Uma oração que é quase silêncio

(Bruno Vicentini)




E então, quando é o momento de se ouvir um estampido seco que eu talvez nem chegue a escutar e depois nada mais, depois o silêncio, quem sabe algum alívio, minha alma rota batendo enfim na porta do céu ou do inferno ou nem isso, eu ouço, em vez, um clique, o cão sendo desarmado, o careca cruza os braços na jaqueta vermelha e me diz:

– Vai.

Ainda de joelhos eu abro os olhos e só então vejo que ele descolou a pistola da minha têmpora. Ele acende agora um cigarro e abana a arma na minha direção, como quem espanta uma mosca, é um gesto irritado que me diz pra andar logo, pra ser grato e caçar meu rumo.

Mas rumo eu não tenho, gratidão tampouco. Me levanto e afasto os cabelos da frente do rosto, abro a porta da loja, percebo que as mãos me tremem. Na antessala há uma secretária, há som ambiente, a moça tá lixando as unhas, distraída, me olha curiosa quando eu passo. Pessoas esperam sentadas na longarina. Abro a segunda porta e ganho a rua.

Encontro a cidade toda igual. Pessoas que vendem, que compram. Eu não tenho nada pra oferecer pra ninguém. Também não planejei sobreviver. Enquanto decido se a sobrevivência é uma coisa boa ou ruim, tomo o caminho de casa.

A cidade toda igual, apesar de mim.

São no mínimo duas conduções. Na segunda os jovens ouvem música muito alto, rabiscam as janelas e os assentos com corretivo e pincel atômico. Viajo sentado, com as mãos apoiadas sobre os joelhos. São duas aranhas excitadas. Uma pequena vende dropes e chocolates. Oferece a salvação pros passageiros, mas passa lotada por mim.

A mulher não me espera. Bato a mão arisca nos bolsos, não tenho as chaves, mas encontro a porta aberta. Dentro de casa meus filhos me fazem festa, puxam a manga do paletó, querem conversar, saber do meu dia. A mulher não me questiona, coloca um prato a mais na mesa. Batuco a colher no prato de vidro. Mastigo o feijão, que é pouco. A mulher manda as crianças (que obedientes são as crianças) pra dentro. Me tira o paletó e a camisa de botões, diz que vai resolver, pra eu não me preocupar, a mancha sai fácil, basta esfregar com força.

Fico sentado sozinho. Respiro fundo. Sei que algo vai acontecer.

Minutos depois a mulher volta e me alcança a camisa:

– Vai.

Antes de sair me tranco no banheiro. Tesoura, navalha, aqua velva. Ao meu redor os cabelos caem como impérios, como convicções. Vejo-me no espelho. Satisfeito, termino de me vestir e ganho a rua mais uma vez.

Duas quadras até a avenida com nome de herói nacional, onde há um ponto de táxi. O taxista elogia-me a jaqueta. Dentro do carro eu lhe conto piadas, bravateio contra o governo. Assovio a canção de um filme antigo. Em frente à loja peço pra ele parar e me esperar, que eu já volto.

A secretária despeja sobre mim uma enxurrada de assuntos. Peço-lhe um cigarro, que ela me alcança já aceso. Penso em mudar o som ambiente, tão irritante. Pessoas esperam sentadas na longarina. Abro a segunda porta e entro na loja.

O cabeludo está no chão, de joelhos, de olhos bem fechados, os cabelos longos caídos por sobre o rosto. Pego a pistola de cima de um caixote de madeira e sinto-lhe o peso. Engatilho-a. O homem revisita sua fé, balbucia uma oração que é quase silêncio. Suas lágrimas colam os cabelos nas bochechas. Colo a pistola na sua têmpora. Percebo que minhas mãos já não tremem.

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