
Ou melhor, tá ucraniano. Afinal, Nikolai Gógol, um dos maiores escritores russos de todos os tempos, nasceu na Ucrânia, em Soroshytsin. Mas escreveu em russo, portanto é reinvindicado por ambos os países. Fato é que toda a literatura russa do século 19 descende de “O capote”, de Gógol, como Dostoiévski irá cravar: tanto o realismo quanto o realismo fantástico ganharam tratamento moderno em seus contos tragicômicos, protagonizados por pequenos burocratas oprimidos pela sombra do Império Russo. Aqui tem um link para o conto inteiro.
O nariz
No dia 25 de março, ocorreu, em São Petersburgo, um acontecimento
incomum e estranho. O barbeiro Ivan Iákovlevitch, que vivia na avenida
Voznessiénski (seu sobrenome perdeu-se,1 e até na fachada — em que está
retratado um senhor com a bochecha ensaboada e a inscrição “também sangrase”
— não se lê nada mais); o barbeiro Ivan Iákovlevitch acordou bem cedo e
sentiu cheiro de pão quente. Soerguendo-se um pouco na cama, ele viu que sua
esposa, senhora bastante respeitável, que gostava muito de tomar café, tirava do
forno uns pães que acabavam de ser assados.
— Hoje não tomarei café, Praskóvia Óssipovna — disse Ivan Iákovlevitch
—, mas, em vez disso, quero comer pãozinho quente com cebola. (Ou seja, Ivan
Iákovlevitch gostaria tanto de um quanto do outro, mas sabia que era totalmente
impossível exigir as duas coisas de uma vez, pois Praskóvia Óssipovna não
gostava nada de tais caprichos.) “Que o tolo coma o pão, melhor para mim”,
pensou consigo a esposa: “sobra um pouco mais de café”. E jogou um pão sobre
a mesa.
Ivan Iákovlevitch, por decência, vestiu uma casaca por cima da camisa e,
sentando-se diante da mesa, espalhou o sal, preparou duas cabeças de cebola,
tomou nas mãos a faca e, fazendo uma expressão de importância, pôs-se a cortar
o pão. Depois de parti-lo em duas metades, olhou para o miolo e, para sua
surpresa, viu algo esbranquiçado. Ivan Iákovlevitch cavoucou cuidadosamente
com a faca e apalpou-o com o dedo: “É sólido?”, disse consigo mesmo. “Mas o
que seria isso?”
Enfiou os dedos e tirou dali… um nariz! Ivan Iákovlevitch até soltou os
braços; começou a esfregar os olhos e a apalpar: um nariz, era mesmo um nariz!
E ainda parecia ser de alguém conhecido. O horror transpareceu no rosto de Ivan
Iákovlevitch. Mas aquele horror não era nada se comparado à indignação que
tomou conta de sua esposa.
— Onde é que você foi decepar um nariz, seu animal? — pôs-se ela a gritar,
em fúria. — Seu vigarista! Seu bêbado! Eu mesma vou denunciá-lo à polícia.
Mas que bandido! Pois eu já tinha ouvido de três pessoas que você, na hora de
barbear, repuxa tanto os narizes, que eles mal se seguram no lugar.
Mas Ivan Iákovlevitch estava mais morto que vivo. Ele percebera que aquele
nariz era de ninguém menos que do assessor colegial Kovaliov, que ele barbeava
todas as quartas-feiras e domingos.
— Espere, Praskóvia Óssipovna! Vou colocá-lo num cantinho, enrolado
num trapo: que fique lá um pouquinho; depois eu o levo para fora.
— Nem quero ouvir! Eu vou lá permitir que um nariz decepado fique aqui
na minha sala?… Seu turrão mirrado! A única coisa que sabe fazer é afiar a
navalha, e logo não terá condição nenhuma de cumprir o seu dever, seu
vagabundo, miserável! Eu lá vou responder à polícia por você?… Ah, seu
porcalhão, seu bronco estúpido! Fora com ele daqui! Fora! Leve aonde quiser!
Não quero sentir nem o cheiro dele!
Ivan Iákovlevitch estava totalmente mortificado. Ele pensava, pensava — e
não sabia o que pensar. “Sabe lá o diabo como isso foi acontecer”, disse ele,
afinal, coçando atrás da orelha com a mão. “Se ontem eu voltei bêbado ou não,
não consigo dizer ao certo. Mas, a julgar pelos indícios, deve ser um acidente
impensável: pois o pão é uma coisa que se assa, e o nariz não é de jeito nenhum.
Não entendo nada!…” Ivan Iákovlevitch calou-se. A ideia de que os policiais
pudessem descobrir um nariz em sua casa e acusá-lo deixou-o completamente
fora de si. Ele já conseguia enxergar aquela gola escarlate, com belos bordados
prateados, a espada… e seu corpo inteiro estremeceu. Finalmente, ele alcançou
suas vestes de baixo e suas botas, enfiou-se naquelas porcarias e, acompanhado
pelas nada leves reprimendas de Praskóvia Óssipovna, embrulhou o nariz num
trapo e saiu para a rua.
Queria enfiá-lo em qualquer lugar: ou num frade de pedra debaixo de um
portão, ou deixá-lo cair de algum jeito, sem querer, e então dobrar numa
travessa. Mas, para o azar dele, surgia um conhecido, que começava
imediatamente interpelando: “aonde está indo?”, ou “quem é que pretende
barbear tão cedo?”, de maneira que Ivan Iákovlevitch não conseguia de modo
algum encontrar o momento certo. Numa outra vez, ele já o deixara cair, afinal,
mas o guarda-cancela, lá de longe, apontou-lhe com a alabarda, enquanto
proferia: “Pegue! você derrubou alguma coisa ali!”. E Ivan Iákovlevitch teve que
apanhar o nariz e guardá-lo no bolso. O desespero tomou conta dele, ainda mais
porque o povo multiplicava-se incessantemente na rua, conforme as lojas e as
vendinhas começavam a abrir.
Ele decidiu ir até a ponte Issaákievski: será que conseguiria de algum jeito
jogá-lo no rio Nevá?…
Mas eu me sinto um pouco culpado por até agora não ter dito nada a respeito
de Ivan Iákovlevitch, homem respeitável em muitos aspectos.
Ivan Iákovlevitch, como qualquer artesão russo digno, era um bêbado
terrível. E, embora barbeasse todos os dias o queixo alheio, o dele mesmo estava
eternamente por fazer. A casaca de Ivan Iákovlevitch (Ivan Iákovlevitch nunca
usava sobrecasaca) era malhada, ou seja, ela era preta, mas cheia de pintas de um
amarelo acastanhado ou cinzento; a gola era lustrosa; e, em vez de três botões,
pendiam apenas uns fiozinhos. Ivan Iákovlevitch era um grande cínico, e,
quando o assessor colegial Kovaliov, como de costume, dizia-lhe, durante o
barbear: “as suas mãos sempre fedem, Ivan Iákovlevitch”, então Ivan
Iákovlevitch respondia com a pergunta: “e por que será que elas fedem?”. “Não
sei, meu irmãozinho, mas fedem”, respondia o assessor colegial, e Ivan
Iákovlevitch, depois de cheirar um pouco de rapé, ensaboava-o, por causa disso,
tanto a bochecha, como debaixo do nariz, e atrás da orelha, e debaixo da barba,
resumindo, onde quer que lhe desse vontade.
Aquele respeitável cidadão encontrava-se já na ponte Issaákievski. Antes de
mais nada, ele olhou ao redor; depois, debruçou-se no parapeito, como se
buscasse ver se debaixo da ponte havia muitos peixes passando, e atirou às
escondidas o trapo com o nariz. Ele sentiu como se dez pudes2 tivessem sido
tirados de cima dele, de uma só vez: Ivan Iákovlevitch até deu um sorriso. Em
vez de ir barbear os queixos dos funcionários públicos, dirigiu-se a um
estabelecimento com a inscrição “Refeições e chá”, para pedir um copo de
ponche, quando, de repente, percebeu, no fim da ponte, o inspetor do quarteirão,
de nobre aparência, com amplas suíças, um chapéu tricorne, de espada. Ele ficou
petrificado; e, enquanto isso, o inspetor do quarteirão apontou-lhe o dedo e disse:
— Mas venha cá, meu caro!
Ivan Iákovlevitch, conhecendo o uniforme, tirou já de longe o quepe,
aproximou-se lepidamente e disse:
— Desejo saúde a vossa honra!
— Não, não, meu irmãozinho, sem essa de vossa honra; diga-me, o que você
estava fazendo ali, parado na ponte?
— Juro, meu senhor, estava indo barbear alguém, só quis ver se o rio corria
muito veloz.
— Mentira, mentira! Não vai se safar com essa. Faça o favor de responder!
— Estou disposto a barbear vossa mercê duas vezes por semana, ou até três,
sem qualquer objeção — respondeu Ivan Iákovlevitch.
— Não, meu amigo, isso não é nada! Eu sou barbeado por três barbeiros, e
eles ainda consideram uma grande honra. Mas agora faça o favor de contar, o
que estava fazendo ali?
Ivan Iákovlevitch empalideceu… Mas aqui o incidente torna-se
completamente nebuloso, e, sobre o que aconteceu a seguir, não se sabe
rigorosamente nada.
__
1 “Iákovlevitch” pode parecer um sobrenome, mas é o patronímico. Na Rússia, as pessoas têm um nome
(no caso, Ivan), um patronímico, que é formado pelo nome do pai mais um sufixo (aqui, Iákovlevitch) e um
sobrenome, que neste caso é desconhecido. [N. de T.]
2 O pud é uma antiga unidade de medida russa, equivalente a 16,4 kg. [N. de T.]
PROPOSTA
Bem, é isso o que você vai fazer: investigar o desaparecimento de uma parte do corpo de alguém.
Primeiro defina o registro em que vai trabalhar: seu texto é fantasia, realista, realista fantástico? Isso é bem importante para o que você vai querer realizar.
Copie rigorosamente a estrutura da noveleta de Gógol.
Você pode atacar o problema pelo lado A:
Um dia normal, em um lugar normal, uma vida normal de alguém, aparece… o pedaço de um corpo.
De quem será? o que fazer com este fragmento? como ele foi parar lá?
Você também pode atacar a questão pelo lado B:
Um dia normal, em um lugar normal, uma vida normal, alguém desperta… sem uma parte do corpo.
Como isso foi acontecer? Aconteceu do nada? É possível viver sem esta parte do corpo?
Você pode escolher narrar só o lado A ou só o lado B.
Ou você também pode narrar em paralelo: contar, de um lado A, o surgimento da coisa, e, do lado B, o sumiço da coisa. Até fundir os dois lados, no desfecho.
Use 20% do seu texto para apresentar “a vida normal”, 5% para apresentar o conflito, 70% para desenvolver o conflito e 5% para dar o desfecho.
Conte na terceira pessoa, em uns 8 mil toques.
