O truque do bafo da vaca

Silvia Argenta

Depois de passar a noite no bafo das reses, você se levanta cedo por necessidade. O curral era o único lugar protegido para dormir nas proximidades do porto de Nápoles. Ficar perto das mamíferas ajudava a esquentar o corpo por causa da neve e do vento forte que passava pelas frestas dos perfis de madeira. Apesar de ter morado a vida toda numa fazenda, você nunca havia tido a experiência de dormir em cima do feno entre as pernas de uma vaca. Sem cobertor e com os pés envoltos por jornal dentro das botas, esperava a baforada quente que saía do nariz da ruminante para se aquecer. A cada expiração dela, seu corpo tremia menos. 

Além do aquecimento natural, outra vantagem é o leite quente à disposição bem cedinho. Antes de abrir a porta do curral, você puxa um banco e um balde para ordenhar. O sol ainda nem nasceu, mas ela não parece incomodada e deixa você tirar o leite sem reclamar, ao contrário das outras três vacas magras que também dormiram no curral e se movimentam impacientes querendo sair. Na noite anterior, não avistou nenhum bezerro no pasto, então tem leite mais do que suficiente para alimentar os outros vinte soldados que passaram a noite ali com você. Por sorte, a maioria não conhece o truque do bafo da vaca.

O som da corneta anuncia o início da missão do dia. Não dá nem tempo de fumar um cigarro. Lá fora, não neva mais. Cai uma chuva fina que deixa o gelo no chão bastante escorregadio, exigindo uma atenção que a maioria dos seres vivos não têm a essa hora da madrugada, ainda mais depois de dormir apenas três horas. Mesmo já estando nessa condição há alguns meses, você não se acostuma com o descanso precário que não repõe energia. Seu corpo dá sinais de cansaço por conta da exaustão acumulada, mas a guerra sempre exige mais dos seus sentidos e da sua saúde.

No caminho até o porto, passa por casas de pedra ocupadas por famílias que tentam normalizar o cotidiano, pois encontra vassouras e lenha cortada ao lado das portas. Alguns comandantes até permitem, mas não é recomendável que soldados durmam nessas residências. Imagine misturar fuzis com peões de crianças no canto da sala ou munições e formas de pão em cima de uma mesa. Você passa na frente da chiesa da vila, e a curiosidade é grande. Abre a porta enorme de madeira para ver como ela é por dentro e se surpreende com o ambiente tão familiar. Segurando a maçaneta de bronze com o formato de um leão, vê o chão de pedra e o altar simples, quase todo branco, muito parecidos com a pequena igreja de Herciliópolis, o povoado onde mora… ou morava. Nem sabe mais dizer. Alguém lhe chama a atenção porque todos têm pressa. Você faz o sinal da cruz, fecha a porta e retoma o rumo pelas ruas escuras e cheias de neblina. 

No porto, 73 homens brasileiros e norte-americanos perfilados aguardam as instruções do comandante. Você se junta a eles para começar o deslocamento por mar. Não há tempo para cantar hino nem para protocolos burocráticos porque a chuva começa a engrossar. Todos entram na barcaça de invasão, preparada na noite anterior para transferir a tropa. De porte médio, vai carregar os soldados mais os mantimentos e as armas. Você nunca gostou de água e agora, além do uniforme ensopado, precisa passar as próximas horas sobre o Tirreno em direção ao norte apenas com a cabeça protegida pelo quepe verde. 

A costa não se mostra com seu famoso mar transparente. Em poucos minutos ele fica turvo e você precisa sair correndo do convés por causa da tempestade. Por um lado é bom porque evita o frio, mas ficar amontoado com os outros soldados no porão não parece uma decisão razoável. Os homens sentados lado a lado com as pernas encolhidas para caber no pequeno espaço parecem fazer uma coreografia no ritmo do balanço das ondas. As tarefas de limpeza, de organização dos cabos e de abastecimento de carvão são suspensas, o que pode atrasar a viagem. Irritado, o comandante alto e de olhos claros fica com o pescoço vermelho e ordena em inglês o retorno da tropa para o convés. Você pensa em retrucar e perguntar por que não se moveram por terra, mas desiste, já que uma discussão nesse momento não melhoraria as condições de ninguém. Todos compreendem e acatam a decisão. Estar em Livorno no horário combinado é fundamental para o ataque surpresa dessa noite. 

O pequeno vapor parece uma caixinha em alto-mar. Oscila muito e você se desequilibra algumas vezes, mas assim que cai no convés logo se levanta. Alguns não conseguem ter a sua destreza e permanecem deitados no chão de madeira, se segurando no que estiver pela frente: um cabo, um banco, um mastro. Um soldado brasileiro vai até a borda apoiar as mãos para vomitar na água. Assim como ele, vários outros vão um a um colocar as coisas para fora. Cinco precisam ser socorridos de padiola e são levados para um cômodo que serve de enfermaria. Uns quinze não chegam a tempo na beira e sujam o convés, que na sequência é lavado pelas ondas que ultrapassam a altura da borda e invadem a embarcação. Quem ainda consegue, grita um olé a cada onda. Ninguém fala nada a cada vômito. Você só observa.

Tenta imaginar o que eles vomitam e se lembra que, fora o leite da manhã, a última refeição foi na tarde anterior, quando as últimas latas de feijão foram consumidas e nada mais sobrou. Os soldados só poderão comer os mantimentos embarcados quando chegarem ao destino. Suas tripas se embrulham diversas vezes e você se curva para tentar controlar o desconforto enquanto tudo balança violentamente. Quando vê que até o pessoal do alto comando vomita, você pensa em colocar o dedo na goela para acelerar o processo e se livrar do mal-estar, mas não tem coragem. Prefere guardá-la para outro momento mais importante. Absolutamente tudo de sentimentos, sensações e necessidades deve ser bem dosado para conseguir avançar nesses dias, meses ou anos intermináveis. 

Você fica de olho em um tenente-coronel inabalável pelas condições e estabelece uma competição velada. Ele está na parte alta do convés supervisionando as tarefas, que foram sendo suspensas aos poucos pelas baixas na tropa. A tempestade também não permite que tudo transcorra de forma metódica e disciplinada. Ele parece conformado e mantém as costas eretas sem demonstrar desânimo nem compaixão. Se tivesse um chicote, talvez não estivesse nessa aura de calmaria, quase parecendo não se importar com a voracidade da água que bate em seu corpo de vez em quando. 

Somente duas horas depois, a chuva para e o mar volta a ter condições melhores para navegar. Apesar da instabilidade, ninguém foi arremessado para fora da embarcação, e o tenente-coronel recruta os menos abalados para retomar suas atividades. Você volta a enrolar os cabos na proa. No final da viagem, apenas vocês dois não procuram a borda da barcaça. Com isso, já considera que o dia foi de sorte. Se soubesse falar inglês, teria puxado papo com ele. 

Depois de todos esses percalços, vocês estão atrasados e ainda hoje devem descarregar a carga o mais rápido possível e colocá-la nos jipes que abastecerão o pessoal da linha de frente. Ao chegar a Livorno de noite, chega a notícia de que o ataque surpresa foi adiado porque o comboio que se movimentou paralelamente por terra foi interceptado e alguns soldados estão mantidos como reféns. Pensando bem, valeu levantar cedo, se expor a uma tempestade e trabalhar duro o dia todo.  

Você percebe que o frio parece mais intenso do que na noite anterior. As botas afundam na neve e as pontas dos dedos das mãos estão congeladas. A transferência dos mantimentos e das armas para os carros será feita no dia seguinte. Você quer sentir de novo o quentinho do bafo da vaca e não consegue manter as costas eretas. Desconhece onde vai passar essa noite e tudo que precisa ter em mente é a própria sobrevivência. Se for para morrer, que Deus espere você reencontrar os seus pais para pedir a última bença.

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