Tá me ouvindo?

por Américo Paim

Delfino era um cara bonito e vaidoso, desejo de umas tantas criaturas. Trabalhava de mecânico na oficina de Jambeiro. Serviço pesado, só que ele gostava. Tinha 32 anos e boa forma física. O rosto parecia rude porque a barba crescia rápido, mas os cabelos fartos e grossos, penteados com paciência, abrandavam a foto. Os olhos castanhos claros eram seu charme, além do nariz, algo saído de revista de modelos. A natureza lhe foi generosa, a não ser pela audição. Escutava mal desde menino, embora não fosse surdo e tampouco fosse coisa de saúde ocupacional. Não usava aparelhos por achar feio.

Morava sozinho e era Dedé para os amigos. Os mais chegados eram Edson “Casquilho”, colega da oficina e Clésio “Merreca”, da farmácia. Os três cresceram juntos na cidade. Casquilho era esperto e escorregadio. Muito magro, nem bonito nem feio, metido a entender de tudo. Merreca era silencioso, observador, mas ficava à vontade com os dois parceiros.   

 

Naquela manhã de sábado, Dedé acordou com os passarinhos cantando e estranhou escutar com tanta nitidez. Seguiu sua rotina. Ao primeiro jato d’água no chuveiro, pulou de susto e se sacudiu para trás, no reflexo. Entrou água no ouvido e não foi nos habituais. Afastou o cabelo e colocou a mão atrás da cabeça. Concluiu, apavorado, que havia mais uma orelha! Sim, agora eram três. Gritou de susto e o ouvido novo doeu. Parecia maior e era bem melhor que os outros. Coisa muito esquisita, até mesmo para as histórias de Pedra Velha.

– Vem pra cá agora!

– Qual foi, véi? Tá cedo. Que hora é essa?

– É sério, mizera!

– Peraí, calma. Alguém morreu?

– Não, cacete! Vem logo! E traga Merreca.

– Oxe, é conferência?

– Acho que tô aluado, mermão!

– Eu, hein… Pera que tô indo.

Casquilho e Merreca chegaram rápido e a cara do amigo dizia que alguma coisa grave tinha acontecido. Caíram o queixo com a revelação, mas não perdoaram.

– Como essa diaba foi parar aí?

– E eu sei?

– Que problema.

– Nada… Aí eu vi vantagem!

– Porra, seu filho da puta!

– Rapaz, vai ouvir é tudo agora!

– Já tô! E tá foda.

– É o quê, véi?

– Até suspiro de muriçoca eu escuto. Por isso botei essa touca de rasta.

– E adianta?

– Diminui a zoadeira.

– A galera da oficina vai cair matando…

– Vai não, vocês precisam me ajudar!

– Como?

– Porra, Merreca, você é o estudioso. Arruma uma cura aê!

– Acho que só cirurgia…

– É, precisa ver um entendido.

– Nem fudendo!

– Um especialista de orelha esquerda.

– É esquerda?

– Sim. E é grande.

– E essa agora… É feia?

– Coisa medonha…

– Porra, ópaí…

– Para de pirraçar, Casca. É uma orelha normal, Dedé. Só é maior.

Procuraram e nada na Internet. Nenhum caso de terceira orelha pelo mundo. Ou notícia de que alguém tivesse perdido uma. A coisa era quase o dobro do tamanho das outras e era da mesma cor. Não tinha pelos e estava limpa. Com jeito dava para encobrir com o cabelão de Dedé. Ele rechaçou a ideia porque aquilo coçava, era incômodo. Quando o vizinho colocou uma música alta enquanto lavava o carro, como sempre fazia, foi preciso algodão no sensível novo ouvido. Dedé estava apavorado. Ele ouvia a mínima conversa. Parecia um salão com pessoas debatendo. Como ia viver com aquilo? Além de feio, estranho. As pessoas iam reparar. E as mulheres? Ainda iam ficar com ele?

– É, tá barril, papá, mas cê ainda pode se dar bem.

– Ah, legal…

– Pode escutar uns segredinhos e ganhar dinheiro.

– Não tinha pensado assim.

– Isso não é certo!

– Calma, Merreca, foi só uma ideia.

– Não vai dar. Logo vão querer me matar, pense aí.

– Como assim, véi?

– Vão dizer que tô ouvindo tudo, espalhando coisa…

– Você precisa é de um médico, já falei.

– Porra niúma. Tem que ter uma saída…

Discutiram e não acharam solução. Os amigos, solidários, dormiram lá. Tomaram todas. Passaram o domingo com ele, pensando alternativas. Não faltaram as piadas, claro. A frase “ouvido de mercador” virou “ouvido de feira livre”; “entrou por um ouvido e saiu pelo outro” agora era “entrou por um ouvido e ficou na dúvida”. No fim das contas ele topou o médico e Merreca arrumou um otorrino amigo seu, Doutor Cerqueira, na capital. Na segunda-feira, mentiram para faltar ao trabalho e foram à consulta.

– Doutor, como isso é possível?

– O que houve?

– Sei lá. Um dia não tava e no outro apareceu.

– Preciso de mais exames, imagens detalhadas.

– O caso é grave?

– É que não é uma cartilagem extra. É uma estrutura completa.

– E agora?

– Calma. Ele está funcionando bem.

– Ouço até demais!

– Nunca vi um caso assim.

– Agora lascou de vez…

– Talvez um controle de volume.

– Aparelho? Aí não…

– Isso ia lhe ajudar.

– Nem pensar! Doutor, eu vou morrer?

– Sim, um dia. Não por causa disso.

Retornaram para casa, decepcionados. Para Dedé a volta ao trabalho foi complicada. Precisou de umas proteções especiais para o barulho da oficina, mas o terceiro ouvido, mais sensível, não dava sossego. As piadinhas continuaram. Os mais novos o chamavam de Dobby, Baby Yoda. Os mais velhos lembraram Dumbo e Topo Gigio. No fim das contas, ele virou Orelha. E assim ficou.

Em uma semana ele se acostumou ao novo órgão. Uma menina sugeriu e ele fez até uma tatoo “I hear you now” no local. Colocou um brinco também. Teve até a “festa da orelha”, promovida por meninos adolescentes querendo dicas do mecânico para conseguir determinados órgãos extras.  Não demorou e ele virou “central de escuta”. Ouvia de tudo e recebia dinheiro. Era discreto ou já teriam matado. Fofocas, cantadas, reuniões empresariais, segredos de confessionário, planos para roubos, nada escapava ao ouvido infame de um cada vez mais relaxado Delfino. A uma distância mínima de cem metros já escutava tudo. Selecionava as mais importantes, que poderiam lhe render algum. Casquilho seguia próximo e incentivava, mas Merreca se afastou, ameaçando que aquilo era imoral.

Na semana seguinte, Dedé estava em uma lanchonete. Ouvia música nos fones adaptados para três orelhas. Era cedo, seu horário preferido por ser mais vazio. Tirou os fones por um instante e captou a conversa de dois caras, cinco mesas à sua frente.

– Tem certeza? O chefe tá um siri na lata.

– É aqui. Não tem como errar.

– Quem é o sujeito?

– Oxe, um cabra já me contou. Não é difícil achar alguém com três orelhas, né?

– História sem pé nem cabeça.

– Mas com orelha. Madame Silveirinha explicou.

– A véia doida, a vidente? Ela num erra tudo?.

– Dessa vez ela garantiu.

Dedé, com medo, foi embora sem esperar o fim da conversa. Saiu sem ser notado.

– Reparou como ele amansou esses dias?

– É, o chefe nem parece ele.

– Ele contou do sábado que acordou desorelhado. Foi do nada. Diz que nem sangrou.

– Eita e foi?

– De lá pra cá ele tá doidinho sem ouvir direito.

– Agonia da porra.

– Madame falou que é coisa do sete-peles.

– Creindeuspade!

– Oxe, mas tem jeito.

– E é?

– Ele precisa de ficar sozinho com o “três orelha” e dizer uma reza pro cramulhão.

– Deus é mais. E aí?

– Volta tudo ao normal. Ela falou.

– E por que ele tá quieto desse jeito?

– Ela mandou. Ele vinha demais. Roubando, matando, aleijando…

– Oxe, não é mermo coisa do demo?

– Sei não. O chefe sempre foi assim bruto…

– E se o orelhudo não quiser falar com ele?

– Aí vai ficá rúim. Diz que vão trocá de vida e a morte vai ser ligeira, na sofrência.

– Oxe, vai ter música?

– Não, seu cavalo. Vão comer o pão que lá ele amassou.

– Vixe. Coisa doida.

– A véia falou que é feitiço. Chama “muda sina”. Óia, até arrupiei aqui.

– Oxe, que sino é esse? É igreja?

– É sina, jumento. O surdo agora é tu?  

     

Os amigos tranquilizaram Dedé: sempre alguém perguntava pela orelha. Ele tentou esquecer tudo aquilo. Na tarde daquele dia, apareceram dois caras na oficina. Entraram sem cerimônias. Logo atrás deles, um sujeito enorme, muito forte, careca, calça jeans suja e uma camiseta onde se lia “I don’t give a shit”. Estava claro que não chegou para fazer amigos. Só ele falou.

– É aqui que trabalha Delfino?

Todos notaram que o homem não tinha a orelha esquerda.

Só Dedé reparou que não havia brinco na direita.

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