Marina sabia ler



(Bruno Vicentini)

Marina parou ofegante na frente da casa
apoiou a prancheta no muro baixo de tijolos
cobertos de musgo
sentia o suor se formando e escorrendo devagar
pela testa pelas costas
uma gota que desceu pelo meio exato das costas
por baixo do uniforme, embaixo do colete castanho
Marina se acha gorda
não se acostumou com a rotina do novo serviço
ainda é jovem, mas já se arrependeu das tatuagens
de quando era ainda mais jovem
mais cedo dentro do carro da Prefeitura
aproveitava o ar-condicionado
junto com a Supervisora e as outras
passaram na frente daquela mesma casa
tinha um gato gordo malhado de cinza sobre o muro
que olhou furioso pro carro
imóvel e imponente como uma gárgula medieval
a Supervisora, no banco do carona
fez um pelo-sinal completo
sangue do cordeiro, disse a Supervisora
mas Marina agora via a casa de perto
não tinha nada de mais
uma casa velha de madeira
a Supervisora era uma pessoa horrível
o interior do jardim terra vermelha sem grama
muito entulho num canto
pedaços de caibro e telhas quebradas
os escorpiões-amarelos as aranhas-marrons
Marina podia quase vê-los intuí-los sentir-lhes o cheiro
mas não água parada
só uma casa velha
destoava das casas modernas e muito brancas do bairro
porque pertencia a um outro tempo
três janelonas basculantes
uma delas com o vidro quebrado de uma tijolada
Marina sabia que a Supervisora tinha escolhido Marina
pra cobrir a região daquela casa como um trote
porque ela era novata
a Supervisora era uma pessoa horrível
Joice, Bia, Márcia
cada uma pra um lado
as ruas de cima até a Avenida Colombo
as ruas de baixo até o Buracão
todo mundo aqui de volta até o meio-dia
de tarde temos outro bairro pra cobrir
bom trabalho
e assim Marina acabou ali
e depois de visitar muitas outras
bateu palmas na frente daquela casa
passou meio minuto e
bateu palmas de novo
ô, de casa, ô, de casa
a porta lateral se abriu e antes que a pessoa saísse
saiu o gato balofo
maior ainda visto de perto
uns quinze quilos ou mais
a cara de absoluto maníaco
desfilou até o canto dos entulhos
com uma graça e uma agilidade que pareciam incompatíveis
com aquele tamanho todo
subiu num pedaço de caibro
saiu da casa um velho
penteando os cabelos molhados com um pente de plástico
que guardou no bolso da camisa
usava calça social e chinelos
controle da dengue, disse Marina
tem plantas em casa, perguntou Marina
estamos vivendo uma epidemia
dengue, zica, chikungunya
o portão tá aberto, disse o velho
Marina amarrou um pano vermelho no portãozinho
antes de abrir o ferrolho e entrar
era importante seguir o protocolo
mais ao fundo havia alguns vasos
cheios de plantas mortas plantas secas
uma horta abortada
o velho entrou e voltou com um copo d’água
pras plantas não mas pra Marina
ela agradeceu, disse que não precisava
o velho fez uma careta e quase riu
Marina ali na varanda se esvaindo em suor e negando água
bebe, criança, é só água
eu não vou te envenenar
essas plantas aqui não vêm água faz tempo, né
o senhor precisa dar um jeito naquele entulho
o senhor sabe onde fica o papelzinho
é que eu preciso registrar a visita
um papelzinho assim geralmente fica na despensa atrás da porta
entraram os dois na cozinha

o velho perguntou se Marina sabia ler
Marina sabia ler

em um minuto ele trouxe de dentro as mãos fechadas em concha
como se carregasse uma borboleta
um segredo uma maldição uma mariposa
o papel era tão velho que se desmanchava esfarelava-se nas dobras
Marina segurou o papel pouco mais que um bilhete
escrito numa folha que não mais se usava
numa caligrafia discreta
e soube ler um passado
soube ler alguém
soube ler um número
o velho quis saber se Marina tinha telefone se ela podia ligar
e claro que ela tinha telefone
mas disse que não tinha
era fácil mentir pra um velho que não tinha lhe envenenado
Marina se sentiu meio tonta
e foi embora sem registrar a visita
saiu da casa quase correndo e depois pela rua
deixou o velho com o gato
o velho franzino trouxe o gato pra dentro
um velho tão pequeno e um gato tão grande
que pra carregar o gato um abraço de corpo inteiro
tá tudo bem, Aristeu
vem pra dentro, Aristeu
mês que vem vem alguém
estamos vivendo uma epidemia
dengue, zica, chikungunya
o pano ficou amarrado na ponta afiada do portão
como a bandeira imóvel e vermelha de um país talvez em guerra
sem vento nem esperança

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