Bordado na Pele

Bordado na Pele (texto de Carolina Schettini)

O sol atravessa a fresta da janela e pousa em cima do pudim. A calda escura e firme craquela. Vendo a cena, ela pisca os olhos, puxa os cílios e empurra o pudim para o lado. As unhas postiças pintadas de vermelho tamborilam em cima da mesa, dedilhando um piano imaginário. Ela endireita o corpo, puxa a saia para cima e se vira. Seu tio a espera colado em suas costas. Se houvesse um espinho entre eles, os dois seriam espetados. Ela está sendo observada.

 — Aquela tatuagem na perna dela é uma cobra?

— Uma cobra?

— Olha lá. Dá pra ver na beira da saia.

— Ela é a cobra.

— Pode ser um dragão.

— Um dragão? O rabo de um dragão?

— Olha lá.

— Não gosto de olhar pra ela. Quanto mais velha, mais curta a sala.

— É uma cobra.

Silêncio. 

De braços dados com o tio, o acompanha até a mesa de carteado. Abraça uma prima rechonchuda, como se aperta um balão cheio de gás. O vestido da prima é estampado com dentes de leão. Se voassem, trariam sorte. Enquanto conversam, em uma falsa gangorra, ela balança de um lado para o outro, uma perna para baixo, uma para cima. Descansa o corpo ora em um, ora em outro pé.  

— Eu ia fazer e ela fez antes. Só pra me irritar.

— Uma tatuagem?

— É.

— Você nem gosta.

— Eu tava pensando. Escrevi uma frase: “a linha borda na pele, tatuagem sem cor”. Era mais ou menos assim.

— E?

— Pensei em fazer uma tatuagem. Falei com ela.

— Com ela?

— É. Pra me indicar. Ela tem tantas. Cada namoro novo coloca uma nova.

— E ela falou?

— Foi junto. Na hora, ela sabia, ela sabia que eu ia dar pra trás. E o que fez? Ela fez! 

— Onde?

— Lá pro lado do horto.

— Onde na pele?

— Nas costas. Colorida. E ainda tive que ficar de mãos dadas com ela. Foi me dando um negócio por dentro, sério, quase morri. Cheguei em casa, tomei o pote todo de passiflora. 

— Ela desenhou sua frase?

— Uma coruja. Passei a odiar corujas. E tatuagem.

— Tatuagem você já não gostava muito.

— É. Mas, eu ia fazer.

Silêncio.

O sol muda de lado. Gotas de suor insistem em acumular na sua testa, são espantadas em batidinhas leves. Uma parente distante (uma tia?) a convida para se sentar no sofá. O sofá está ocupado. 

— Ela vai falar com você?

— Daqui a pouco vem com cara de sonsa.

— Vai te mostrar a tatuagem nova.

— Podia tatuar uma abelha picando aquela boca inchada.

— Olha lá. Ela tá sentada na beira do sofá. Vai cruzar as pernas.

— Vai ver acha que é a Sharon Stone.

— Idade ela tem.

— Fala pra ela. 

— Quem inventou esse encontro de família nesse sítio? Por que a gente veio?

— Pra não ser o parente esquisito.

— Verdade.

Silêncio.

Um parente idoso se aproxima e ela se levanta para dar lugar a ele, que não a reconhece. Ela tampouco. Ela franze a testa como se buscasse ajuda dentro da mente. Os olhos são revirados para cima, em busca da memória perdida. O senhor bate a bengala no chão. Toc. Toc Toc. Três vezes. O canto da sua boca mostra um sorriso em formato de “o”. Com a cabeça em pêndulo, balança, assente. Lembrou! Os braços ao alto, em comemoração. 

— Ela tem um porco desenhado na batata da perna.

— Um porco todo ou só um focinho?

— Um porquinho rosa.

— Ela é palmeirense? Nunca foi.

— O porco é bonitinho.

— Por que não desenhou uma galinha?

— Ou uma vaca.

— Olha. Ela tá jogando os braços pro ar.

— Tem uma tatuagem no sovaco. Sovaco de cobra.

— Tem?

— Tem uma aranha.

— Cê tá inventando. 

— É sério. 

— Quantos namorados ela já teve?

— Na vida?

— É. Tipo. Nos últimos vinte anos.

— Uns trinta?

— Cada namoro, um alento. Cada término, um tormento. 

— Tá rimando agora?

— Cada hora, uma aurora.

— Ela faz assim que termina?

— Quando começa. Ou no meio. Ou no fim. Quanto tá triste. Quem se importa?

Silêncio.

Na cozinha, pedem sua ajuda. Com uma caçarola em mão, aparece encurvada. Vapores sobem de dentro da panela. A concha de feijão serve caldo em pequenas xícaras. A borda do avental limpa as beiradas. Um galho de salsinha completa a produção.

— Fico pensando quando ela ficar velha.

— Ela é velha.

— Muito muito muito muito mais velha.

— Acha que vai ter tatuagem até dentro do olho?
— Isso, com certeza!

— Ela nunca vai ser velha.

— Ela é velha.

— E daí?
— E daí ela vai cair as pelancas em cima de todos esses desenhos, juntando um no outro, fazendo uma lambança só, um quadro de Picasso. Ela me lembra um quadro de Picasso.

— Qual?

— Aquele que a gente viu no museu.

— Eram girassóis.

— Girassóis é do outro. Van Gogh. Talvez ela possa ser um quadro de Van Gogh quando fizer tantas plásticas e ficar sem orelha.

— Ela pode fazer uma tatuagem de orelha.

— Com brincos.

Risos. Silêncio. 

Um pingo de caldo escapole e pinta sua saia. Um petit poá. Um pano de prato molhado na bebida clara (gin? vodka? água?) é esfregado na mancha. A saia sobe mais um centímetro; molhada, cola em cima da sua tatuagem. As duas mãos por trás do pescoço sacodem os cabelos de um lado para o outro em um ventilador invisível.

— Uma cobra não é um bom bicho pra tatuar.

— É bom sim. É poder.

— Maligna. Isso sim.

— Podia ter feito a cobra enrolando na coxa.

— E os buracos de celulite?

— Ela tem?

— Todo mundo tem. Só que cobre com meia grossa.

— Meia grossa aqui no sítio? Vai morrer de calor.

— Aqui só tem parente cego e gagá e a gente. Somos piores que um parente cego e gagá.

— Esse namoro não deve ter sido bom.

— Uma cobra!

— Quando ela tatuou a formiga foi bonito. Lembrou uma poesia.

— Qual?

— No jardim até a formiga é feliz. Ou algo assim.

— Você hoje tá cheio de frases.

— Ela me irrita. Queria puxar aquele aplique loiro e pisar com força em cima.

— Acho que é difícil sair. Colam nos fios.

— Pode ser grampo.

— Pode ter trançado.

— Olha lá. Ela tá batendo palmas e soprando. 

— Quem era esse homem da cobra?

Silêncio.

No meio das palmas de um parabéns atrasado, seu celular toca. Onde está sua bolsa? A bolsa passa de mão em mão. Ela abre. No visor, o nome dele. Não atende. Os cílios são puxados mais uma vez. O batom sai da caixinha com espelho e recupera a cor dos seus lábios, desbotados por tantos beijos em bochechas de pó de arroz. Ela dá uma sacudidela, a saia gira. Um primo de terceiro grau a puxa pela mão. 

— Cada vez que ela arruma um namorado, ela fica tão saltitante.

— Uma cobra!

— Depois diz que falta dinheiro. Era caro fazer tatuagem.

— Era?

— Caro, caro. 

— Ela tinha dinheiro?

— Penhorou um anel do último. Nunca mais vai resgatar.

— Qual?

— Qual homem ou qual anel?

— Qual anel?

— Aquele anel com estrelinhas.

— Ela tem tatuagem de estrela?

— Não tem. Não fez. Ou fez. Não sei. 

— Esquisito.

— Podia esperar dois namorados e fazer aquele bicho mitológico, sabe?

— Qual?

— Um que tem um chifre e uma pata. Ou um rabo. Ou cospe fogo.

— Dos signos.

— Os signos ela tem todos.

— Ela namorou o padre. Podia ter tatuado a mula sem cabeça.

— Ela é a mula sem cabeça.

Risos. Silêncio.

O tal primo fala alto enrolando a língua. Dança não de um jeito ritmado, mas de uma forma que só bêbados sabem fazer. Ele dá um passo para frente e agarra sua cintura. Ela o afasta com o antebraço. Com o cotovelo. Move para trás ao mesmo tempo em que foge. O primo chega mais perto. Ela olha para os lados procurando ajuda.

— Quando ela faz a tatoo no início, desanda mais rápido.

— É?

— Daquele beija flor, não deu tempo nem de cicatrizar.

— Você lembra?

— Ela chorava e arranhava a perna. 

— Foi?

— Tive que aguentar dias e dias.

— Olha lá! Ela tá chamando a gente com o dedinho.

— No dedinho da tatuagem de joaninha? Ou do olho grego?

— Olho grego não é bicho.

— Ela é mística.

— É?
— Às vezes. Quando inventa de ser do circo.

— Podia ser comida de leão.

— Podia.

Silêncio.

O primo tenta beijá-la. Suas mãos seguram seus braços e ele fala algo no seu ouvido. O rosto dela se contorce numa ânsia de vômito. Num supetão, ela empurra o homem que, com o susto, torce o pé, tropeça e cai. Ela faz gestos para que ajudem. 

— Vai lá.

— Não vou.

— Ela tá esticando o braço todo e chamando como se puxasse água de rio.

— Ela não sabe nadar.

— Sabe.

— Sabe?

— Vi foto num iate. Depois fez a tatuagem de peixe.

— Eu gosto daquela.

— Eu também. Verde mar.

— Combina com os olhos dela.

— Combina.

— Vamos lá.

— Não vou. Vou deitar na grama. Só vou se ela vier me buscar.

Silêncio.

Alguns parentes aparecem. O cheiro de álcool e perfume eclode ao ar livre. Uma irmã dele ou outra prima interessada se oferece para levá-lo embora. Ela respira fundo, ajeita a saia, joga a cabeça para trás. O sol arde em seus olhos. Ela os fecha e marca a têmpora, apertando-a com os quatro dedos de uma vez. Os cílios são ajeitados em leves batidinhas. 

— Essa cobra foi a pior. Tá velha.

— Tá velha.

— Por que ela tá de saltos?

— Ela quer ficar maior que a prima esquisita que casou com um ministro.

— Se ela namorar um ministro, pode desenhar uma coisa mais legal.

— Melhor que a cobra. 

— Pode ser um dragão.

— Pode ser.

— Levanta. Vamos lá. Ela vai vir aqui.

— Não vai.

— Ela tá vindo.

— Sério?

— Sério. Levanta.

Silêncio. 

Ela caminha como se marchasse para a guerra, parando, como uma xícara, suas mãos presas na cintura. Seu rosto pesa. Cada ruga, cada poro, cada pelo do rosto, cada fio de ouro, cada aplicação de paralisante pesa. Seu olhar fixo na dupla a ponto de lançar-lhes um laser pela falta de ajuda. Ela não diz nada. 

— Oi, mãe. 

— Oi, mamãe.

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