O cheiro do jasmim

por Américo Paim

Pela janela quadrada, um vento insistente sacudia cortinas e cabelos e confirmava que o jasmineiro estava em flor. Dona Vivinha, irrequieta, roliça, lenço na cabeça e vestido com estampas, que morava do outro lado da rua, foi quem chamou o médico. Doutor Tertuliano, entre 30 e 40, forte, cabelo bem curto e orelhas quase de abano, há pouco tempo na cidade, conversou com Joana.

– Desde quando ela está assim?

– Sete dias hoje.

– Muito tempo.

– Começou assim que ele foi embora.

– Quem?

– Deixa isso pra lá. Ela me chamou e falou que não havia mais nada.

– O que isso quer dizer?

– Coisa nossa. Só apertou minhas mãos, sorriu e se deitou.

– Nada mais?

– Pediu que a janela ficasse aberta todo o tempo.

– Por quê?

– Porque o cheiro do jasmim mantém a vida, me disse.

– Estranho.

– Quando a florada passar, o tempo irá. Foi a fala dela.

Os três olhavam Mina dormir um sono tranquilo. Os sessenta anos do corpo miúdo não lhe tiraram a beleza da expressão. Os cabelos, agora em cinza, sempre bem penteados, o rosto de queixo fino, os vincos do tempo na pele tão branca e as mãos delicadas, donas de força estranha. As pálpebras fechadas escondiam o famoso par de olhos de um azul tão claro como céu de manhã de sol. Joana, a negra linda de corpo de luta, que ela foi buscar em uma aldeia miserável perto da Passagem do Umbuzeiro, a quem criou desde os primeiros dias, tinha os mesmos olhos da mãe adotiva. Ninguém sabia explicar. Ao chegar em Pedra Velha com a menina no colo, há trinta anos, Mina virou assunto.

Joana empacou, sem saber ou querer falar mais nada. A vizinha tomou a frente e disse que estava demorando mais que das outras vezes para a amiga acordar.

– Então não é novidade?

– Joana sabe que não.

– Sim, eu bem sei.

– O que o senhor acha?

– Os sinais vitais estão normais. Não encontro causa.

– Será que isso não é do corpo?

– Aí já não é meu departamento, senhora.

– Sei não…

– Pode me contar como foi antes?

– Sim, me lembro bem.

Foram para a sala. Joana foi passar um café. Dona Vivinha, feliz por ser o centro das atenções, falou bastante. Rememorou desde a chegada de mãe e filha. Sempre foram vizinhas. Contou que Mina sofreu no começo porque o povo criava teorias, falava pelos cantos e cotovelos. Tudo por causa das cores de pele de mãe e filha. Ela foi muito paciente. Em poucas semanas, seu talento como quituteira facilitou para que tudo se ajeitasse. Sua produção culinária era desejada. Joana sofreu um pouco mais. Foi no tempo da idade escolar, ao conviver com outras crianças. Ainda assim, a vida tomou rumo de coisa pacífica. Mina era muito discreta. Trabalhava bastante e a filha brincava e crescia, como devia ser. A beleza da menina sempre chamou a atenção. Com o tempo, porém, as pessoas mudaram. O incômodo não estava mais nas diferenças, mas nas semelhanças. Os olhos das duas eram quase iguais, hipnóticos. Como aquilo poderia existir em uma criança adotada? Ninguém aceitava como normal. Voltaram as fofocas. O povo falava de abandono de marido, bruxaria e outras tantas possibilidades.

– E o sono?

– Calma, já continuo.

Em determinada época, sem razão aparente, Mina começou a plantar flores. Logo seu jardim era muito admirado. A variedade era grande e o rei era o jasmineiro, em um imenso painel, de frente para as janelas dos quartos delas. Joana, que quase não tinha amigos, amava as flores e desde cedo a mãe lhe ensinou os truques da gastronomia. Viveram em harmonia total, até a véspera do aniversário de dez anos da mocinha. O sol estava se pondo, quando Mina recebeu uma visita. Era um homem velho, roupa branca da cabeça aos pés. Tinha a pele bem escura, olhos inchados e mãos enormes. Usava chapéu de palha surrado e fumava um charuto fedido. Trazia um cachorro preto e branco, enorme, que exceto pelo tamanho, parecia normal. O estranho é que o cão tinha os mesmos olhos azuis de Mina e Joana.

– Como a senhora se lembra de tantos detalhes?

– Eu estava com ela na varanda na hora que ele chegou. Lembro bem que era o começo da florada.

– Não recordo esse dia, Dona Vivinha.

– Você era criança, Joana. E o que veio depois marcou mais.

– O que foi?

– O senhor é bem agoniado, né? Vou falar.

Mina não pareceu estranhar aquela figura. Ele não a chamou pelo nome e só lhe pediu que desse de comer e beber e ele seguiria viagem. Só os dois adentraram a casa. Vivinha foi para a sua, levando Joana, como lhe solicitou a amiga. Mais de duas horas depois, já noite alta, a mãe foi buscar a filha. Estava com expressão séria, parecia exausta e pouco falou, só agradeceu. A noite foi diferente, com muitos latidos. Ninguém tinha cachorro nas redondezas, então ficou claro que o homem foi embora, mas aquele cão permaneceu.

No dia seguinte teve a festinha. Só vieram três amigos de Joana, apesar de ter convidado bem mais. Teve bolo de laranja, o que ela mais gostava, pipoca, refrigerante e muito mais. Tudo aconteceu no jardim. Quando acabou, menos de uma hora depois, no início da noite, Mina se deitou e dormiu. Por três dias inteiros. A menina ficou assustada, foi uma agonia. O finado Doutor Carneiro examinou de baixo para cima e nada. No que acordou, levaram ao hospital. Estava tudo normal. Voltou para casa.

– Que coisa. Ninguém viu o tal homem em outro lugar da cidade?

– Não, senhor.

– Nunca perguntou nada a ela?

– Ela era discreta, já disse.

– E o que foi que veio depois e marcou?

– Está prestando atenção, né? Foi Alvinho.

– Quem?

– Ah, essa história não, por favor.

– Minha filha, já faz tanto tempo.

– O que houve, senhora? O que foi?

– Na noite do dia que Mina acordou, encontraram o corpo do menino.

– O Alvinho?

– Sim, caído em um jardim de uma casa velha no bairro alto.

– Como ele morreu?

– Nunca explicaram direito.

– Vocês conheciam o rapaz?

– Era meu colega na escola. Um dos que vieram no aniversário.

Joana ensaiou um choro. Um copo de água com açúcar resolveu. Dona Vivinha voltou à narrativa, pois Tertuliano queria saber mais sobre a criança. Na época, a família escondeu. Disse que foi veneno, mas o povo falou que foi bicho. A investigação durou anos e os pais do garoto desistiram, foram embora da cidade. O acontecido foi tratado como fatalidade e a vida voltou ao normal. Joana cresceu, sempre bonita e com poucos amigos. O prestígio de Mina, porém, não mudou e seus doces e salgados eram objeto de desejo até de gente de fora de Pedra Velha. Até que tudo veio de novo.

– Tudo o quê?

– Eu estava na sala com Mina, fim de tarde. Bateram com força na porta. Era o homem de novo.

– O que ele queria?

– Comida e bebida, a mesma história. Ele entrou e eu fui pra casa.

– E Joana estava?

– Não. Nessa época eu trabalhava na farmácia.

– Ah, já era crescida, então.

– Foi na véspera do meu aniversário de 20 anos.

– Que coincidência! Joana, por que essa cara?

– Ela fica assim porque cinco dias depois, perdeu uma amiga querida.

– Ah, desculpe trazer essa lembrança.

– Foi atacada no mesmo lugar em que Alvinho morreu.

– Sério?

– Não encontraram pistas.

A moça se levantou chorando e correu para o banheiro. Havia angústia no rosto de Tertuliano. A vizinha completou a história, dizendo que o crime foi na noite em que Mina acordou.

– Então ela dormiu outra vez depois da festa?

– E só acordou cinco dias depois.

– Que coisa.

– Nem aproveitou a florada do jasmineiro.

– A amiga de Joana veio ao aniversário?

– Estela? Coitada, foi a última a sair.

– Que triste.

– Ah, lembrei de uma coisa.

– O quê?

– Quando ela despertou, o cão uivou por muito tempo.

– Por que lembrou agora?

– Porque foi assim também dez anos antes, na primeira crise.

Intrigado com as histórias, o médico examinou Mina de novo. Tudo normal. Seu sono parecia de completa paz. Voltou à sala, em busca de mais detalhes. Dona Vivinha estava só. Joana tinha ido para o quarto. Aquela conversa lhe deixou extenuada.

– Voltarei amanhã para monitorar os sinais.

– Eu estarei aqui. Joana precisa fazer uma viagem de tardezinha.

– Com a mãe nessas condições?

– Pois é, apelei, mas não adiantou. Disse que é promessa de aniversário de 30 anos.

– Ah, lembro da comemoração. A senhora me trouxe…

– Pois é, pensei que ela fosse se interessar e tal e coisa…

– Vamos mudar a conversa?

– Já são sete dias daquela festa.

– É verdade. Será que Dona Mina vai acordar?

– Quem sabe? O senhor vem que horas?

– No fim da tarde. Tenho consultório. Se precisar antes, é só avisar.

Se despediram. Joana permaneceu no seu quarto.

No dia seguinte, Tertuliano, ainda muito cismado com tudo, apurou com a vizinhança que morava na mesma casa onde aconteceram as mortes, dez e vinte anos antes. Joana, por sua vez, estava pronta para viajar à Passagem do Umbuzeiro. A pedido da mãe, ia ver uma criança recém-nascida de olhos azuis muito claros. Após o almoço, foi ao quintal. O cachorro não estava lá. Foi ao quarto de Mina. Falou sem saber se era ouvida. Ela sentiu uma estranheza.

À tardinha, Tertuliano e Joana saíram pela porta da frente de suas casas e ouviram, claro e forte, o uivo de um cão. Ele sentiu estranheza. Ela olhou para a janela da mãe. Não sentiu mais cheiro de jasmim.

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