
Haruki Murakami todo ano é apontado como favorito ao Nobel e perde. Nada mais adequado à sua prosa, que flerta com o realismo fantástico: certeza que quando ganhar o prêmio o velho japa vai morrer numa maratona e não vai curtir a bolada.
N’O Elefante Desaparece (Alfaguara), que reúne os seus primeiros contos, o mais amado dos escritores japoneses comparece já falando como gente grande. Todos os seus temas estão aí: o ocidentalismo, o amor ao rock e ao jazz, a solidão, as solidões desencontradas, o nojo pelo cotidiano, a vontade de escapar às convenções, a prosa segura, o humor nonsense, um lirismo levemente melancólico, o amor aos animais em detrimento dos humanos, as situações insólitas.
O que muda, em relação a obras-primas como Kafka à Beira-mar, a trilogia 1Q84 e Norwegian Wood, é a angulação do fantástico. O Murakami deste Elefante ainda é bastante realista. Ele ainda acredita na realidade objetiva e ainda explica situações estranhas através do nonsense, do humor e do absurdo. Está ainda tateando no sentimento do fantástico – a sensação, a intuição e a impressão de que as coisas não são exatamente o que parecem, conforme dito por Cortázar no ensaio de mesmo nome (Valise de Cronópio, Perspectiva).
O fantástico tem uma gradação proposta por pesquisadores estruturalistas como Vladimir Propp e Tzvetan Todorov – sobre o assunto, incontornável é a Introdução à Literatura Fantástica. Dentro deste estudo da teoria dos gêneros, que até hoje é aceita pela academia, existem graus que vão do realismo objetivo (Graciliano Ramos, Rubem Fonseca) à fantasia declarada (JK Rowling, George RR Martin). O realismo fantástico é este híbrido em que o leitor fica em uma espécie de hesitação sobre se aquilo que está vendo é real ou não; ele duvida da matéria da realidade.
Um elemento recorrente a essa desconfiança em relação à realidade objetiva é o Unheimlich, um termo usado pelo escritor gótico ETA Hoffmann e depois reaproveitado por Freud em um ensaio clássico. Palavra intraduzível, o Unheimlich significaria algo como “estranho familiar”: “o mal-estar que nasce de uma ruptura na racionalidade tranquilizadora da vida cotidiana”. A estranheza surge na narrativa mas não a ponto de levá-la para os domínios da fantasia, mas justamente para mostrar que a realidade sim é esquisita.





PROPOSTA
Bem, é isso o que você vai fazer: vai adotar um monstrinho.
Não tenho a menor ideia de como vai aparecer esse bicho. Só que a estrutura vai ser a mesma do conto do Murakami.
1 Um ser alienígena surge do nada na vida do protagonista / narrador do conto. Descreva-o meticulosamente, seu físico, seu jeito de falar, seu comportamento. Descreva também o fascínio ou o nojo que o protagonista tem por ele. Descreva também a rotina do protagonista, e como o encontro com o alienígena bagunçou ou não sua vida;
2 O ser alienígena tem algum superpoder bizarro (voa, fica invisível, é superforte, é capaz de telecinese, tem algum dom matemático, fala em dezenas de línguas, é mais habilidoso do que o Rodrigo Hilbert, etc etc. Qualquer coisa que você imagine, menos o dom da telepatia);
3 É justamente este superpoder bizarro que acaba ocasionando o conflito entre o protagonista e o alienígena. Desenvolva essa conflito: em que medida o superpoder do alienígena acaba incomodando a vida do protagonista?
4 É justamente o superpoder bizarro do alienígena que vai acabar ocasionando o desfecho. Que pode ser uma ruptura, uma resignação, uma superação ou uma despedida. Você escolhe.
Narre na primeira pessoa, em uns 10 mil toques no máximo.
