Miragens

Leandro Reis

Às vezes as miragens nos atingem e é preciso segui-las, dissipá-las, provar a elas que não existem; e às vezes é preciso acreditar nelas, porque são o que se consegue enxergar.

Acordei, ao que parece, já no meio de uma caminhada circular pela casa, os passos vagos tentando refazer a realidade. Andava pelos dois cômodos e reconhecia as caixas ainda fechadas, há quanto tempo fechadas eu não sabia, era como acordar no meio de um grito sem entender quando se começou a gritar.

De algum lado, um ruído parecia se distinguir do som abafado da rua, cheguei a pensar num resquício do uísque, mas não podia ser. Vinha como um zumbido, meio longínquo e não muito alto, agudo o suficiente para saber que estava fora da cabeça.

Fui até a cozinha, passei pela sala mais uma vez, botei a orelha na porta para ouvir o som do corredor do prédio, sem identificar a origem. Andava em direção ao quarto quando percebi a porta do banheiro fechada. E ali ouvi de novo o zumbido, persistente, como um apito fraco. Era o chuveiro, que fazia aquele barulho quando ligado no máximo. E, naturalmente, estando no corredor, não era eu quem tomava banho.

Continuei parado atrás da porta, por uns dois minutos, até o chuveiro desligar. Fiquei esperando a toalha descer a porta do box num puxão, derrubando a minha no tapete ou em cima da privada, como ela sempre fazia. Minha consciência parecia então se restabelecer, porque foi exatamente o que aconteceu.

Ela saiu enxugando os cabelos com a toalha da pia, o corpo avermelhado pelo vapor do banho. Passou respingando no corredor sem me ver. Anna M., eu disse, ou só pensei, e ela continuou andando até o quarto. Eu a segui como um sonâmbulo. No quarto encontrei o colchão, as caixas da mudança, os móveis no canto da parede, a roupa usada em cima dos sapatos, o nada absoluto. Nenhum sinal de Anna M.

Senti alívio.

Vesti as calças e comecei a esvaziar os bolsos – os cigarros, as chaves, a carteira, o crachá do Diário. Caído dentro do sapato, ou depositado ali por algum motivo na noite passada, um cartão de papel: O filme da sua vida vivido e criado por você. O filme da sua vida em que você é finalmente protagonista, criador, roteirista e diretor. E um número de telefone de alguém identificado apenas como Fausto.

***

Tinha me mudado recentemente do estúdio de Anna M. para uma quitinete no centro da cidade e fazia de tudo para ficar fora dela. Depois do turno no Diário, guardava a câmera no porta-malas e subia a Cidade Alta na direção do barulho dos bares, onde o Chileno me esperava, todas as noites, por trás da muralha de garrafas de cerveja, os óculos inclinados na cara porque a linha das suas orelhas era muito acima dos olhos. Que desastre, ele dizia ao me ver chegando à mesa, sempre dizia a mesma coisa muito sério, depois me cumprimentava, continuava a exposição do assunto que tinha começado pelo celular ou no estacionamento do jornal, fumando no intervalo das pautas. Ou começava outro assunto, esquecendo de continuar aquele.

Descíamos a Cidade Alta às vezes com o céu já amanhecido, o Chileno parando nos precipícios entre as casas, dramaticamente, acendendo um cigarro diante da vista da cidade ainda apagada, fazendo troça consigo mesmo:

Que desastre, a gente morto aqui em cima e a cidade fervendo lá embaixo.

Não importava se a cidade fervia ou não, tentávamos estender a noite, talvez tivéssemos medo de que algo nos atingisse caso a aventura acabasse. Eu sentia meu corpo atuando num filme interno a que só nós assistíamos, um filme incompreensível aos outros. Sentávamos nos bares do cais, os cargueiros atracados no porto e as luzes do pátio de cargas iluminando aquele pedaço da baía, o cheiro do esgoto misturado à maresia.

Uma tragédia, eu respondia, tardiamente.

Tragédia?

Eu e você, somos uma tragédia.

Um desastre. A cidade toda é um desastre, e você é uma tragédia anunciada.

Quando os bares do cais fechavam, comprávamos o que fosse possível para beber sentados na mureta, olhando a água preta lá embaixo. A essa altura já não se sente o odor do esgoto, se bem que talvez o Chileno o sentisse, pois nunca parecia bêbado a ponto de ter os sentidos afetados. Podia andar na mureta se quisesse, como um policial um dia obrigou um amigo dele a fazer, numa noite bêbada e de discussões e mal-entendidos, como gostam os policiais. Neste caso, os dois policiais e as putas que estavam com eles riam, fingindo que iam empurrar o amigo do Chileno no mar, este aterrorizado, a cara franzida prestes a chorar. O Chileno tentando se convencer a não quebrar a garrafa na cabeça de um dos policiais, que enlaçava a puta com um braço e fumava um charuto com outro (portanto “desarmado”), e com os cacos da garrafa quebrada cortar a garganta do colega dele, embora a arma estivesse no coldre ao alcance da mão. Mas apesar de leal o Chileno também era um homem sóbrio, e no fim a sobriedade sempre se paga, porque o amigo conseguiu andar até um pouco além deles pela mureta e aproveitou para descer correndo, e correr ainda mais pela beira-mar até desaparecer e deixar os policiais gargalhando e o Chileno ainda nervoso, tendo que voltar ao bar que estavam para tomar a última, “para ficar sóbrio”.

Eram porcos, dizia o Chileno, porcos não só de alma mas fisicamente. O policial mais distante da mureta era mais alto e magro, quase irrelevante na verdade, ficava rindo, só respondia ao que o porco perguntava, parecia querer ir a algum lugar, ou talvez estivesse apertado. O porco tinha os ombros muito largos e os braços gordos e a barriga inchada dentro da camisa de botão. A cara toda suada e lisa, parecia que tinha feito a barba há no máximo trinta minutos. As narinas grandes e o formato redondo do nariz lhe davam o óbvio aspecto de porco, e ele certamente não o recusava. Não era a primeira vez que o Chileno contava aquela história, nem a segunda. Os detalhes variavam mas nunca se contradiziam. Eu podia ver os porcos ali, escorados na mureta, brandindo as pistolas. Podia ver a cara do Chileno perdendo o ar imutável de resignação e adquirindo como um repuxo no rosto, uma careta de terror ao contemplar o amigo caminhando na mureta. Parecia um porco ou tinha apenas uma risada como a de um porco, ele não se lembrava exatamente.

Mas que era um suíno eu tenho certeza, disse.

Nas noites comuns, como ontem, não havia policiais, pelo menos não como aqueles, e ficamos sentados bebendo à luz do porto. E à medida que o tempo avançava, no galope do álcool, Anna M. vinha se sentar na mureta do meu lado, e quanto mais eu estivesse bêbado, mais ela se aproximava. Depois que me mudei do estúdio dela para a quitinete, eu resistia, não queria tocar no assunto, não queria lembrar. Estou aqui com você para não lembrar, eu dizia ao Chileno, e logo depois começava a falar de Anna M. como se ele não tivesse me deixado alternativa. Eu sentia falta dos gatos me recebendo na porta, saindo das frestas entre os quadros recostados nas paredes do estúdio, sentia falta de ver Anna M. molhando o piso ao sair do banho enxugando os cabelos com a toalha da pia, na época eu odiava isso com toda a força que pudesse reunir, eu dizia ao Chileno, depois do fim tudo é um grande arrependimento. Quando a conheci não desperdiçava tanto nascer do sol, teria voltado e pegado a câmera no carro, eu disse, agora nem lembro que tenho uma, é pior que usar um crachá.

Falei sem pausa, a cabeça baixa, e quando a ergui rapidamente para olhar na direção do Chileno, senti tontura e um enjoo forte. O semblante do Chileno agora não estava sério mas grave, como se uma sombra tivesse se projetado sobre a sua cabeça. Eu olhava para o seu rosto chupado e não ouvia o que saía da sua boca, pensava nos meus gatos andando sobre a mureta, caindo um a um naquele mar resinoso. O Chileno mexia os lábios e punha as mãos nos bolsos da jaqueta, nos bolsos da frente da calça, na mureta para se segurar e puxar, finalmente, do bolso de trás dos jeans, um pedaço de papel amassado. Olhou para os lados com cuidado, muito devagar, e cheguei a pensar que estávamos de volta à história dos policiais. Mas não havia ninguém perto de nós. O céu alaranjado era o dia enfim terminado de nascer. Minhas mãos estavam segurando na mureta desde que senti meu corpo bambear, então o Chileno precisou empurrar o cartão contra a minha perna para que eu percebesse sua intenção.

Não seja um bêbado, disse e enfiou o cartão na minha mão. Aproximei os olhos e dei uma gargalhada, que interrompi com medo de me desequilibrar. O filme da sua vida vivido e criado por você. O filme da sua vida em que você é finalmente protagonista, criador, roteirista e diretor. Balbuciei alguma coisa do que li e continuei a rir com a mão firme na mureta, e só parei sob as ordens do Chileno, que dizia muito sério para eu guardar aquilo no bolso.

As imagens do caminho para casa já são um pouco menos nítidas. Tenho a impressão de que ficamos em silêncio, talvez eu estivesse empregando toda a minha atenção em ficar acordado enquanto dirigia, primeiro para o lado norte da cidade, onde o Chileno morava num prédio de três andares, talvez o último prédio baixo da região, e depois para o Centro, sentindo os olhos embriagados se encherem de água. Não seja um bêbado, ele bem podia ter dito antes de bater a porta do carro, mas apenas acenou, sem se virar. Depois guardou as duas mãos nos bolsos da jaqueta e entrou.

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