Infidelidade

(Bruno Vicentini)



O paranaense não é fiel.

Opa, calma lá, não se trata disso, não. Melhor eu me explicar, antes que a carapuça sirva e que alguém se acuse: de acordo com pesquisa recente (na verdade é uma pesquisa qualquer, já meio senhora, que eu cito aqui só pra ver se a crônica engrena), apenas 16% dos paranaenses torcem pra algum time de futebol aqui do estado. A mesma investigação, vejam vocês, aponta que os nossos vizinhos paulistas atingem uma taxa de fidelidade futebolística de até 70%; os gaúchos, bairristas convictos, esbanjam 84%. Deus é fiel. O torcedor paranaense, não.

Se ainda for na capital, vá lá. Um Atletiba (que agora talvez se grafe, preparem-se, Athletiba) causa um baita de um frisson. Mas aqui no interior, o clássico comove tanto quanto um malabarista de semáforo ou uma promessa de campanha. Há quem culpe a nossa colonização. Deixo a questão pros historiadores. Mas é fato que os pés-vermelhos, em geral, preferem mesmo torcer pra times “de fora”.

Meu sogro, por exemplo. Quando o conheci, ele tava na varanda assistindo ao Palmeiras perder pela televisão, com a calma que só o costume traz. Antes mesmo de me perguntar as intenções, quis saber pra que time eu torcia. Respondi que não ligava muito pra futebol, não. (Hoje percebo: demonstrei naquele momento tremenda falha de caráter.) Ele farejou problema e achou por bem intervir. Disse-me então que, se o Palmeiras virasse (o que acabou acontecendo), iria me presentear com uma camisa, a sua camisa. Quando o gol da vitória saiu, ele se levantou, sem dizer palavra, e entrou. Voltou com o manto alviverde, que depositou sobre a mesa, bem na minha frente, com a maior cerimônia.

Mas não foi assim que eu virei palmeirense. O arrebatamento deu-se depois, em momento muito menos apoteótico, quando passei a frequentar um local sagrado conhecido como Bar do Ponce, reduto dos palmeirenses da Vila Morangueira. Foi lá que, entre um acepipe e outro, integrei as fileiras da torcida que canta e vibra – ainda que eu não cante, e vibre apenas discretamente.

Vocês vão me dizer que um bar não é motivo bastante. Quem diz isso não conhece o Bar do Ponce os encantos de sua estufa, que tem linguiça, chouriço, codeguim – bom pra rima e ruim pro rim. Eu mato e morro por uma língua em molho. Quando a casa do Coritiba em Maringá for um botequim de tamanha responsabilidade, me comprometo a virar coxa branca. Mas sei que isso não vai acontecer tão cedo.

Hoje eu entrei no Bar do Ponce pisando leve, que é como se entra num templo. Amanhã o Palmeiras vai jogar a Final (assim mesmo, com F maiúsculo, por ser a única que pode sepultar uma piada centenária). Karol, a dona do lugar, tava atrás do balcão com os cabelos platinados. Disse que vai pintar de verde amanhã cedo, antes do jogo. Ela trabalha quase sempre de uniforme completo (meiões, inclusive), ostentando a sua fibra. A televisão eu encontrei desligada, como se descansasse, antecipando suas obrigações do dia seguinte. Havia algo no ar como uma prece. O lugar todo rescendia a véspera.

O paranaense pode não ser fiel, mas não há nada como a nossa infidelidade.

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