tbt exposição

(Angélica)

Eu e o Bruno passamos uma semana agitada, não nos vimos, mas conversamos bastante por mensagem, muito mesmo, quase não consegui trabalhar. Ele estava montando uma exposição, a releitura do A Metamorfose, onde Gregor Samsa aparecia nas telas nas mais inusitadas situações. Em vez de se sentir deprimido ao acordar e perceber que tinha se transformado em um ser repugnante, Samsa contemplava sua beleza no espelho e penteava suas antenas numa espécie de topete. Em outra pintura, por exemplo, se impressionava com a aparência da família, os pais e a irmã viviam assustados, pálidos como fantasmas, além de exibirem uma fragilidade inquietante, já que não tinham uma couraça como a sua. O inseto comia na mesa, sentadinho no lugar de sempre, enquanto os outros pegavam seus pratos e engoliam a refeição em algum canto qualquer da sala. E nada de ficar sozinho no quarto sofrendo, convidava outros insetos para irem lá. Aos poucos, eles ocuparam todo o andar térreo da casa. A família se restringia ao piso de cima e de vez em quando à cozinha. As conversas com os amigos eram animadas e a mãe de Gregor se incumbia de preparar as travessas de salgadinhos entre uma lágrima e outra. Certa noite, apareceu uma barata linda, com as asas brilhantes e poetisa. Quando ela recitou uma de suas poesias rodopiando as quatros patas no ar, Gregor sentiu que aqueles versos eram passarinhos e seu coração uma gaiola, se apaixonou na hora, por sorte foi recíproco. O casamento não demorou muito, logo tiveram filhos, na primeira gestação nasceram centenas de baratinhas. A família, cada vez mais acuada, foi embora do sobrado e a irmã que ficasse sem as aulas de piano. Ela teve que procurar um emprego e sustentar os pais, arrumou uma vaga numa fábrica de tecidos, trabalhava dezesseis horas por dia em pé. Gregor e a barata, que não precisavam de muito para viver, foram felizes para sempre.

Os quadros foram pintados numa espécie de Via Crucis, cada um contava uma parte dessa história. Embaixo das telas ia um texto, não muito grande, que Bruno tinha escrito. Como não estava bom, para ser sincera, quase uma catástrofe, pediu que eu o ajudasse. Passei a semana toda mexendo neles, reescrevi vários trechos e também acrescentei algumas ideias que ele adorou. Deu trabalho, mas no final ficamos bastante satisfeitos com o resultado. A galeria tinha feito uma parceria com uma editora, essa releitura ia virar um livro que seria lançado na abertura da exposição.

Alguns dias mais tarde, me encontrei com ele no Empanadas. Depois de comer e tomar umas cervejas, fomos caminhando até a sua casa. Dava para escutar o celular dele apitando a todo instante no bolso da calça, Bruno não olhou as mensagens, continuou de mãos dadas comigo. Assim que chegamos, a primeira coisa que fez foi me mostrar a prova da capa do livro. Eufórico, me contou que tinha recebido um bom dinheiro da editora. Fiquei esperando ele dizer que ia me dar uma parte, pequena que fosse, afinal eu havia passado várias horas debruçada nos textos. Bruno sabia que os meus frilas estavam escorrendo das minhas mãos e mesmo que eu fizesse uma conchinha com elas, ia sobrar muito pouco. Além do mais, o reajuste do aluguel era no próximo mês. Ele não falou nada, eu também não, preferi aguardar, quem sabe voltaria ao assunto mais frente.

Nas duas semanas antes da exposição, não nos vimos e conversamos pouco, estava na correria, precisava terminar a montagem, fazer a lista de convidados e também preparar o material para a imprensa. Me mandou uma mensagem em pânico, pedindo para eu ler a biografia dele e o resumo do projeto. Isso na verdade queria dizer não dá para você arrumar para mim? Fiz com boa vontade, Bruno me agradeceu várias vezes.

Só fomos nos encontrar no dia da exposição. Pus o meu melhor vestido e prendi os cabelos para cima. Sem os óculos era impossível acertar o delineador, o risco ficou meio torto, mas me dei por bonita, me sentia feliz. A vernissage estava cheia, era numa galeria conhecida dos Jardins. Quando entrei, muitas pessoas cercavam o Bruno, então resolvi dar uma volta e ver os quadros de novo. Como não conhecia ninguém, perambulei um tempo com uma taça de vinho na mão. A rodinha em torno dele não acaba nunca, assim que uns saíam, outros chegavam. Em algum momento, nos cumprimentamos com um beijo rápido.

No canto direito havia duas mesas brancas, num determinado momento puseram os livros em uma delas, empilhados como se fossem dois arranha-céus. Comprei um exemplar e me dirigi à outra mesa para que Bruno o autografasse. Acreditava que por ele estar radiante, se não escrevesse algo carinhoso, pelo menos ia fazer alguma brincadeira “sacana” e que mais tarde íamos dar muitas risadas disso.

Na hora, não vi o que ele tinha escrito na dedicatória, só ao me afastar um pouco foi que pude ler. “Para aquela que sempre me apoia”? Que droga é essa? Não sou sua tia. Me vi de quatro no chão com os cotovelos do Bruno cravados nas minhas costas. Decepcionada era pouco. Respirei fundo umas três vezes, logo o garçom passou com a bandeja e capturei mais uma taça. Bebi depressa para desocupar a mão, queria olhar o livro por dentro. Lógico que eu achava que meu nome estaria em algum lugar. Não encontrei nas primeiras páginas, mas quem sabe no final. Também não havia nada, nem na lista dos agradecimentos eu aparecia.

Fechei a última capa e em seguida prendi o livro na minha axila. Por ter várias cabeças na minha frente, suspendi o calcanhar e torcendo o pescoço tentei buscar os olhos do Bruno. Continuava ocupado com a caneta. Fui para o lado oposto da fila de autógrafos e fiquei parada como um cone de rua.

Dali, eu podia ver você sentando na cadeira sorrindo cada vez que recebia um tapinha no ombro. Não olhou para mim uma vez sequer nem de relance nem por sentir aquela sensação desagradável de que alguém está nos secando. O garçom apareceu de novo e como se faz quando se está deslocada, conversei um pouco com ele, fui simpática até demais, talvez para mostrar que eu estava bem, mas mostrar para quem? Meus pés começaram a formigar, confusa, não sabia se esperava ou ia embora.

Não precisei decidir nada. Vi uma mulher se aproximar, já era alta, com o salto ficou quase do tamanho de um obelisco. Você franziu o rosto para ela, depois abaixou a cabeça e escreveu a dedicatória, quando foi devolver o livro, o monumento aos mortos deu um beijo na sua boca. Um beijo que dava para desentupir o esgoto de São Paulo. As formigas que estavam no meu sapato subiram para as pernas, achei que ia despencar. Os meus braços amoleceram e ficaram largados como se tivessem esquecido que ainda estavam vivos. O livro caiu com a capa virada para o chão fazendo um barulho tão grande que todos olharam para mim, inclusive você.

Não me abaixei para pegar, saí andando nem sei de que maneira, eu e as formigas. Por um momento pensei que continuava no mesmo lugar, ainda via vocês dois, mas isso podia ser porque a cena do beijo não parava de se repetir na minha cabeça. Enquanto atravessava a galeria, em nenhum momento escutei você me chamando ou vindo na minha direção, não esperava mesmo que você saísse dos holofotes.

Ao sair, de tão atordoada, esbarrei num cara e quando me virei para pedir desculpa, percebi que já o conhecia, era o Sebas, Sebastião, um colega de faculdade que eu nunca mais tive notícias. Tinha encorpado e seu rosto, feito com a ajuda de um esquadro, exibia algumas marcas de expressão que o deixaram ainda mais bonito. Ele me reconheceu mesmo com a minha cara de quem tinha visto dois insetos asquerosos fora das telas. Olha só! Já está indo embora? Disse que sim tentando relaxar as sobrancelhas que pesavam uns cem quilos. Não sabia que você conhecia o Sparapanni. Minha reposta foi algo como um gemido. O Sebas falou mais alguma coisa, não entendi, um casal passou ao nosso lado gargalhando. Perguntei outro dia mesmo de você para o Bento, ele disse que não tinha mais o seu contato. O que você vai fazer? Vamos comer alguma coisa? Vou lá dentro, dou um abraço no Spa e já volto, diz que sim, vai?

O Sebas não demorou e ai parar ao meu lado disse que o carro dele estava numa travessa lá perto. Quando comecei a andar, senti que as formigas tinham comido meus pés e para que eu pudesse seguir em frente precisava me equilibrar em cima dos meus tornozelos. A cada passo, um pouca da minha pele grudava na calçada. Ele me perguntou se eu estava bem, minha pressão deve ter caído, já vai passar, respondi. Sebas me segurou pela cintura enquanto as formigas entraram no meio das minhas pernas.

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