por Américo Paim
O sábado foi um corre só, com trabalho, churras e muita cana lá no bar do Cachorro Doido. Fui dormir umas nove, morto com farofa. Na madruga pra domingo, acordo com uma sede dos infernos, a ressaca no comando. Sento na cama, suo igual a porco, me falta coragem. Ouço o barulho. É tipo uma caixa registradora, uma trapizonga barulhenta. Não para. Pego o trabuco e vou conferir, na cocó. Tá escuro. Vou no jeito, descalço, devagar, encostado na parede do corredor, tateando o interruptor. A luz acende e eu vejo a coisa. Tem um monstro na minha sala.
Não tem outro jeito de falar. Não é gente, também não é bicho. É… sei lá, vou tentar explicar. Alto, um e oitenta pelo menos. Os dois pés sem unhas, colados pelo calcanhar, como um relógio marcando dez e dez. No lugar das pernas é um feixe de mola grande, daqueles de caminhão, que cresce de baixo pra cima, até a cintura. Esquisito, só que tem estabilidade. Um pano com umas cores misturadas, como um tecido de roupa, cobre o que devia ser peito e barriga, feito um cubo gigantão, mas sem quina viva, entende? Tudo aparadinho. Os braços são feito espadas de luz, que nem aquele filme e mudam de tamanho. E a cabeça? Uma pirâmide, com uma bola grande dentro, em cima de outras molas, bem estilosas. Tem três olhos, um sozinho pra cima e dois pra baixo, um do lado do outro. Troço feio, viu? Tudo isso junto se mexe independente. Não reparo se tem um padrão. Pra completar, um cabelo rasta comprido que bate nas costas e parece suspenso no ar. Ah, tem uns dreads brilhando. Não tem boca. Sai uma voz clara e metálica, parecendo gravação, vinda do nada, falando assim ó:
– Ah, acordou…
– Rapaz, né Carnaval não, num tô mais bêbo. Será que pirei ou morri?
– Ah, Marcão, nem uma coisa nem outra.
– Óia, sabe meu nome! Agora lascou em banda.
– Sei muita coisa.
– Você é o que mermo?
– Sou o W472Z3Z3, mas para facilitar me chame de Jão.
– Que sopa de letrinha é essa, véi?
– É meu código.
– Você vem de que baile, mermão?
– Não vamos perder tempo. Preciso adiantar o serviço.
– Oxe, tu vai é vazar agora!
– Abaixe a arma. É inútil contra mim. Não tenha medo.
– Que porra cê qué comigo?
– Calma, vim lhe ajudar.
– Ah, tá. Trouxe dinheiro?
– Seu humor melhorou, ótimo. Vamos ao trabalho.
Não dá tempo de responder ao comando do coisado. Não sei explicar, mas aquela fala dele me dá uma falta de vontade, uma lerdeza que só. Quando vejo, já tô no sofá. O sopinha me explica que tem poderes – o que fica claro, pois eu não só perco o medo e a vontade de meter um balaço nele, como tô quase oferecendo uma cerva ao sujeito. Minha parte na história é ajudar o coisinha a realizar as tarefas pra sair do seu estágio Z3Z3. Assim ele diz. Me explica que tem um monte de chefe de onde ele vem. Não fala o lugar. Saco que ele só precisa cumprir a missão e a chefia dele gostar.
– Velho, deixovê se entendi. Vou ser sua cobaia?
– Meu cliente, eu diria.
– Que porra é essa de mudar de nível? É jogo de celular?
– Quero ser admitido no conselho intelectual.
– É o quê?
– Um colegiado de desenvolvidos.
– Véi, tá foda…
– Sou terceirizado, daí eu ter só um código, nem mesmo nome de verdade.
– Rapaz, até lá tem essas coisa?
– Sabe de nada…
– E o povo dizendo que tem vida inteligente lá fora…
– Hein? Vamos focar?
– Sim, Seu Z3Z3.
– Jão, por favor, prefiro.
– Ah, tá. É o nome que sua mãe… Cês têm mãe, né?
– Não como aqui. Vamos mudar o rumo da prosa?
– Perdi a vontade de uma hora pra outra. Foi você?
Sim, foi ele. Rápido assim. Eu quero fazer ou falar uma coisa, ele atua e pronto, nem lembro mais direito o que era. Mas não é esse poder que ele quer usar em mim. É o que me diz. Quer é ser contratado como Resolvedor de Memória. Cargo chique da porra. Não é coisa pouca, não.
– Eu controlo suas memórias e faço que elas se apresentem a você.
– Ah, qualé…
Rapaz, a coisa pega. Se sacode todo, os olhos e a cabeça rodaram, os braços encolhendo e aumentando, um pisca-pisca retado. Aí vem um fumacê verde e, do nada, ali na minha frente, com um vestido preto coladinho e a beleza toda que Deus lhe deu, me aparece Rosana. Eu tô na mesma boate da quinta-feira de duas semanas atrás. Como assim? Fico surpreso e desconfiado, só que nem penso duas vezes. Chego nela e largo o doce de novo, aquele leriado todo pra cima da deusa, mas tudo termina com um xingamento e um empurrão forte que ela me dá! Caio de volta no sofá, Jão olhando pra mim.
– Ô, desgraça, que foi?
– Sua lembrança.
– Olhe só, não sei como fez isso não, mas é fake.
– Por quê?
– Sei não, só sinto que não foi assim.
– Antes você lembrava assim: trepada massa, papá.
– Sério? Eu peguei a gostosa?
– Só que ela ficou puta porque menti tudo e depois sumi.
– Ei, porra é essa? É minha voz, tá falando igual a mim!
– São suas memórias, não minhas. Agora está resolvido. Ela evitou a experiência ruim.
– Oxe, tá maluco, véi?
– Tente lembrar agora.
Velho, o desgraçado tá certo. Eu não consigo. Nada. Onde era a boate, o que fui fazer lá e muito menos da gata. Incrível. Tudo desapareceu. Aquilo assusta, me dá uma tremedeira, sério. Penso no churras do Cachorro, nos últimos trabalhos, na ligação de mainha, no jogo do Bahia. Vem tudo normal. Fico ali meio duvidando do enlatado e mando essa:
– Mermão, não sei que porra cê inventou aí, mas não cola mais.
– Essas coisas de trabalho, telefonemas, futebol não têm nada a ver.
– Oxe, que parada é essa? Tá lendo minha mente, bacana?
– Para ser um resolvedor, tenho que controlar suas memórias.
– Véi, isso é bule.
– Você vai compreender. Essa primeira foi uma bobagem. Vamos fazer um teste melhor.
De novo o negócio das luzes, sons e cores e minha sala some. Me vejo numa rua escura, andando com Zoião e Fulustreco, óia. Velho, eu tô com uns dezoito anos. Chove fino e eles falam comigo, mas eu não entendo direito. Chegamos numa praça mal iluminada e tá lá o Jocelmo, com dois otários. Paramos pra conversar e a coisa esquenta, rola bate-boca forte. A chuva aumenta e meus amigos sacam as peixeiras e olham pra mim. Eu falo alguma coisa demorada, eles guardam as facas e quando a gente vai tornar a andar, olhe eu de volta no sofá. Me levanto de um pulo.
– Que diabo é isso, cacete?
– Mais uma resolvida.
– Oxe, não sei do que tá falando.
– Pois é, a briga não aconteceu, Jocelmo não ficou paralítico e ninguém foi preso.
– Ia ter tudo isso?
– Não mais. Até sua cicatriz atrás do sovaco esquerdo sumiu.
Eu coloco a mão no lugar pra conferir, mesmo que minha cabeça diga que não tem porra nenhuma de marca ali. É no reflexo. Aquela memória não existe mais porque nada aconteceu. Coisa louca. O medo vai crescendo, sem saber no que vai dar. Não tô gostando nada.
– Você já entendeu, então?
– Oxe, tá barril, na moral.
– O que é que não pegou?
– Eu me lembro de tudo. Onde eu moro, meu nome, minha idade, a cidade. E aí?
– Explico. Só trabalho com coisas escrotas.
– Como é?
– Lembranças de ruindades, passos errados, merdas. Região do arrependimento.
– Oxe, tu entra na minha cabeça pra ver isso, playboy?
– É parte do trabalho.
– Conversa estranha da mizera.
– É aí que preciso de você. Mas precisa se concentrar, do contrário pode dar erro.
– Tô fora, mané, papo esquisito. E que negócio de erro é esse?
– Apagar demais ou de menos. Aconteceu uma ou outra vez. Coisa de sistema.
– Oxe, tu bebeu, chefia? Por onde foi, se nem tem boca?
– Preciso de algo especial. Que cave uma coisa bem feia, lá escondida.
– Que conversa é essa, véi?
– Uma bem grande, lá de dentro.
Começa a falar sem parar, me provocar, apertando minha mente. Fala de um monte de coisa ruim que eu fiz, até umas que eu quero esquecer mesmo, sem me deixar abrir a boca, batendo sem dó. E não me mostra mais nada, só me fazendo lembrar o que ele quer. Vou emputecendo. Aqueles olhos rodando pra tudo que é lugar, o corpo sacudindo nas molas, o cabelo de um lado a outro, uma pressão da mulesta que parece sem fim. Aí fica tudo silêncio e eu não tô mais ali.
É uma sala pequena. Pela janela velha vejo que é dia claro, mas tem uma luminária em cima da mesa, clareando um desenho desses tipo mapa de prédio. Tem dois homens na minha frente, as vozes conhecidas. Olho um carimbo de banco no canto do papel. Vejo um revólver e munição junto de um copo que parecia uísque. A gente fala e ri, mas tá estranho. De novo, não consigo entender tudo. Ficamos de pé, as armas nos bolsos dos casacos. Saímos, descemos de elevador e chegamos num carro. Eu dirijo e tô bem rápido. Atravessamos uns quarteirões. A velocidade aumenta, eles me torrando o saco pra eu pisar. Furo um sinal vermelho e quando faço a curva, perco o controle e o carro bate em uma senhora, que cai. Olho pelo espelho e, apesar da chiadeira dos dois, paro junto da calçada e volto para socorrer a pobre. Eles saltam também. A mulher não parece bem e na hora que eu falo com ela, um caminhão enorme varre nosso carro e arrasta pra longe. Ninguém se machuca e a viatura tá perdida. Eu vejo os dois correndo da cena e volta Jão.
– Véi, que foi que teve?
– Nada mais. Tudo resolvido.
– Tá falando de quê?
– Você prestou socorro e a senhora sobreviveu.
– Que senhora, peão?
– O banco não foi assaltado, o caixa não levou os dois tiros na cabeça nem deixou viúva e três filhos.
– Tu tá louco? Isso tava na minha cabeça?
– Eu lhe disse, é meu trabalho.
– Quer que eu acredite nessa merda?
– Estou agradecido. Vou embora.
E aí some, ninguém sabe ninguém viu. Quando me toco, tô andando pro quarto, com um copo d’água. Durmo rápido. Acordo com aquela ressaca prometida e volto pra sala. Vazia. Quase tudo com cara de normal. O problema é que agora eu tô aqui, sentado no mesmo sofá e tá confuso. Na minha frente tem uma mesinha com uma pasta e um monte de papel e foto sobre um sujeito famoso, um revólver e um envelope com muito dinheiro em nota de cem. Não sei bem o que fazer. Ou será que já fiz?
