Silvia Argenta
O urubu cai no capô do carro e suas penas pretas se espalham no para-brisas. Elas mantêm a ordem no formato de leque, apesar da posição atípica do corpo, que renuncia a postura de rei. As rodas do carro derrapam no asfalto quente enquanto o pescoço do bicho fica preso no limpador. O bico aberto expõe a língua vermelha, maior do que eu imaginava. O olho esquerdo grudado no vidro projeta a pupila que praticamente toma todo o globo ocular. A massa disforme entre a ponta do bico e os olhos se espicha para cima. Acompanho a pelanca que segue o movimento do carro girando.
As mãos tensas no volante esterçado já não têm controle sobre mais nada. A faixa central da pista se torna meramente decorativa e perde sua função de organizar o fluxo dos veículos. As películas grossas das janelas laterais, escolhidas para evitar enxeridos, me fazem perder a noção do caminho para o oeste. Meu peito, que até então queimava com o sol quente na viagem, agora esfria. Os óculos escuros dificultam ainda mais enxergar qualquer coisa na penumbra de dentro do carro. Entre as penas do urubu de vez em quando aparecem uns raios de luz, numa brincadeira de lusco-fusco que certamente eu iria gostar de apreciar não fosse a força centrífuga.
Pela manhã, a ligação do desconhecido perguntando de Rosália não fez sentido algum. Ao ouvir uma negativa sonolenta, ele gritou pedindo que eu não desligasse o telefone. Sem condição de raciocinar direito, apenas mantive o celular na orelha sem falar nada. E então ele questionou novamente. “Tem certeza que não conhece nenhuma Rosália? Sua rainha!”. Não, não conheço, pensei. Sem ouvir resposta, o homem continuou. “Sua tia Lorena sabe muito bem do que estou falando”. Mais uma vez não respondi, apesar de que agora ele conquistou minha atenção. “Sim, sua tia Lorena”, ele repetiu.
Me levantei agitada, abri a gaveta e peguei meu abanico. Cada momento que ele pronunciava o nome da tia, eu agitava o objeto umas dez vezes na tentativa de que o vento baixasse minha pressão. Era pavor de infância. A tia tinha os cabelos loiros armados pelos bobes e laquê, parecendo um capacete amarelo a envolver o rosto redondo e reluzente. Sem a tática, seriam tão escorridos que realçariam as orelhas levemente de abano. As olheiras ficavam mais profundas quando me encarava com os olhos azuis transparentes e as pupilas imensas. Mas o que me assustava mais eram os dentes tortos e amarelos com destaque para os caninos protuberantes, os lábios murchos e a língua venenosa de sempre comentar algo sobre a vida alheia. Ela adorava sorrir com as narinas dilatadas ao entrar no quarto para dar boa noite, acenando com o braço pelancudo. Vista debaixo, eu imaginava as nuvens escuras soltando raios sobre a cabeça dela. Só ia à sua casa por causa das primas, e se algum dia eu a tivesse presenciado com uma capa preta certeza que desenvolveria problemas sérios de insônia.
A voz rouca do desconhecido permanecia no mesmo assunto. Abri a cortina para sair das trevas. O sol batia direto na cama, e eu não conseguia mais ficar deitada. Permaneci muda a maior parte do tempo da ligação, apenas absorvendo o monólogo e tentando confabular como ele sabia de tanta coisa da família. Ele dava detalhes dos momentos em que a tia Lorena teve inveja de mim. Quanto mais eu brilhava na minha carreira de engenheira, mais ela se afundava em pensamentos vingativos, talvez porque as minhas primas não tenham tido tanto sucesso nos seus trabalhos de professora e vendedora.
Ele contou que ela quase não me salvou de um perrengue quando eu tinha quatro anos. Coloquei vários enfeites de bolinha de festa dentro do nariz. As duas narinas entupidas de esferas prateadas faziam com que eu respirasse somente pela boca. Pelo desespero, em pouco tempo não conseguiria mais aguentar. Me debatia e pedia ajuda. A tia observava a cena sem reagir, sentada no sofá, apenas apreciando meu sufoco. Foi quando minha mãe entrou na sala, viu o que estava acontecendo e daí pediu que a tia usasse suas unhas grandes para ajudar a tirar as bolas do nariz.
O desconhecido também falou de quando uma das minhas primas, filha dessa tia, me pegou pelo cabelo e começou a girar. Ele narrou exatamente as palavras de incentivo que saíam da língua venenosa e dos lábios murchos da tia, ensinando a própria filha a me maltratar. “Puxe mais forte essa crina, aperte bem a mão e só pare de rodar quando essa pirralha cair”, ela gritava no quintal de sua casa, sentindo o rei na barriga decerto.
Em geral, o homem dizia que inconscientemente eu conseguia me defender dos acessos da tia. No entanto, algumas vezes ela triunfava – e comemorava. Segundo o desconhecido, foi ela que meteu o olho gordo quando meu namoro estava quase avançando para um casamento. Claro, meu homem era o suprassumo da beleza e inteligência. Pelo jeito, ela não conseguiria viver em paz caso eu fosse bem-sucedida no trabalho e no amor. Ao saber que meu relacionamento havia terminado, aliás de uma forma tão repentina que não entendi bem à época, a tia dedicou a tarde toda para fazer seu famoso bolo de nozes, daqueles com vários andares que só têm em festas de casamento, mas com um detalhe: ela nunca me chamava para suas comemorações intimistas. Ela celebrava com ela mesma. Nem as primas participavam. Hoje em dia até agradeço por não ter comido o bolo. Depois que cresci, evitei ir até sua casa. Não queria que ela ficasse bisbilhotando minha vida. Fico imaginando aquelas unhas vermelhas grandes esfregando na massa do doce ao cortar as fatias com a faca, além dos raios iluminando o capacete amarelo e do sorriso sombreado pelo nariz. Se ela passava a noite toda comendo sozinha o bolo inteiro, no dia seguinte provavelmente ela tinha diarreia ou algo assim e aquelas unhas… Não, melhor não pensar nessa parte.
Sem que eu respondesse nada, o homem continuava a contar os casos da tia Lorena. Me falou que conseguia escutar o que eu estava pensando e que havia entendido que eu queria saber mais sobre a maldição familiar. Errado ele não estava, mas comecei a desconfiar de que talvez ele queria ganhar algo ou fazer alguma chantagem, já que estava gastando tanto tempo na ligação. Provavelmente eu estava enganada porque ele parecia sentir prazer em delatar a tia. Era uma tática diferente das ciganas do centro, que falam as mesmas coisas para todas as mulheres e, dependendo da reação, fazem pequenas adaptações nas histórias – claro, depois de devidamente pagas. “Tem um homem secreto apaixonado por você” ou “cuidado com a saúde de alguém na família”. No caso do desconhecido, até então não havia tratado nada sobre dinheiro comigo, o que me fazia me questionar ainda mais sobre suas intenções, principalmente por ter muitas informações sobre minha família.
Com tantas revelações, me sentia dentro de um furacão, girando sem parar e sem saber o que dizer. De repente, o homem ficou quieto. Pensei que ele havia desligado, mas ouvia sua respiração. Se ele “escutou” que eu duvidava dele, não tinha muito o que fazer. Poderia desligar o telefone e esquecer, mas perguntei seu nome e o que ele queria, no que respondeu: “Não importa como me chamo. Sou um parapsicólogo e só quero te ajudar”. A fala dele em nada me acalmou. Ele questionou novamente, agora mais incisivo, sobre a Rosália, dessa vez pronunciando com ó. Estava na cara e eu não tinha me dado conta de que não era da Rosália que ele falava, e sim da vó Zália. Assim que contei para ele o nome da avó, percebi que tinha caído no truque das ciganas, mas, em vez de tentar adaptar a história, ele disse que a conversa por telefone sofreu interferência e por isso não conseguiu acertar o nome de primeira.
Sem contar mais histórias, o homem me pediu muita atenção. Antes de falar, fez uma pausa e soltou. “A vó Zália, sua rainha, está em perigo. Você precisa ficar do lado dela para evitar que algo ruim aconteça. Sua tia quer mais carniça”. O problema é que não moramos na mesma cidade, e ele complementou: “vá agora!”. Pensei no caô das ciganas sobre a saúde dos familiares. Não era possível que o rapaz dedicou tanto tempo no telefone para no final dar o migué mais migué imaginável. Se a tia fosse filha da minha avó, eu teria decidido não me meter na história. Cada um com seus problemas. Mas como a tia é nora da minha avó e meu tio é um banana, optei por viajar só para ver como ela estava. Não custava nada. Desliguei o telefone sem agradecer.
Rumo ao oeste, o urubu preto me encontra bem quando me questionava sobre o desconhecido. Mergulhei no papo dele por impulso. A tia é tão má assim? A avó realmente precisa da minha companhia? Esse bicho está vivo ou morto? Tento entender o tipo de presságio que me espera. No carro ainda em movimento, agora é a pelanca do bico do urubu que me olha. Fico girando num looping infinito sem conseguir encontrar um caminho para seguir viagem.
