
Horacio Quiroga é o Edgar Allan Poe hispânico. De vida tão atribulada e trágica quanto a do norte-americano, o uruguaio morou a maior parte do tempo em regiões inóspitas da Argentina e também era fascinado por narrativas sombrias. Deixou vários livros, entre contos, poemas e romances, mas sua fama se deve – como Poe com suas Histórias Extraordinárias – à reunião Contos de Amor de Loucura e de Morte. Neles, atualiza o gótico sulista de Poe para o Chaco argentino – suas narrativas se passam sempre na tríplice fronteira, um território ainda pouco conhecido e cheio de perigos, na virada do século 19 para o 20. Aproximando realismo de realismo fantástico, personagens regionais e urbanos, mitos e tipos, é um dos livros de contos mais importantes da literatura hispânica moderna.
Abaixo há um excelente ensaio sobre a vida e a obra de Quiroga, escrito pelo crítico chileno John O’Kuinghtons, que contém outro texto super citado de Quiroga, o Decálogo do Verdadeiro Contista, muito usado em oficinas de escrita de ficções breves. Meu mandamento favorito são o 7, “Tome suas personagens pela mão e leve-as firmemente até o final, sem ver nada que não seja o caminho que você lhes traçou. Não se distraia vendo o que elas podem ou não lhes importa ver. Não abuse do leitor”, e o 10, “Não pense em seus amigos ao escrever nem na impressão que provocará sua história. Conte como se seu relato tiver interesse apenas ao pequeno ambiente de suas personagens, das quais você poderia ter sido uma“.

































PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer. Vai contar uma história em que certa maldição seja inevitável. Mas o leitor não saberá qual é esta maldição até o desfecho.
Repare que no conto de Quiroga temos a intercalação de espaços de luz e sombra. A primeira luz é o casamento idílico do casal Mazzini-Ferraz. Em seguida, cada nascimento de um filho é uma luz; mas então vem a sombra, proposta no surgimento da doença mental. Quando vem o nascimento da filha, parecemos ter voltado àquela primeira luz idílica. Mas, esquecidos de que o mal está sempre à espreita, o casal se distrai, e sobrevém a sombra. Não há como escapar da maldição.
Outro ponto importante é que a maldição é tanto maior quanto menos é nomeada. Não sabemos exatamente o que os idiotas fizeram com sua irmão, nunca é descrito – mas temos uma ideia terrível, por conta da imagem da galinha degolada. Existe aí um jogo de imitação, um jogo de espelhos.
Então a proposta é você brincar com a alternância de luz e sombra em sua narrativa.
Importante: coloque um animal em sua narrativa – gato, cachorro, tartaruga, pássaro, macaco, cobra, hamster, esquilo, porco, lhama, qualquer bicho. O animal será importante para o relato, mas não será o centro da trama.
Sete temas para ambientar a sua maldição:
- família
- doença
- viagem
- luxúria
- comida
- dinheiro
- serendipidade
Ao lado das ações, que podem ocorrer em um crescendo, sempre intercaladas entre zonas de luz e de sombra, se preocupe com os sentimentos dos seus personagens.
Conte como se seu relato tiver interesse apenas ao pequeno ambiente de suas personagens, das quais você poderia ter sido uma.
Em uns 9 mil toques.
