tbt bananeira

Eu dormia cada vez menos. Às cinco da manhã já estava limpando o apartamento e lavando roupa. Depois tomava um banho infindável, como se a água da Sabesp fosse pura e cristalina e pudesse levar todas as crostas de sujeira do meu corpo e da minha alma para o ralo. De tanto ficar embaixo do chuveiro, minha pele foi se tornando uma casca dura e ressecada, se eu passasse a unha nela, um risco branco de giz riscava a lousa. Os hidratantes não davam conta.

Lá pelas nove, Sebas enviava algum texto, novo ou com as modificações que eu havia sugerido. Por estar no escritório, trocávamos poucas palavras. Só de ouvir o barulhinho do e-mail chegando, eu me animava toda e corria para o computador. Adorava ler suas histórias. Comecei a alimentar uma fantasia: ele podia se separar da esposa a qualquer momento e vir morar comigo, depois era só arranjar um lugar maior. Parte disso se devia ao fato de que nossas conversas no final da tarde terem se tornado frequentes e demoradas, ríamos muito das nossas besteiras. Se rolava uma sedução, por menos que fosse, minha boca se enchia de saliva.

Numa noite, no meio de um dos meus banhos, o chuveiro explodiu. Além de levar um susto com o estalo alto e a fumaça preta que infestou o box, eu jurava que a explosão era por causa dos fluídos ruins daquela pessoa que eu não queria mais falar o nome. Ainda pingando, mandei uma mensagem para o Sebas. Ele achou graça quando eu falei que tinha ficado muito assustada, com os cabelos em pé, calma, foi só a resistência que pifou. Logo em seguida disse que a esposa estava do seu lado e sumiu sem se despedir.

Na mesma hora, as formigas, que tinham se esquecido de mim, começaram a se mexer freneticamente na sola dos meus pés. Pus uma camisola, um casaquinho, calcei minhas pantufas brancas na esperança que elas se acalmassem com a pelúcia e fui para a varanda. Ela beirava toda a extensão do meu quarto, mas não avançava muito na direção da rua. Se alguém quisesse esticar as pernas, precisava virar a cadeira de lado. No canto esquerdo, havia um vaso com uma bananeira pequena. Nada melhor que o contato com a natureza para limpar as energias negativas.

Uma de suas folhas estava amarelada e com as bordas pretas. Assim como eu, pensei. Por mais que eu puxasse, não consegui arrancar. Todo meu esforço só serviu para que ela fosse para baixo, não se desprendeu da bananeira. Ao olhar para a parte descascada do caule, notei um brilho forte e à medida que eu piscava os olhos, esse brilho foi aumentando. Podia ser uma luz do prédio da frente refletindo na seiva. Não só não era, como alguma coisa começou a sair dessa parte brilhante. Dei um pulo na cadeira, o segundo susto da noite. Em vez de sair correndo, fiquei tentando descobrir do que se tratava, quem sabe tinha vindo me ajudar. Um focinho marrom coberto por uma penugem clara como as costas de um bebê peludo, na ponta, um nariz preto e uma boquinha estreita quase sem lábio. Soltava um grunhido baixo, eu mal conseguia escutar. Quando veio para frente se aproximando de mim, vi que seu focinho era longo e lá trás dois olhos pequenos e castanhos me secavam. Não sei se por as pupilas não serem alinhadas, seu olhar parecia meio desvairado.

Um tamanduá. Quer dizer, a cabeça de um tamanduá, seu corpo continuava dentro da bananeira. Como cabia lá dentro? Não tinha a mínima ideia, mas uma cabeça que flutuava também não fazia o mínimo sentido.

Ele colocou a língua fina e comprida como um espaguete de fora e lambeu a minha canela. Senti um pouco de nojo, era pegajosa e me lembrou uma lesma. Não precisava ser um gênio para chegar à conclusão de que ele queria comer as formigas. Arranquei as pantufas e ofereci meus pés achando que não podia satisfazê-lo de melhor forma. Quem sabe eu ia me livrar desse tormento de uma vez por todas.

Só que o tamanduá cheirou os meus dedos, torceu a boca ignorando minha oferta. Seu focinho subiu pela minha perna, foi encostando o nariz gelado e úmido em mim. Depois lambeu meus joelhos, quando a língua chegou na minha coxa, percebi que não ia parar por ali, além do mais suas pálpebras estavam caídas como as de um bebê mamando. Dei uma tapa tão forte na sua orelha que ele foi voou para perto da bananeira. Assim que se recuperou, abriu os olhos atordoado puxando o fio do espaguete para dentro da boca e sussurrou alguma coisa, não entendi. À princípio achei que fosse tamanduês. Mas ao reconhecer algumas palavras, percebi que o problema dele era falar enrolado.
– ¿Qué pasa, niña? ¿Por qué tanta agresión?

– Não passa nada. De onde você veio? O que você quer comigo?

– ¡Cálmate, cariño!
– Não sou seu carinho. 
– Lo es, pero no lo sabes. Vengo de Argentina.

– Como assim? Como você foi parar dentro da minha bananeira?

– Te he estado observando durante mucho tiempo, eres muy hermosa.

Era só o que me faltava, um tamanduá me cantando. Não tinha nada de desvairado, um malandro, isso sim.

– Você tem me vigiado? Quanto tempo você está aí?

– Me muero de amor por ti.

– Estou apaixonada e não é por você. Vê se desaparece.

– Lástima que no coincida
– Como não? Desde quando você sabe o que ele sente?

Se ele tivesse um pescoço, ia estrangular esse bicho, juro que ia.

– Você está falando isso para ver se eu caio na sua lábia. Nem sei porque estou dando trela para você.

– Mírame, te puedo dar unas caricias increíbles.

Era o que me faltava, rolar no chão com um tamanduá argentino.

– Como você sabe que o Sebas não gosta de mim? Você ainda não respondeu.

Ni Sebas ni el outro – Disse isso passando a língua na sobrancelha e depois continuou – Lo sé porque puedo capturar las emociones de los demás a través de ti.

Nessa hora eu balancei e se fosse verdade? E se ele tivesse esse poder?

– Nenhum dos dois?

– Nadie, pero yo...
– Pelo jeito você quer me derrubar.
– Nada de eso, quiero que no te dejes engañar. Te amo con todo mi corazón. Más de lo que amo a Maradona. Soy el único que realmente te ama.
O que eu vou fazer com um tamanduá? Preparar um jantarzinho romântico? Falando nisso... 
– Qual é seu nome?
– Gastón Fernandez, mi pricesa.
– Então, Gastón, você não pode me ajudar com as formigas?
– ¿Con las hormigas?
– Sim, as que estão nos meus pés.
– Lo siento mucho. no me gustan tus pies, me gustaría mucho lamer tu vagina. Si quieres, puedo meter mi cara dentro de ella y lamerle el útero. Sentirás algo que nunca habías sentido en toda tu vida.
Que filho da puta!

– Saiba que o “outro” gostava muito dos meus pés.

– Lo siento por él, las mujeres tienen cosas mucho mejores

Deixei o tamanduá falando sozinho e fui lá para dentro. Eu ouvia ele gritar ¿Dónde estás mi amor? Voltei com uma das mãos nas costas e me sentei puxando a cadeira para bem perto da sua cabeça, estava deitada na folha da bananeira que eu havia puxado.

– Feche os olhos. É a hora do seu beijo de boa noite.

– ¿Un beso en la boca?

– Por supuesto – Respondi fazendo biquinho. Gastón abriu os lábios como um peixe, meu coração disparou só de imaginar uma língua de mais de meio metro dentro da minha boca.

Disparou de asco e de aflição. Ao me aproximar, levantei a folha depressa e com a outra mão colei a tira de fita crepe que trouxe comigo por cima dela. O tamanduá ficou esmagado no caule, ainda ouvi ele dizer por favor te puedo cantar un tango para que duermas.

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