, a pele real. Era mais baixo que a mulher e andava sempre atrás dela, embora desse as cartas, distribuindo gestos entre o grupo ao se aproximarem do estacionamento da praça, parecia particularmente irritado com dois homens que atrasavam a marcha geral, carregavam grandes sacolas brancas com dificuldade, deixando-as arrastarem no chão e derrubando alguns itens que Martim não conseguiu identificar. A mulher se movia a passos longos dentro de um pedaço de cobertor marrom com abertura para o pescoço, mas os braços ficavam escondidos até a cintura, as mãos pendendo como trombas. Ela passou encurvada ao largo do banco onde Martim se sentava, sem tempo para notá-lo, já tinha avistado um carro estacionando e precisava se adiantar, bater com os nós dos dedos na janela que permaneceria fechada por vários segundos após o carro ser desligado, a esperança do motorista rivalizava com a persistência e com o hábito da farrapa, ao contrário do motorista no entanto a farrapa estava muito perto de casa e não tinha outro compromisso, seu movimento era pendular e sempre relativo ao fosso. Então ela esperou o motorista descer do carro com as mãos nos bolsos, procurando as moedas que o libertariam do cerco que os farrapos, todos já reunidos no estacionamento, executavam nos outros carros que chegavam na praça.

Um desses carros, porém, mesmo depois de parado e com a porta aberta, permaneceu intocado, embora não tenham deixado de perceber o homem que saía dele e se esgueirava entre as filas de carros carregando uma bolsa de viagem pela alça. O farrapo que liderava o grupo deu uma boa olhada no homem, parecia tê-lo reconhecido ao mesmo tempo que Martim, mas só Martim receberia o olhar de volta.

O contato se sentou no banco da praça e pôs a bolsa entre ele e Martim. Acima deles, o sol finalmente vazava pelos galhos das árvores, dividindo a sombra em frestas. Martim percebeu isso olhando para o braço gradeado pela sombra, e pensou como se estivesse dentro do esgoto, os galhos sendo o bueiro do sol. O contato suspirou e olhou em volta, depois olhou de esguelha para Martim, cuja atenção tinha retornado à ação dos farrapos no estacionamento. Procurava agora um tipo de sinal que ele havia falhado em identificar quando o grupo chegava perto da praça: ele movia os olhos de um farrapo para outro tentando encontrar num tórax escamoso o binóculo do Pai, cujo guardião se movia elipticamente pelo centro da cidade com uma farda rasgada. O contato não se incomodava com a espera, sabia que se tratava de um cliente incomum, que inclusive há muito tempo não o acionava, mas precisava talvez da confirmação de que o negócio aconteceria, de que o homem ali sentado estava disposto a alguma coisa; de que estava acordado.

Eles não arrombam, precisam deles todo dia.

Martim não respondeu – olhou para o homem como se não tivesse ouvido.

Não vão roubar seu carro. Eles não roubam, não mexem com ninguém. Bom pra eles é isso aí – e apontava com o queixo para um motorista que descia tilintando as moedas nos dedos.

Martim tinha voltado a olhar os farrapos. Alguns deles se afastavam do grupo até as bordas do estacionamento, de onde podiam ver os muros da Seção 7. Estou procurando um binóculo, disse, sem se voltar para o homem. Está com eles, um binóculo antigo.

Eles não arrombam, não deve estar com eles. Não cospem no prato…

O farrapo à frente do grupo gesticulava para a farrapa. Ela então saiu de um dos flancos do estacionamento e o encontrou bem no centro, inclinando-se até a cabeça do companheiro, de modo a ouvir suas instruções. As mãos acenando negativamente sinalizavam que não havia mais vagas.

Agora eles descem pra Cidade Baixa, traduzia o contato para Martim enquanto viam o grupo descer pela ladeira atrás da Catedral, Agora vão pra outro lugar, onde chega ou sai gente.

Martim já tinha ouvido algo assim, da boca do Chileno ou de algum outro bêbado do Diário, as histórias sobre a Seção 7 brotavam como disparadas de uma base comum. Sempre começavam com a mesmo gatilho: Dizem que. E era um tanto parecido o que dizia o contato: Os farrapos do fosso ainda conservam os hábitos da vida passada, quando não existia Seção 7, quando o porto ainda era uma artéria da cidade. Tinham chegado para as obras do aterro, trazidos de prisões e manicômios de outros estados, com a promessa não só de liberdade após a construção, mas de trabalho contínuo na Seção 7. Anos depois, no entanto, após os muros se erguerem, foram largados do lado de fora, no fosso, orbitando numa promessa dissolvida. Mas continuavam funcionando por turnos.

Hábito é difícil de largar, disse. Tem gente que diz que eles são marinheiros, por isso até hoje se escondem dentro de pedaço de barco. Tem saudade do mar.

Martim apertava a vista até os que ficavam para trás, temendo não ter conseguido examinar cada farrapo do comboio.

O que está com o binóculo usa farda de policial, disse.

O contato deu uma risada baixa e um tanto prolongada. Perguntou onde fariam o negócio e se levantou com a bolsa, Martim o seguiu até o carro ainda olhando para a ladeira por onde descia o último farrapo.  

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