
Mikhail Bulgákov é autor de uma das maiores maravilhas da literatura russa, O Mestre e Margarida. Livro favorito dos rockstars desde que Mick Jagger o usou como inspiração para escrever “Sympathy for the devil”, o livro foi proscrito na União Soviética durante praticamente todo o século 20 – assim como Bulgákov, depois que caiu em desgraça com o regime comunista. Afinal, nada menos afeito ao realismo socialista do que este romance sobre a visita de certo sujeito mefistofélico – que de vez em quando assume a figura de um gato – a uma vila russa, e as fantasiosas peripécias que provoca. Evidentemente o texto abaixo foi surrupiado do nosso querido site russo.
O MESTRE E MARGARIDA
1
Nunca falem com estranhos
Na hora de um quente pôr do sol primaveril, surgiram dois cidadãos em
Patriarchi Prudý. O primeiro, com aproximadamente quarenta anos, trajava um
costume cinza de verão, era de estatura baixa, cabelos escuros, rechonchudo,
careca, na mão seu respeitável chapéu Fedora. Óculos de tamanho sobrenatural
de armação preta de chifre ornavam seu rosto cuidadosamente escanhoado. O
segundo era um jovem de ombros largos, arruivado, hirsuto, com um boné
xadrez caído na nuca, camisa de caubói, calças brancas amarrotadas e tênis
pretos.
O primeiro era nada mais nada menos que Mikhail Aleksándrovitch
Berlioz, editor de uma volumosa revista de arte e presidente do conselho
administrativo de uma das maiores associações literárias de Moscou,
abreviadamente denominada Massolit.1 Já seu jovem acompanhante era o poeta
Ivan Nikoláievitch Ponyriov, que escrevia sob o pseudônimo de Bezdômny.2
Assim que entraram na sombra das tílias verdejantes, os escritores se
precipitaram para um quiosque multicolorido com a placa “Cerveja e refrescos”.
Sim, convém destacar a primeira esquisitice desse terrível entardecer de
maio. Não só perto do quiosque, mas também em toda a aleia paralela à rua
Málaia Brônnaia, não havia vivalma. Naquela hora, quando não se tinha forças
nem para respirar, quando o sol, após incandescer Moscou, mergulhava numa
neblina seca em algum lugar de Sadôvoie Koltsô, ninguém viera para a sombra
das tílias, ninguém se sentara no banco, a aleia estava vazia.
— Uma água com gás — pediu Berlioz.
— Não tem — respondeu a mulher do quiosque, e sabe-se lá por que se
ofendeu.—
Tem cerveja? — quis saber Bezdômny, com a voz rouca.
— Vão trazer mais tarde — respondeu a mulher.
— Então tem o quê? — perguntou Berlioz.
— Refresco de damasco, e só quente — disse a mulher.
— Então vai, pode ser, pode ser!…
O refresco de damasco formou uma espuma densa e amarela, surgiu no ar
um cheiro de cabeleireiro. Depois de beberem, os literatos imediatamente
começaram a soluçar, pagaram e sentaram-se no banco, de frente para o lago e
de costas para a Brônnaia.
Nesse momento, ocorreu a segunda esquisitice, que só tinha a ver com
Berlioz. Ele parou de soluçar repentinamente, seu coração bateu e, num rufo,
sentiu como se tivesse despencado para algum lugar e depois voltado, mas com
uma agulha cega cravada nele. Além disso, Berlioz foi tomado por um medo
infundado, mas tão forte, que teve vontade de sair correndo imediatamente de
Patriarchi, sem olhar para trás.
Berlioz olhou em volta angustiado, sem entender o que o assustara tanto.
Empalideceu, enxugou a testa com um lenço e pensou: “O que está acontecendo
comigo? Nunca senti isso… o coração está falhando… estou esgotado… Acho que
está na hora de mandar tudo para o inferno e ir para Kislovôdsk…”3
Na mesma hora, o ar tórrido condensou-se diante dele e desse ar fez-se
um cidadão transparente, de aspecto estranhíssimo. Na pequena cabeça, um boné
de jóquei, um paletó xadrez apertado e também vaporoso… Um cidadão de
estatura colossal, mas de ombros estreitos, incrivelmente magro e de fisionomia,
quero destacar, zombeteira.
A vida de Berlioz transcorria de tal modo que ele não estava acostumado
a fenômenos extraordinários. Empalidecendo ainda mais, ele esbugalhou os
olhos e pensou, confuso: “Isso não pode ser real!”
Mas infelizmente era real, e através daquilo se via um cidadão alongado
e transparente, que balançava diante dele, ora para a esquerda ora para a direita,
sem tocar no chão.
Nesse instante, o pavor tomou conta de Berlioz de tal forma que ele
fechou os olhos. Quando os abriu, viu que tudo tinha acabado, a miragem
evaporara, o xadrez desaparecera e, a propósito, a agulha cega se desprendera de
seu coração.
— Ê, diabo! — exclamou o editor. — Sabe, Ivan, quase tive um ataque
cardíaco por causa do calor! Tive até mesmo um tipo de alucinação… — tentou
sorrir, mas a aflição ainda saltava aos olhos e as mãos tremiam. Acalmou-se aos
poucos, abanou-se com o lenço e pronunciou bastante animado: — Bem, então…
— retomou a conversa interrompida pelo refresco de damasco.
A conversa, como descobriram posteriormente, era sobre Jesus Cristo. É
que o editor havia encomendado ao poeta um grande poema antirreligioso para o
próximo número da revista. Ivan Nikoláievitch escrevera o poema, e até num
prazo bastante curto, mas, infelizmente, o resultado não satisfizera o editor.
Bezdômny esboçou o personagem principal de seu poema, ou seja, Jesus, com
tintas muito escuras e, no entanto, o poema todo deveria, na opinião do editor,
ser reescrito. E agora o editor dava ao poeta uma espécie de aula sobre Jesus,
para destacar o principal erro que ele havia cometido.
Difícil dizer o que exatamente traiu Ivan Nikoláievitch — se foi a força
figurativa de seu talento ou a total ignorância do tema sobre o qual escreveu —,
mas seu Jesus saiu assim, perfeitamente verdadeiro, um Jesus que havia
realmente existido, só que, na verdade, um Jesus provido de todos os traços
negativos.
Berlioz, por sua vez, queria provar ao poeta que o importante não eram
as qualidades de Jesus, boas ou ruins, mas que esse Jesus, como personalidade,
jamais existira no mundo e que todas as histórias sobre ele eram simples
invenções, o mito mais comum.
É necessário observar que o editor era uma pessoa culta e, com muita
desenvoltura, referia-se aos antigos historiadores em sua fala, por exemplo, ao
famoso Fílon de Alexandria e ao brilhantemente educado Flávio Josefo, que
nunca haviam dito sequer uma palavra sobre a existência de Jesus.
Demonstrando uma erudição sólida, Mikhail Aleksándrovitch informou ao
poeta, entre outras coisas, que aquele trecho, no quadragésimo quarto capítulo do
décimo quinto livro dos famosos Anais de Tácito, no qual se relata a execução
de Jesus, era nada mais, nada menos, que uma falsa e tardia inserção.
O poeta, para quem tudo o que estava sendo informado pelo editor era
novidade, ouvia atentamente Mikhail Aleksándrovitch, cravando nele seus olhos
verdes e vivos, e soluçando, volta e meia xingando baixinho o refresco de
damasco.—
Não há nenhuma religião oriental — dizia Berlioz — na qual, por via
de regra, uma virgem não dê à luz um deus. Os cristãos, sem inventar nada de
novo, criaram da mesma forma seu Jesus que, na realidade, nunca esteve entre os
vivos. É a isso que você deve dar mais ênfase.
O tenor alto de Berlioz ecoava na aleia deserta e, à medida que Mikhail
Aleksándrovitch se embrenhava mais e mais no assunto, o que somente um
homem culto poderia se permitir sem quebrar a cara, o poeta descobria mais e
mais coisas interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus e filho
benevolente do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre Marduque da
Babilônia e, até mesmo, sobre o menos famoso e terrível deus Vitzliputzli, muito
referenciado outrora no México pelos astecas.
No exato momento em que Mikhail Aleksándrovitch contava ao poeta
como os astecas esculpiram a figura de Vitzliputzli de massa, surgiu a primeira
pessoa na aleia.
Posteriormente, quando, falando francamente, já era tarde demais,
diferentes instituições apresentaram seus informes com a descrição dessa pessoa.
A comparação dos informes não pôde deixar de causar admiração. O primeiro
dizia que ela era de estatura baixa, dentes de ouro e que mancava da perna
direita. O segundo, que tinha um tamanho enorme, as coroas dos dentes de
platina e que mancava da perna esquerda. O terceiro informava laconicamente
que essa pessoa não possuía quaisquer sinais especiais.
Deve-se reconhecer que nenhum desses informes valia coisa alguma.
Ou seja: a pessoa descrita não mancava de nenhuma das pernas, sua
estatura não era nem baixa nem enorme, mas simplesmente alta. Em relação aos
dentes, do lado esquerdo as coroas eram de platina e, do lado direito, de ouro.
Trajava um terno caro, cinza, e sapatos estrangeiros, da mesma cor que o terno.
Usava uma boina cinza, colocada à banda em uma das orelhas, e embaixo do
braço trazia uma bengala com um castão preto em forma de cabeça de poodle.
Aparentava uns quarenta e poucos anos. A boca era meio torta. Bem escanhoado.
Moreno. O olho direito era preto, e o esquerdo, sabe-se lá por quê, verde. As
sobrancelhas negras, uma mais alta do que a outra. Numa palavra, era
estrangeiro.
Ao passar em frente ao banco em que se encontravam o editor e o poeta,
o estrangeiro olhou-os de soslaio, parou e de repente sentou-se no banco vizinho,
a dois passos dos colegas.
“Alemão…”,4 pensou Berlioz.
“Inglês…”, pensou Bezdômny. “Hum, e mesmo de luvas não está com
calor.”
O estrangeiro lançou um olhar para os prédios altos, que, em forma de
quadrado, margeavam o lago, e notou-se que ele via esse lugar pela primeira vez
e que isso despertava seu interesse.
Ele deteve seu olhar nos andares superiores que, ofuscantes, refletiam em
seus vidros o sol partido, que para sempre deixaria Mikhail Aleksándrovitch, e
logo voltou o olhar para baixo, onde os vidros começavam a escurecer,
crepusculares. Sorriu indulgente por causa de algo, apertou os olhos, pousou as
mãos no castão e o queixo sobre as mãos.
— Você, Ivan — dizia Berlioz —, representou muito bem e
satiricamente, por exemplo, o nascimento de Jesus, o filho de Deus, mas o que
importa é que, antes de Jesus, houve uma série de filhos de Deus, como,
digamos, o Adônis fenício, o Átis frígio e o Mitra persa. Em suma, nenhum deles
nunca nasceu nem nunca existiu, inclusive Jesus, e é necessário que você, no
lugar do nascimento ou, suponhamos, da chegada dos Reis Magos, escreva sobre
os boatos disparatados dessa chegada. Senão, pelo que você conta, parece que
ele realmente nasceu!…
Então Bezdômny prendeu a respiração numa tentativa de cessar o soluço
que o torturava, o que fez o soluço ficar ainda mais alto e torturante, e nesse
mesmo momento Berlioz interrompeu sua fala porque o estrangeiro havia se
levantado repentinamente e caminhava em direção aos escritores.
Os dois olharam para ele admirados.
— Desculpem-me, por favor — falou o recém-chegado, com um forte
sotaque estrangeiro, mas sem estropiar as palavras —, que eu, sendo um
estranho, tome a liberdade… mas o assunto de sua conversa erudita é tão
interessante que…
Então ele tirou a boina de maneira educada e aos amigos não restava
mais nada a não ser se erguer e cumprimentá-lo.
“Não, está mais para francês…”, pensou Berlioz.
“Polaco?…”, pensou Bezdômny.
É preciso acrescentar que, desde as primeiras palavras, o estrangeiro
causou uma impressão abominável no poeta, enquanto Berlioz parecia ter
gostado dele, ou melhor, não que tivesse gostado, mas… como se diz… ele havia
despertado seu interesse, ou algo do gênero.
— Permitam-me sentar? — pediu o estrangeiro de forma educada, e os
colegas, como que involuntariamente, abriram um espaço; o estrangeiro sentouse
comodamente entre os dois e, no mesmo instante, tomou parte na conversa:
— Se não ouvi mal, o senhor disse que Jesus não existiu neste mundo? —
perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz seu olho esquerdo, verde.
— Não, o senhor não ouviu mal — respondeu Berlioz com cortesia. —
Falei exatamente isso.
— Ah, que interessante! — exclamou o estrangeiro.
“O que diabos ele quer?”, pensou Bezdômny, franzindo a testa.
— E o senhor concordava com seu interlocutor? — quis saber o
desconhecido, virando-se para a direita, para Bezdômny.
— Cem por cento! — confirmou Bezdômny, que gostava de se expressar
de forma afetada.
— Incrível! — exclamou o interlocutor intrometido e, sabe-se lá por quê,
olhou furtivamente ao redor e, abafando sua voz grave, disse: — Desculpem a
minha impertinência, mas eu entendi de tal forma que, além de tudo, não
acreditam em Deus? — Ele fez um olhar assustado e acrescentou: — Juro que
não direi a ninguém.
— É, não acreditamos em Deus — respondeu Berlioz sorrindo de leve
diante do susto do turista estrangeiro —, mas pode falar disso com total
liberdade.
O estrangeiro reclinou-se no encosto do banco e perguntou com voz
esganiçada pela curiosidade:
— São ateus?!
— É, somos ateus — respondeu Berlioz, sorrindo, e Bezdômny,
enfurecido, pensou: “Pronto, esse estrangeiro já está querendo armar confusão!”
— Oh, que graça! — gritou o estrangeiro, surpreendido, e pôs-se a mover
a cabeça, olhando ora para um, ora para o outro beletrista.
— Em nosso país o ateísmo não surpreende ninguém — disse Berlioz,
diplomático e educado. — A maioria da nossa população deixou de crer,
conscientemente, nos contos de fada sobre Deus há muito tempo.
Então o estrangeiro aprontou a seguinte peça: pôs-se de pé e apertou a
mão do editor pasmo, pronunciando as seguintes palavras:
— Permita-me agradecer-lhe de todo o coração!
— Por que o senhor lhe agradece? — quis saber Bezdômny, piscando.
— Pela informação muito importante, que, para mim, um viajante, é
interessante demais — explicou o estrangeiro esquisitão, levantando o dedo de
forma significativa.
A informação importante, pelo visto, realmente provocou no viajante
impressões fortes, tanto que ele lançou um olhar para os prédios, assustado,
como se temesse avistar em cada janela um ateu.
“Não, não é inglês, não…”, pensou Berlioz, e Bezdômny pensou: “Onde
ele aprendeu a falar russo assim? Isso é o interessante!”, e franziu a testa
novamente.
— Mas permitam-me perguntar — começou a dizer o visitante
estrangeiro depois de uma reflexão inquietante —, o que fazer com as provas da
existência de Deus que, como se sabe, são precisamente cinco?
— Oh, céus! — respondeu Berlioz com desgosto. — Nenhuma dessas
provas vale nada e a humanidade há muito tempo as deixou de lado. O senhor há
de convir que, à luz da razão, não pode haver nenhuma prova da existência de
Deus.
— Bravo! — bradou o estrangeiro. — Bravo! O senhor repetiu na íntegra
a ideia do preocupado e velho Immanuel sobre o assunto. Mas veja o curioso: ele
destruiu definitivamente as cinco provas e depois, como que zombando de si
mesmo, criou sua própria sexta prova!
— A prova de Kant — exclamou o culto editor com sorriso fino — é
também inconsistente. Não é à toa que Schiller dizia que os argumentos
kantianos sobre essa questão podem satisfazer somente escravos, e Strauss
simplesmente riu dessa prova.
Berlioz falava e pensava consigo: “Quem será ele? E por que fala russo
tão bem?”
— Tinham de pegar esse Kant e prender uns três anos em Solôvki por
causa dessas provas! — Ivan deixou escapar de repente.
— Ivan! — sussurrou Berlioz sem jeito.
Mas a proposta de enviar Kant a Solôvki não apenas não espantou o
estrangeiro, como também o levou ao êxtase.
— Isso, isso mesmo — gritou ele, e seu olho esquerdo, verde, virado
para Berlioz, começou a brilhar —, o lugar dele é lá! Pois eu disse a ele uma vez,
durante o café da manhã: “O senhor é o mestre, a vontade é sua, mas inventou
algo disparatado. Pode ser que seja inteligente, mas é incompreensível demais.
Vão gozar da sua cara.”
Berlioz esbugalhou os olhos. “Durante o café da manhã… falou com
Kant? O que ele estará tramando?”, pensou.
— Porém — prosseguiu o forasteiro, sem se incomodar com o assombro
de Berlioz e virando-se para o poeta —, é impossível enviá-lo a Solôvki, pelo
simples fato de que ele, já há cento e poucos anos, se acha em lugares muito
mais distantes do que Solôvki, e não dá para tirá-lo de lá de jeito nenhum,
garanto ao senhor!
— Uma pena! — replicou o poeta encrenqueiro.
— Também acho uma pena — confirmou o desconhecido com o olhar
cintilante, e prosseguiu: — Mas eis a questão que me preocupa: se não há Deus,
então pergunta-se, quem administra a vida humana e, em geral, toda a ordem na
terra?
— O próprio ser humano — o enfurecido Bezdômny apressou-se em
responder essa questão admitidamente não muito clara.
— Perdão — replicou docilmente o desconhecido —, mas para governar,
queira ou não queira, é necessário possuir um plano preciso com alguns prazos
estabelecidos, nem que seja o mínimo. Permita-me perguntar: como é que pode o
ser humano governar, se não apenas não tem condições de fazer qualquer plano,
mesmo que seja com um prazo ridiculamente curto de, digamos, uns mil anos,
como também é incapaz de garantir sequer seu dia de amanhã? E realmente — o
desconhecido virou-se para Berlioz — imagine, por exemplo, que o senhor
comece a governar, dispondo de sua vida e da vida de outras pessoas, e então
passe a tomar gosto pela coisa e, de repente, o senhor… hum… hum… descobre
que está com câncer de pulmão… — o estrangeiro sorriu docemente, parecia que
a ideia do câncer lhe dava prazer —, é, câncer — repetiu a palavra sonora e
apertou os olhos feito um gato —, pronto, seu governo chegou ao fim! Não lhe
interessa o destino de mais ninguém, somente o seu.
“Os parentes começam a mentir para o senhor. Pressentindo algo errado,
o senhor recorre a médicos formados, depois a charlatões e até mesmo a
videntes. Assim como o primeiro e o segundo, o terceiro não ajuda em nada.
Tudo termina tragicamente: aquele que, ainda há pouco, acreditava administrar
algo de repente se vê imóvel deitado numa caixa de madeira, e as pessoas que o
cercam, compreendendo que não há mais nenhuma utilidade naquele que está
deitado, o queimam no forno. E existem casos piores: o sujeito pode decidir ir a
Kislovôdsk”, o estrangeiro olhou para Berlioz com os olhos apertados, “uma
coisinha de nada, pode-se pensar, mas nem isso ele consegue realizar, assim
como não se sabe por que ele de repente resolve escorregar e vai parar debaixo
de um bonde! Será que o senhor dirá que foi ele quem planejou isso para si
mesmo? Não seria mais razoável pensar que ele foi governado por alguém?” E
aqui o desconhecido desatou a soltar estranhas gargalhadas.
Berlioz ouvia com muita atenção a desagradável história do câncer e do
bonde, e pensamentos angustiantes começaram a atormentá-lo. “Ele não é
estrangeiro… não é estrangeiro…”, pensava, “é um sujeito estranhíssimo…
perdão, mas quem é ele?…”
— Estou vendo que o senhor quer fumar, não é? — o desconhecido
virou-se de repente para Bezdômny. — Quais prefere?
— O senhor tem diferentes marcas, por acaso? — perguntou sombrio o
poeta, que estava sem cigarros.
— Quais prefere? — repetiu o desconhecido.
— Ah, “Nossa Marca”, vai — respondeu Bezdômny, perverso.
O desconhecido retirou imediatamente o porta-cigarros do bolso e
ofereceu a Bezdômny:
— “Nossa Marca.”
O editor e o poeta não se impressionaram tanto com o fato de o portacigarros
conter precisamente cigarros “Nossa Marca”, mas sim com o próprio
porta-cigarros. De proporções enormes e ouro de lei, ao ser aberto, sua tampa
brilhou com uma luz azul e branca de um triângulo de brilhantes.
Nesse instante, os escritores pensaram diferente. Berlioz: “Não, não é
estrangeiro!”, e Bezdômny: “Ah, o diabo que o carregue!…”
O poeta e o dono do porta-cigarros puseram-se a fumar, e o não fumante
Berlioz recusou.
“Tenho que retrucar da seguinte forma”, resolveu Berlioz, “é, o ser
humano é mortal, ninguém discute isso. Mas a questão é que…”
Só que ele não conseguiu pronunciar essas palavras, pois o estrangeiro
começou a dizer:
— É, o ser humano é mortal, mas isso ainda seria só metade da desgraça.
O ruim é que às vezes ele é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em
geral ele não pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
“Que maneira mais disparatada de apresentar o problema…”, raciocinou
Berlioz, e retrucou:
— Ah, vá lá, existe um certo exagero nisso. Sei mais ou menos com
certeza como será a tarde de hoje. Mas é claro que, se um tijolo cair na minha
cabeça no meio da Brônnaia…
— Um tijolo — interrompeu sério o desconhecido — não cai nunca sem
mais nem menos na cabeça de ninguém. E eu lhe garanto que isso,
particularmente, não o ameaça de jeito nenhum. O senhor morrerá de morte
diferente.—
Será que o senhor sabe como? — quis saber Berlioz com uma ironia
natural, envolvendo-se pela conversa totalmente disparatada. — E vai me dizer?
— Com satisfação — replicou o desconhecido. Ele mediu Berlioz com o
olhar, como se pretendesse confeccionar um terno, balbuciou por entre os dentes
algo como “um, dois… Mercúrio na segunda casa… a lua saiu… seis, desgraça…
entardecer, sete…” e anunciou em voz alegre e alta: — Vão cortar sua cabeça!
Bezdômny esbugalhou os olhos selvagens e perversos para o atrevido
desconhecido e Berlioz perguntou com um sorriso amarelo:
— Quem exatamente? Os inimigos? Os invasores?
— Não — respondeu o interlocutor — uma mulher russa, uma
komsomôlka.5
— Hum… — rosnou Berlioz, irritado com a brincadeira do desconhecido.
— Ah, calma lá, me desculpe, mas isso é pouco provável.
— Desculpe-me também — respondeu o estrangeiro —, mas é verdade.
Ah, será que eu poderia perguntar o que o senhor vai fazer hoje à tarde, se não é
segredo?—
Segredo algum. Agora vou até minha casa na Sadôvaia e depois, às
dez da noite, haverá uma reunião na Massolit e eu vou presidi-la.
— Não, isso não pode ser, de jeito nenhum — retrucou o estrangeiro com
firmeza.—
Por quê?
— Porque — respondeu o estrangeiro e, com os olhos franzidos, fitou o
céu, sulcado por silenciosos pássaros negros, pressentindo o frescor da noite —
Ánnuchka já comprou o óleo de girassol, e não só comprou como já o derramou.
Não haverá reunião.
Nesse instante, é bastante compreensível, o silêncio caiu sob as tílias.
— Desculpe — falou Berlioz após uma pausa, olhando para o estrangeiro
que balbuciava coisas sem sentido —, mas o que o óleo de girassol tem a ver
com isso… e de qual Ánnuchka você está falando?
— O óleo de girassol tem a ver pelo seguinte motivo — disse de repente
Bezdômny, que, pelo visto, resolveu declarar guerra ao interlocutor intrometido
—, o senhor, cidadão, não esteve em algum sanatório para doentes mentais?
— Ivan! — exclamou baixinho Mikhail Aleksándrovitch.
Mas o estrangeiro não se ofendeu nem um pouco e deu uma bela
gargalhada.
— Estive, estive, sim, várias vezes! — gritou ele, rindo, mas sem tirar os
olhos nada risonhos do poeta. — E onde é que eu não estive! Pena que não tive
tempo de perguntar ao doutor o que é esquizofrenia. Por isso, o senhor terá de
perguntar-lhe pessoalmente, Ivan Nikoláievitch!
— Como sabe meu nome?
— Perdão, Ivan Nikoláievitch, mas quem não o conhece? — Nesse
momento o estrangeiro tirou do bolso o exemplar do jornal Literatúrnaia
Gaziêta do dia anterior e Ivan Nikoláievitch viu na primeira página o seu retrato
com seus poemas embaixo. Mas a prova de fama e popularidade, que ainda
ontem o alegrava, dessa vez não proporcionou sentimento de felicidade ao poeta.
— Desculpe — disse ele, e seu rosto ficou sombrio —, mas o senhor
poderia aguardar um minuto? Quero trocar duas palavrinhas com o camarada.
— Oh, com prazer! — exclamou o desconhecido. — Está tão bom aqui,
sob as tílias, e eu, aliás, não estou com pressa.
— É o seguinte, Micha —6 pôs-se a cochichar o poeta, arrastando Berlioz
para o canto —, ele não é turista estrangeiro coisa nenhuma, mas sim espião. É
um emigrante russo que conseguiu entrar aqui. Pergunte por seus documentos,
senão vai fugir…
— Você acha? — cochichou Berlioz agitado, e pensou: “De fato, ele está
certo…”
— Acredite em mim — sibilou o poeta em seu ouvido —, ele está se
fazendo de bobo para pedir algo. Viu como fala russo? — o poeta falava e
olhava de soslaio, cuidando para que o desconhecido não escapasse. — Vamos
prendê-lo, senão vai fugir…
O poeta puxou Berlioz pelo braço até o banco.
O desconhecido não estava sentado, mas parado perto do banco,
segurando nas mãos um livro com encadernação cinza-escura, um envelope de
papel bom e grosso e um cartão de visita.
— Desculpem-me, mas no ardor de nosso debate esqueci de me
apresentar. Aqui está o meu cartão de visita, o passaporte e o convite para vir a
Moscou7 para dar consultoria — disse o desconhecido de forma convincente,
lançando um olhar penetrante para os dois literatos.
Estes, por sua vez, ficaram sem jeito. “Diabo, ele ouviu tudo…”, pensou
Berlioz, e com um gesto educado indicou que não havia necessidade de
apresentar documentos. Enquanto o estrangeiro empurrava os papéis para o
editor, o poeta conseguiu divisar no cartão a palavra “professor”, impressa com
letras estrangeiras e a letra inicial do sobrenome — “W”.
— Muito prazer — balbuciava o editor, sem graça, enquanto o
estrangeiro guardava os documentos no bolso.
Assim, as relações foram restabelecidas e os três se sentaram novamente
no banco.—
O senhor foi convidado na qualidade de consultor, professor? —
perguntou Berlioz.
— É, como consultor.
— É alemão? — quis saber Bezdômny.
— Eu? — respondeu o doutor em forma de pergunta e de repente ficou
pensativo. — Sim, provavelmente alemão… — disse ele.
— O senhor fala russo muito bem — observou Bezdômny.
— Oh, sou poliglota e domino um grande número de idiomas —
respondeu o doutor.
— E o senhor tem alguma especialidade? — quis saber Berlioz.
— Sou especialista em magia negra.
“Pronto!”, pensou Mikhail Aleksándrovitch.
— E… e o senhor foi convidado por causa dessa especialidade? —
perguntou ele, gaguejando.
— Sim, por causa dela — confirmou o doutor, e esclareceu: — Aqui, na
biblioteca estatal, foram descobertos manuscritos originais do necromante
Gerbert D’Aurillac,8 do século X. Pois bem, é preciso que eu os decifre. Sou o
único especialista do mundo.
— A-há! É historiador? — perguntou Berlioz, com grande alívio e
respeito.—
Sou historiador — confirmou o cientista e acrescentou sem mais nem
menos: — Hoje à noite, em Patriarchi Prudý, acontecerá uma história
interessante!
Novamente o editor e o poeta se surpreenderam muito. O professor
chamou ambos para perto de si e, quando eles se inclinaram, cochichou:
— Saibam que Jesus existiu.
— Veja bem, doutor — replicou Berlioz com um sorriso forçado —,
respeitamos seus grandes conhecimentos, mas, sobre esse assunto, temos pontos
de vista diferentes.
— Não precisa de ponto de vista coisa nenhuma — respondeu o estranho
professor —, ele simplesmente existiu e pronto.
— Mas é preciso ter alguma prova… — começou Berlioz.
— Não precisa de prova nenhuma — respondeu o doutor, que se pôs a
falar baixo e, sabe-se lá por quê, seu sotaque desapareceu: — É tudo simples: de
manto branco com a barra cor de sangue, com movimentos gingados de um
cavaleiro, na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan…
PROPOSTA
Bem, é exatamente isso o que você vai fazer: um encontro fortuito com o Diabo.
Seus personagens, porém, não vão saber que se trata do Coisa Ruim, quando ele aparecer para eles.
Use a mesma estrutura de Bulgákov. Dois amigos (ou amigas, ou um casal, ou pai e filho, ou mãe e filha, ou dois vizinhos?) fofoca sobre algum assunto e fala mal da vida alheia, quando aparece perto deles uma figura curiosa (homem, mulher, jovem, criança, animal, planta?), que passa a compartilhar a conversa com eles. Apesar do estranhamento, eles se deixam seduzir pela figura, sem jamais saber – embora o leitor desconfie (faça com que o leitor desconfie) – que se trata do Demo.
O que a sua dupla conversa, fora falar mal dos outros, com o que eles estão preocupados?
- Com o casamento de alguém
- Com dívidas impagáveis
- Com uma doença misteriosa
- Com um crime enigmático
- Com o tráfico de drogas
- Com um problema mecânico
- Com a escalada da violência
- Com o luto de alguém querido
- Com uma cafajestagem bestial
- Com o vazamento de nudes
- Com uma receita genial
- Com um livro que acabou de ser lançado
Capriche nas descrições de todos os personagens ao longo de todo o conto, narre na terceira pessoa, usando muitos diálogos, em até 9 mil toques.
