tbt melancia

Não dormi muito mas mesmo assim ao escovar os dentes, vi que meus olhos pareciam duas bolas castanhas com um casaco grosso de inverno de tanto que minhas pálpebras estavam inchadas. Depois de tomar café, fui conferir meu saldo no aplicativo do banco e quase voltei para a cama, quem sabe se eu não acordasse mais. Cheguei a ficar com tontura. Relutando, resolvi ligar para o Théo.

– Oi, Nina, tudo bem?

– Tudo e você? Como o tio Arthur está?

– Todos tranquilos, diga.

– Théo, preciso de um favor. Será que você podia me emprestar uns três mil reais? Vou ter que me mudar.

– Para onde você vai?

– Para um apartamento menor, aqui perto.

– Olha, Nina, este mês estou apertado. Num lugar mais barato você consegue começar uma vida nova.

– Tenho um monte de conta para pagar.

– Se você tivesse pedido uns dois meses atrás.

Desliguei o telefone mordendo os lábios de raiva. Apertado? Só se a camisa social estiver esmagando barriga dele. Não sabia o que fazer e também não queria pedir dinheiro para o meu tio, ele vivia da aposentadoria e da ajuda do Théo. Se eu fizesse isso, na certa, ia ter confusão. O jeito era penhorar as joias da minha mãe, as únicas coisas de valor que recebi depois da morte dos meus pais, mais para frente eu arrumava uma grana para resgatar.

Elas estavam guardadas numa caixa de madeira pintada de verde, na estante da sala, atrás do Memórias Póstumas de Brás Cubas. Por que eu tinha escolhido esse livro? Não tinha a mínima ideia.

Fiz outro café e para que esfriasse logo, fiquei mexendo a colherinha na xícara. Mentira, eu estava enrolando, não queria ver o anel com os dois brilhantes enormes, o que valia mais e também o mais bonito. Mamãe um dia me disse que ele ia ficar para a Maria Eduarda, a mulher do Théo. A desculpa foi que os meus dedos eram raquíticos demais para ele. Na verdade, mamãe admirava aquela sonsa, além de certinha, era casada, o oposto de mim. Como ela contou só para mim, Eduarda ganhou o vaso chinês.

Ao virar o conteúdo da caixa em cima da mesa, achei estranho, a pilha parecia bem maior. Quando fui espalhar as joias, minha mão tocou em algo fofo, uma lagartixa, pensei. Recolhi o meu braço depressa. Usei a colherinha para afastar as peças. Não era uma lagartixa. Um dedo? O que esse dedo está fazendo aqui? E o pior, não estava podre e muito menos roxo, pelo contrário, um tom avermelhado cobria as partes gordinhas. Sinal que era um dedo recém-amputado. Entrei em desespero, mas quando fiz o dedo rolar, vi que a unha era igualzinha a do meu pai, então estávamos em família.

Logo em seguida o dedo ficou em riste e começou a se mexer de um lado para o outro como uma bússola. Apontava para as peças que eu devia pegar, um broche com rubis, um colar com uma corrente pesada de ouro, uma pulseira cravejada de brilhantes e lógico que o anel de Maria Eduarda. Só não entendi o motivo de ter escolhido o relógio de bolso, não devia valer nada. Quando terminou, o dedo pai se encolheu feito um tatu-bola.

Me arrumei depressa, guardei as joias no estojo dos óculos e pus o dedo no bolso da calça. Tinha uma agência de penhor na rua Augusta. Desci até lá e depois de esperar bastante, fui atendida por um senhor careca, encurvado e com o bigode manchado de nicotina. Me recebeu como se eu fosse uma melancia suculenta, pelo menos foi essa a impressão que eu tive.

Assim que mostrei minhas joias, senti o dedo do meu pai se mexer e tocar de leve na minha coxa. O avaliador careca olhou tudo com bastante atenção e deixou de lado o relógio, falando que ele não valia quase nada, mas o resto sim. Como o dedo não parava de me cutucar, resolvi insistir. Tem certeza? Alguém me garantiu o contrário. Ele fez uma cara contrariada e tossiu, eu podia jurar que um caroço de melancia tinha voado da sua boca, mas depois, achei que fosse um pedaço de uma obturação, dessas antigas e escuras, porque ele tratou de se livrar dela depressa. Pegou a lupa e passou um tempo fazendo caras e bocas ao observar o relógio, disse que tinha encontrado uma trava bem pequena no lado direito. O dedo do meu pai achou que a minha coxa era um pula-pula e não parava mais quieto. Não consegui segurar a risada. Assim que o compartimento do relógio foi aberto com a ajuda de uma espécie de alfinete, o senhor melancia ficou vesgo.

– Tem uns papeizinhos aqui.

– Hã?

– Olha.

Uns papeizinhos com a boca dos Rolling Stones. Fiquei vermelha ao pegar o relógio e com a outra mão apertei o dedo com força. Que vergonha, pai! LSD? Tudo bem que você e a mamãe eram hippies. Não sabia se o sem um pedaço do dente percebeu do que se tratava, mas mesmo assim achei melhor guardar o relógio rapidinho. Fizemos os trâmites do penhor, a quantia que recebi não era muita, mas dava para os gastos.

No caminho de volta para casa, papai, ou melhor, o dedo do meu pai, ficou alucinado e queria sair do bolso. Pai, não é hora de ter crise de abstinência! Eu sei que você sempre foi brincalhão, mas porra. Quando cheguei no meu apartamento a primeira coisa que fiz foi pegar a caixa verde. Papai já beirava o insuportável. Coloquei o relógio aberto para que ele visse o LSD e fosse para caixa bonzinho. Antes, pus um dos papeizinhos na minha língua, quem sabe assim eu ia conseguir conversar com papai.

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