por Américo Paim
Na mesa 12 do Bar do Cabeça Quente, dois homens, a quem todos temiam, bebiam a cerveja bem gelada que fez a fama do local. O garçom Firmino foi até lá controlando os nervos e serviu mais bebida. Dermeval se espreguiçou na cadeira de plástico. O rosto afundado de magreza lhe destacava os olhos. A cicatriz de navalha, da orelha esquerda até metade da bochecha, ficava escondida pela barba descuidada e a pele preta. Ele sorria com três dentes faltando. Tamborilava na mesa com a mão esquerda. Na direita o 38, no colo, de um jeito discreto. Bezerra reclamou do parceiro.
– Guarda essa merda.
– Qualé, ninguém tá vendo.
– Tá dando mole…
O jeito almofadinha de Bezerra disfarçava bem. Cultivava barba bem feita, cabelos, dentes e unhas impecáveis. Nada sofisticado a ponto de esconder sua real condição. Falava macio e usava um relógio de marca, fruto de roubo. Sofria com excesso de peso. Dermeval puxou assunto.
– E aí, ele tem solução?
– Quem, Pança?
– Sim, o cornão.
– Não sei. Vai acabar em sangue.
– Será que ele vai pra cima do cara?
– Não tem escolha. A falação tá pesada.
– Acho que vem pedir o serviço.
– Vem não. Muito óbvio.
– Essa grana ia resolver nosso problema.
– Você não aprende, né?
– É o quê?
– O ricardão lá é filho de Dona Conceição, amiga de mainha.
– E daí? Pança é chapa nosso.
– Mesmo assim. Mãe não ia perdoar nunca.
– Ela precisa saber?
– Isso não existe, cê sabe. O que cala a boca é dinheiro.
– Tá certo também.
O caso de Pança era conhecido. Destratava e agredia a mulher. As vizinhas do bairro pediam a Solange que desse queixa na DP. Ela, com medo, nunca fez. Há pouco mais de três meses levou uma batedeira na oficina de Birro Doido. Lá conheceu Humberto, moço da idade dela, vinte e poucos, bonito, gentil, chegado nas redondezas há pouco tempo. No início foi só uma atração. Quando ele descobriu a situação dela, começaram os encontros escondidos. Pança desconfiou. Trancou a mulher em casa. Um dia, Humberto entrou. Foi quase um flagrante. Pela janela do quarto do casal, Pança ainda viu o jovem sumindo ladeira abaixo. Foi esquisito ele não ter feito nada na hora. Nunca foi santo. A mulher permanece presa em casa desde então.
A conversa na mesa 12 seguia, quando entrou um homem. A figura destoava da simplicidade local. Alto, magro, mas longe de parecer frágil. Seu olhar ordenava. Usava camisa e calça de marca, relógio fino. O andar era dominante. Fumava uma cigarrilha e subiam anéis de fumaça perfeitos. Olhou ao redor e foi para a mesa 8, a mais discreta, no canto do salão. Bezerra ficou muito interessado.
– Aquele ali tem grana.
– Oxe, tem cara de otário não. Eu num ia mexer com ele…
– Aonde… Sujeito é fino, tem farinha no saco.
– Sei não…
– Se vacilar, a gente resolve aqui mesmo.
– Tá doido? No meio do bar?
– É só levar ali no beco e fazer a limpa.
Conferiram o cenário em volta, Dermeval guardou a arma e foram em direção ao misterioso visitante. Se apresentaram, mas por alguma razão Bezerra perdeu o ímpeto, ficou sem forças. Foram bem recebidos.
– Senhores, sentem-se. Podem me chamar de Luca.
– Está de passagem?
– Sempre.
– O que traz o amigo aqui?
– Trabalho. Sou um influencer.
– Influquê?
– Um influenciador. As pessoas seguem o que sugiro.
– Muito interessante. Dá dinheiro?
– Não me preocupo com isso, Bezerra.
– Então é bem-sucedido.
– Vem dando certo há muito tempo.
– E serve para qualquer negócio?
– Sim. E quanto menos convencional, melhor.
– Resolve treta grande?
– Por que não?
– E se não for dentro da lei?
– Não tenho restrições.
A resposta conectou Bezerra. Aquela fala lhe deu uma confiança diferente. Ele não deixou de notar como sua própria abordagem mudou: em vez de querer o dinheiro do sujeito, resolveu expor sua situação.
– É uma questão um tanto delicada e urgente.
– Tá devendo quanto?
– Epa, calma aí.
– Tá na cara. Para quem?
– É mais complicado. É com Latão.
– Quem é?
– O chefe do tráfico por aqui.
– Tem conversa?
– Não. Se não matar a gente já tá de bom tamanho.
– Interessante.
– Oxe, tá maluco?
– Dermeval, calma.
– Como é esse Latão?
– Pior que o demo.
– Improvável.
– Ele é bruto, escroto. Ele é mau.
– Pouco para o demônio. Por que o apelido?
– Ele sempre larga os presuntos em um tonel.
– Oxe, num era por causa do dente de prata?
– Cala a boca, Dermeval!
– Hum, então o homem tem estilo…
– E aí, acha que pode ajudar?
– Conheço bem o perfil.
– E o que precisamos fazer?
– Deixem comigo. Sei como.
– De graça não vai ser, né?
– De onde venho, isso não importa. Não pode é deixar pontas soltas.
– Como assim?
Luca não respondeu e pediu cervejas e tira-gostos. Os amigos estranharam que ele não bebia ou comia, mas não estavam ali para recusar tal oferecimento. Estimulados pela conversa, falaram sobre outras coisas. Dermeval trouxe a assunto de Pança, ainda querendo dinheiro com aquilo.
– Então, Seu Luca, o que acha?
– Corno é coisa antiga.
– Vai acabar em morte.
– E daí? Matar por causa de mulher não é novidade.
– A gente tava pensando…
– Sei bem o que querem.
– Viu, Bezerra, falei que ele era nosso.
– Na verdade, vocês é que são meus.
– Como é?
– Meus clientes.
– Ah, bom.
– Se bem entendi, o problema é Dona Conceição.
– A velha?
– O “assunto Humberto” não pode ser resolvido porque é filho dela.
– Sim, mas fale baixo.
– É preciso cuidar dessa senhora, então.
– Peraí. O que tá falando?
– De criar oportunidade. Acidentes acontecem.
– Quer matar a véia?
– Não sou eu.
– Não é bem assim, calma aí.
– O tal Pança não vai encomendar o serviço? Deve pagar bem.
– Sim, mas isso não…
– Ela desce as escadarias do Morro do Coentro todo dia, não é?
Bezerra idealizou a cena e engoliu em seco. Como ele poderia saber daquilo? A dúvida saiu rápido de sua cabeça quando enxergou a possibilidade de pagar a Latão e se livrar de morrer. Luca falava como quem lia receita de remédio. Não movia músculo, com aquele olhar que não deixava dúvidas. Dermeval se animou.
– Ah, já entendi. Um trompaço e é véia ladeira abaixo.
– Tá louco, idiota? Não fazemos assim.
– Não recrimine o rapaz. Ele viu a chance. Dá para fazer amanhã.
– Véi, é grana na mão!
– Não e pronto. Além disso, Pança nem falou nada.
– Vai falar.
– Como sabe? Conhece ele?
– Eu lhe garanto que vai.
– Muito arriscado.
– Pelo contrário. Aí, no enterro da mãe, é a hora do filho.
– É o quê?
– Veja a facilidade. Vulnerável. No calor da coisa é sempre melhor.
– Ele tá certo, Bezerra.
– Ele tá é louco. Deus é pai! No cemitério?
– Começou… Não adianta chamar por esse pessoal aí.
– Quem?
– Escutem: é rápido, tudo se resolve, inclusive a dívida.
– De onde tirou essa ideia?
– Brilhante, não?
– Parece coisa do diabo.
– Tomarei como elogio.
– Hein?
– E então, o que estão esperando?
Ele se levantou. Disse que pagaria a conta, despediu-se e caminhou até o balcão. Trocou rápida ideia com o garçom e saiu deixando aquela tensão no ar. Firmino pegou o telefone, ansioso. Precisava confirmar tudo com seu primo. Falou baixo.
– Velho, já pagou pro cara?
– Oxe, claro. Com ele não se brinca. Disse que vai resolver o assunto amanhã.
– Pediu alguma coisa mais?
– Achei estranho, mas já fiz. Falou que deixasse três toneis no Beco do Sapo.
– Vixe, três?
– Calma, vai dar tudo certo, primo. Chego cedo aí.
– Tchau, Humberto.
Não muito depois, Pança entrou no bar, transtornado. Parecia já ter bebido algumas. Foi direto à mesa dos dois amigos. Como era de se esperar, pediu o serviço: apagar Humberto. Não aguentava mais aquilo. Negociaram valores. O que receberiam cobriria a dívida e ainda sobrava. Curioso, Bezerra perguntou se ele conhecia Luca. Ele confirmou que o encontrou pela primeira vez naquela manhã, no banco da praça, quando ele estava sozinho, pensando sobre o que fazer com sua condição de marido traído. Disse que ele foi bem convincente ao confirmar que Bezerra e Dermeval eram a melhor opção para esse tipo de trabalho.
Na manhã seguinte, os dois contratados saíram para a casa de Dona Conceição. Iam seguir a velha até o topo da escadaria fatídica. Ao passarem pela frente do Beco do Sapo, pararam ao ouvirem seus nomes. Entraram, como a voz comandou. A luz do sol refletia no dente de prata do sorriso do homem forte e ameaçador com uma pistola apontada para eles. No chão, ao lado de três toneis, um corpo conhecido.
– Bezerra do céu, aquele é Pança!
– Tá enxergando bem, Dermeval.
– Seu Latão, por que matou o home?
– Negócio lucrativo.
– E nós dois? Que é que tem a ver?
– Nada pessoal. Vocês me devem.
– A gente vai pagar!
– Dermeval, seu banco tá ali no chão. Vai pagar como?
– Vamos conversar, por favor.
– Bezerra, fim de papo.
– A gente tava sem serviço. A situação tá barril!
– Barril não, tonel.
O silenciador no cano do revólver deixou tudo discreto. Latão, que duvidou até o fim se Bezerra caberia no tonel, sorriu satisfeito e se apressou a seguir seu caminho.
Humberto estava no Bar do Cabeça Quente celebrando com seu primo e Luca chegou. Apenas informou ao garçom que esperava uma pessoa a qualquer momento e foi para a mesa 8. Os primos conversavam animados quando Latão entrou. Mais duas balas silenciosas e os assuntos todos foram resolvidos. Afinal, Luca não gostava de pontas soltas.
