Trouxe a mochila?

por Américo Paim

Você já leu a carta da empresa três vezes, mas decide levar para Seo Gildo. E se entendi errado? Melhor ter certeza.

– É isso mesmo, Dió, meu filho. Querem lhe contratar.

– Sério?

– É uma vaga de eletricista.

– Nem tô acreditando!

– A entrevista é depois de amanhã.

– Eita, vou comprar o bilhete!

– Vá, Jesus lhe acompanhe.

Você agradece muito a ele. Os anos aprendendo com Seo Gildo na oficina tiveram serventia. Vou comprar casa, roupa nova, arrumar a vida de mãe! Conhecer a cidade grande! Fico devendo a Tibúrcio. A vaga era dele. Arrumou coisa melhor e lembrou de mim. Amigo de verdade.

Você compra a passagem para o dia seguinte, às 15:00h. Oito horas de viagem. Beija o bilhete e o guarda no bolso da calça amarrotada. Vai à lanchonete de Zé Tripa e pede média e pão com manteiga. A cabeça tá cheia, mas você repara no velho encostado na parede. Nem parece uma pessoa. Ele vem até você. Pede licença para um dedo de prosa. Não é muito seu jeito, porém você se apieda. Tripa protesta.

– Oxe, Dió, dê nada ao vagabundo não.

– Que é isso, Zé?

– Ninguém sabe de onde veio esse aí.

– Ele quer conversar.

– Nada. Já abordou uns dez e ninguém deu ozadia.

– Tenha caridade, rapaz.

– Óia… Viu o quê, pra ficar santo assim? E se comer? Vai pendurar?

– E é da sua conta? Eu pago.

O coitado lhe prende a atenção. Ossudo, com olhos muito negros, orelhas grandes, a pele marcada de tempo e feridas e um tufo de cabelo preto embaixo do queixo destoando do resto cinza.

– O senhor fale à vontade.

– Agradecido.

– Nunca lhe vi por aqui.

– Cheguei hoje junto com o sol, mas já vou no ônibus pra capital amanhã.

– Então vamos no mesmo.

Ué, nem deve ter onde cair morto e pagou o transporte? De que jeito? O velho demora em silêncio, encarando você. Isso lhe incomoda. Você puxa conversa.

– Meu nome é Dionísio. Qual a sua graça?

– É Asael. Me chame de Magro.

– Ô, seu Magro, tá vindo de onde?

– Das banda do Barro Quente.

– Oxe, vem de longe.

– Até acho que nem cheguei.

– Não tem linha de lá pra cá, né?

– Dez dias de caminhança.

– Andou tudo isso?

– Apois.

– É mato perigoso. O senhor tem coragem.

– Lá tem mais coisa boa do que a gente sabe.

– É verdade, a natureza.

– E outras coisa. Só não é mais pra mim.

– Num sei se lhe entendo.

– Às vez tudo se dá é no caminho mermo, num sabe?

– Não é o quê…

– Quero saber se pode me favorecer.

– Como assim?

– Guardei umas nica pro ônibus, mas precisa interá.

– Então é dinheiro.

– É quase nada. O que pudé me ajuda.

Você lhe dá algumas moedas. O velho sorri misterioso. Você paga a conta e se despede. Magro agradece e lhe recomenda que leve guarda-chuva e casaco na viagem. Esse sujeito é doido. Nem lembro mais quando choveu por aqui. Calor dos infernos. E eu só vou descer na capital. Ele lhe pede que leve uma mochila, pois é preciso carregar uma coisa e ele não tem mais como. Você promete levar. Antes de soltar sua mão, lhe lança um olhar diferente e pergunta se tem medo de cachorro. Você ri, mas ele insiste:

– Não tema o cão.

Já em casa, comenta com sua mãe. Ao lhe contar a parte final da conversa, ela se benze três vezes e pede que você não viaje.

– Oxe, mainha, posso não. É minha grande oportunidade.

– Tezinha me disse hoje o que deu no jornal.

– Sua vizinha fofoqueira?

– Teve tiroteio na Serra ontem.

– Ah, o do roubo da fazenda?

– Isso! A polícia tá atrás do ladrão. Sumiu.

– Tenho nada com isso. Vou é fazer minha vida!

Você arruma a mala e mal dorme. Só pensa no emprego. No dia seguinte, após o almoço, se despede da mãe em um longo abraço. Ela ainda apela, você nem olha para trás. Você observa o céu claro como sempre, o calor inclemente. Tá vendo que aqui não chove? Você é um dos primeiros a entrar no ônibus. Olha pela janela, espera até o último momento e nada do Magro. O pobre nem deve ter conseguido o dinheiro. Ou será que tá lotado? O ônibus parte sem o velho.

Cansado da noite de sono ruim, você logo adormece, ainda no trecho plano da estrada. Nem vê a paisagem fechada de mata muito verde e cheirosa que tanto gosta. Um barulho ensurdecedor lhe acorda, já no começo da descida da Serra. Você pensa ser batida e foi um trovão. Você acha que dormiu demais de tão escuro que está. Oxe, já é noite? Olha o relógio: 17:00h. O vento está frio e você fecha a janela. O céu preto lhe dá medo. Relâmpagos e trovoada. As pessoas gritam, riem nervosas ou se benzem. Começa uma chuva violenta. Mal se enxerga lá fora. Não há acostamento para parar. Você está apreensivo. Percebe que o motorista tenta reduzir a velocidade, mas ouve-se um forte estalo e o ônibus corre ainda mais, pende desgovernado para a esquerda, perto de uma curva fechada que tem um guarda-corpo metálico. O coletivo bate ali e desce a ribanceira capotando várias vezes. Corpos e coisas jogados para tudo que é canto. Quando para, instável entre duas árvores grandes, à beira de outro despenhadeiro imenso, só silêncio.

Você abre os olhos. Ainda está escuro e você está todo molhado. A água entra sem parar pelo buraco no vidro. O ônibus está de lado e sua janela virou teto. A pessoa na poltrona vizinha está imóvel e lhe aterroriza com aquele olhar sem vida. Você coloca a mão na cabeça e vê que está sangrando. A dor é grande, só que suportável. Parece que nada se quebrou no resto do seu corpo. Você se movimenta e grita por socorro. Nada de volta, nem um gemido. Só a chuva fala. Você se ajeita para sair dali, vem um grande solavanco e o ônibus escorrega. Você pressente que algo ruim está para acontecer. Você enrola a camisa na mão e esmurra o vidro para ampliar a passagem. Escapa por ali. Não percebe o cenário real, mas por causa de outra deslizada curta, você pula sem pensar. Cai na lama, a tempo de ver o veículo descer a pirambeira. Ouve a explosão e vê a bola de fogo que se forma lá longe, metros abaixo.

Você imagina que a estrada é para cima e caminha perdido. A chuva continua e nos últimos lampejos de luz do dia, você nota uma trilha surrada à sua direita e vai por ela. Você entende que não dá para subir a encosta enlameada. Preciso de ajuda. Tô meio tonto. Ai minha cabeça. Que frio da pega. E esse cacau aí, não acaba não, véi? Você lembra da fala do Magro e se assusta. Ele não veio, escapou do desastre. Será que é vidente? Não, né? Não ia me deixar pegar o busão. Ajudei o cara. Lhe vem à cabeça que perdeu o emprego porque não vai chegar lá. Ou a lugar algum. Vou morrer aqui, no meio de mato. Grita por ajuda de novo. Entre um fôlego e outro, ouve algo. Que barulho é esse?

Você anda e o ruído lhe segue. Para e ele também. Retoma e volta o som estranho. Estão me seguindo! Acelera e é o mesmo ritual de silêncios e sons. Você não sabe o quanto já caminhou, mas não foi pouco. Está quase escuro, cada vez mais difícil de enxergar a trilha. É quando ele surge e você conhece o que é ter medo. A não mais que três metros à sua frente, com uma claridade esquisita em volta, está um cão preto, enorme. Ele mostra os grandes dentes e rosna. Você está paralisado. Me lasquei. Nem tem pra onde correr. Ele se aproxima uns passos e para. Late e rosna. Você recua, sem saber o que fazer. Pede por todos os santos. Ele repete os gestos. Aí você lembra do que o velho disse e faz menção de se aproximar. O cão recua e muda de direção. Você vai atrás. Ele anda devagar, mas parece seguro, como querendo que você o siga. Você atende. Às vezes, ele para e se volta para você, assustador. Vocês continuam e a trilha parece melhor. Não demora muito e chegam a uma pequena clareira.

Em meio a folhas e galhos ensopados você vê uma forma estranha. O cão se afasta e some no mato. Você chega perto. É um corpo de homem. Parece que está ali faz tempo. É o Magro. Nenhuma dúvida. Está morto. Como veio parar aqui? Como é possível? No bolso da velha camisa de botão, desponta um pedaço de papel. Em tinta borrada pela chuva, você lê: “cave na urtiga”. Mais nada. Você localiza a planta bem próxima e usa as próprias mãos no terreno mole e encharcado. Encontra uma caixa metálica, sem tranca. Dentro, um saco plástico cheio de dinheiro, como nunca viu na vida. Há um bilhete: “trouxe a mochila?”.

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