No modo galinha

por Américo Paim

Faltava uma hora para a bola rolar. A cerveja já estava bem gelada e comecei os trabalhos. A primeira longneck desceu feito água. Fui buscar as batatinhas compradas uma semana antes. Só achei caldo de galinha! Armários vazios! Pensei rápido na explicação. Só poderia ter sido uma coisa.

– Catroca, desgraça, cadê minha batatinha?

– Peraê, boa noite…

– Véi, cê comeu a porra toda?

– Rapaz, na moral, tava com preguiça de sair.

– Empresto o apê e tu me faz uma dessa?

– Foi mal aí…

– Peça de novo pa vê só…

Desliguei retado. Viajei, o cara usou meu apartamento, comeu tudo que achou e não repôs nada! Em dois dias! Amigo filho da puta! Sem opção, saí a pé para comprar. Só três quadras, pertinho. A conveniência cheia no sábado à noite de esquente antes das baladas. Não tinha a porra da batata. Pensei em voltar, pegar o carro e tal, mas a hora corria. Xinguei Catroca de todo jeito, peguei uns salgadinhos e fui para a fila que tinha três pessoas. Do nada, rolou uma gritaria e dois caras logo atrás de mim se atracaram pelo chão, derrubando prateleiras e estantes. Alguém gritou “tá armado”. Na correria, levei um tranco forte e caí perto do balcão. Vi um cara com um revólver na direção da moça do caixa e outro que olhava fixo para mim. Eram os dois da briga. A loja já estava vazia. Eles falavam alto, ameaçadores. A mulher gritou. Ouvi um disparo e uma frase:

– Vamo levá o baixinho.

Era eu. Falei que não tinha nada, nem celular e tomei logo uns cachações. Pegaram minha carteira, me jogaram no banco de trás do Gol cinza escuro e saímos dali cantando pneu. Eles riam e gritavam, nem aí para o que eu falava. Pisaram fundo. Um carro da polícia entrou em perseguição ao nosso. O vidro traseiro quebrou com um tiro. Me abaixei, apavorado. Os caras pareciam loucos e achei que ia morrer ali mesmo, sem nem saber quanto foi o jogo. Juro que pensei nisso. Precisava fazer algo e vi que as portas estavam destravadas. Na primeira redução de velocidade, em uma rua bem deserta, abri a maçaneta e me joguei. Rolei alguns metros pela calçada, bati em várias cestas grandes de lixo, que caíram sobre mim. O carro da polícia passou voando por onde eu estava. Ninguém me viu soterrado na lixarada. Foi tudo muito rápido. Meu braço esquerdo doía muito. Precisava de ajuda. Em toda a rua só vi uma casa com luz acesa e fui até lá. A campainha era no portão e havia uma luminária barata, de luz forte, bem em cima de mim. Uma mulher me falou da porta entreaberta.

– É o quê?

– Minha senhora, por favor, fui assaltado. Posso usar o telefone?

– Tem não.

– Me ajude, acho que quebrei o braço.

– Posso não, moço.

– É pá buf. Eu ligo e saio daí na hora.

– Esse golpe é velho.

– Sou ladrão não. Olhe, eu dou um número, a senhora liga e vai ver.

Passei o único que lembrei: o sacana do Catroca. Nunca mais soube número de cabeça. Esperei e ela voltou. Ficou na mesma posição.

– Deu caixa.

– Então me deixe pedir um táxi.

Bateu a porta. Xinguei Catroca de novo, dessa vez alto. Achei que tinha perdido a partida, mas ela voltou. Tinha um facão à vista.

– Cê entra e fica aqui na porta. Meu marido já vai chegar.

Fui até a modesta varanda e me sentei no chão. Eu fedia. O chorume se espalhou em mim feito gás, ocupando tudo. Vomitei ali mesmo e me melei ainda mais. Limpei o que pude com umas folhas secas. Minha camisa oficial novinha e a bermuda jeans em petição de miséria. Ouvi o trinco mexendo e me levantei para agradecer à senhora, mas não era ela.

– Venha, rápido.

A moça me puxou com a mão macia. Era bonita, jovem. Tava cheirosa como quem se deitou pra dormir. Uma gostosona. Usava uma camisola meio transparente. Esqueci dor, jogo, tudo. Sem muito papo, me levou para um canto escuro no quintal, junto ao galinheiro, bem debaixo de um pé de goiaba. Estava nervosa, ficava me pegando.

– Sou escrava!

– Peraí, moça, não sou chegado a essas taras, não.

– Me leve daqui!

– Oxe, tô querendo sair e nem consigo.

– Ele tá no futebol, é minha chance!

– Que inveja.

– Oi?

– O jogo. Aliás, você sabe quanto tá?

– Que cheiro é esse?

– Acho que sou eu. Peço desculpas. É que…

– Tenho um tesão da porra com essa nojentice.

Já meteu a língua na minha boca e a mão nas partes, por assim dizer. Eu não vou mentir. Tava todo depenado, com dor, imundo, mas aquela chance eu não ia dispensar. Depois de tanta merda, uma trepada meio sujinha ia fazer mal? Naquela agonia, me desequilibrei e caímos fazendo barulho. Acendeu uma luz de refletor na parede de trás da casa. Só deu tempo de ver o apocalipse na forma de um sujeito alto com cara de caminhão, falando coisas nada gentis, a balançar um facão conhecido. Não estava ali pelas galinhas, é certo. O medo faz é coisa, viu? Como um gato, eu, que não subia em árvore desde menino, já tava no topo da goiabeira. Pulei para a casa do vizinho. Nem deu tempo de perguntar ao cara sobre o resultado do jogo. Ainda ouvia os impropérios do meu perseguidor quando um som mais contundente demandou ações imediatas. Devia ser um fila, mas passaria como um boi, fácil. Ele latiu alto e forte, quase em português: “você se fodeu”. Tive segundos preciosos para pular o muro por umas caixas empilhadas em uma mesa. Dividimos o prejuízo. Ele ficou com um dos meus tênis, que arrancou em uma abocanhada e eu com cortes em pés, mãos e braços – o muro tinha cacos de vidro que não notei na hora do abafa – além de camisa e bermuda rasgadas.

 

Caí em um terreno baldio. Tudo doía. Metros à frente, corria esgoto a céu aberto, mais asqueroso que eu. Reparei que estava sobre um saco. Curioso, apalpei por fora e de um pulo me arranquei dali – parecia uma mão! Seria um presunto? Velho, que porra era aquela? Corri como pude, mancando de um pé, todo acabado. Margeei o rio podre até ver ao longe quatro homens junto a um carro parado sob a luz de um poste, em uma ponte curta. Acelerei. Já mais perto, vi que dois eram policiais. Uma corrente de alívio endireitou minha espinha: “vou pra casa!”. Me aproximei falando alto e eles apontaram as armas. A iluminação era tosca, mas ficou claro: os outros eram os caras da conveniência!

– São eles, são eles! Me raptaram.

– Calma! Documentos!

– Eu não tenho. Eles roubaram minha carteira!

– Bora, cidadão!

– Me ouça, eles são ladrões!

– O senhor bebeu?

– Uma cerveja só e já faz tempo.

– Calaboca e encosta com a mão pra frente pro carro.

– Mas eu…

– Não resista!

– Eu tô limpo! Revistem eles!

– O senhor tá precisando é de um banho…

– Explico! Eu tava…

– Pode parar. Vamos tomar o seu depoimento no posto.

Terminaram uma conversa com os miseravões e me colocaram na viatura. Os dois safados ficaram lá, rindo. Reclamei que eles eram os verdadeiros criminosos. Me mandaram calar a boca de novo. A conversa teria que ser oficial. Rodamos por uns quinze minutos e eu não fazia ideia de onde estava. Paramos de frente para uma casa em uma rua ainda mais deserta e escura que a outra em que caí no lixo. Não estava gostando daquilo, que nem de longe era delegacia. Me arrancaram do carro aos costumes, deram uns trompaços e me empurraram para dentro, pela porta já aberta.

Os dois ladrões estavam sentados em volta de uma mesa, comendo frango com farinha e tomando cerveja! Os quatro riram alto. Tentei correr, mas fui jogado no chão. Me amarraram com as mãos para trás e um pano grosso e fedorento calou minha boca. Nem pude perguntar quanto foi o jogo. Eles falavam: “larga por aí”, “mata”, “corta a língua”, “come o cu”. As perspectivas não eram boas. Um deles chiou da catinga: “não dá pra comer penosa com esse fedô”. Rasgaram meu resto de roupa, me levaram até o banheiro e trouxeram uma mangueira. Me fizeram cheirar alguma coisa e apaguei nos primeiros jatos d’água.

Tudo ficou esquisito e percebi que eu era uma galinha e um cara apontava um trabuco para a minha cabeça, gritando sem parar: “bota, bota, tu vai morrer, desgraça!”. Eu tentava falar – só saia “có, có, có” – batia as asas, balançava as pernas, cacarejava e os ovos iam saindo, mas ele não ficava satisfeito e continuava me ameaçando. Estava desesperado, já me vendo em uma panela, quando enfim ouvi um grito diferente que me despertou:

– Porra, véi, o cara cagou o box todo!

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